Um dia entre Kubrick, Wong Kar-wai e Park Chan-wook
- Por Equipe Cineweb
- 23/10/2013
- Tempo de leitura 16 minutos

Barry Lyndon
Realmente, é preciso ver Barry Lyndon na tela do cinema – e a cópia exibida na Mostra está especialmente ótima – para atentar a todos os detalhes da composição das imagens, da fotografia e mesmo a trilha sonora, que inclui Handel, Schubert e Vivaldi. É preciso olhar o filme, também, sem qualquer tipo de reverência, uma atitude que em geral se evoca para produções de época como esta. Basta prestar a atenção ao meditado descompasso entre a narração em off e as cenas que se armam. A primeira é cínica, irônica, enquanto as imagens mais sérias, meditadas.
É nesse choque que se dá a ascensão e queda de Redmond Barry, jovem irlandês pobretão, cujo destino é muito ajudado pela sorte. Na primeira parte, vemos o personagem – interpretado por Ryan O’Neal – subir na vida sem muito esforço, sendo empurrado pelas forças do destino. Ele é um alpinista social por natureza, sem se dar conta disso. Sua escalada começa no exército, depois de deixar sua terra por matar um capitão inglês (Leonard Rossiter) num duelo por sua prima. E chega ao topo, quando conhece Lady Lyndon (Marisa Berenson), cujo marido, Sir Charles Lyndon (Frank Middlemass), está nas últimas e lhe deixará uma fortuna imensa, além de um filho pequeno.
Essa primeira parte toma cerca de dois terços do filme – que tem 3 horas. Já há um indício de ironia aí. O segundo segmento, já casado com Lady Lyndon e adotando o seu nome, vemos a decadência de Barry. A queda costuma ser mais rápida do que a ascensão. O casal tem um filho, o que seria a garantia de um futuro financeiramente tranquilo para o pai, não fosse os ciúmes do primogênito, Lord Bullingdon (Leon Vitali, que por muito tempo trabalhou como assistente de Kubrick, até a morte do diretor, em 1999).
Kubrick – que assina o roteiro sozinho, adaptando do romance homônimo do século XIX, de William Makepeace Thackeray – compõe um estudo de personagem sobre a ambição e as forças do destino que nem sempre se casam com os desejos do protagonista. Os esforços de Barry para conseguir um título de nobreza são em vão – como tudo o mais na vida, como sustenta o letreiro final: “Foi no reinado de George III que os personagens citados viveram e duelaram; bons ou maus, bonitos ou feios, ricos ou pobres, são todos iguais agora”.
(Alysson Oliveira)
(Alysson Oliveira)
Indicação: 14 anos
CINEMARK - SHOPPING CIDADE JARDIM 6
26/10/2013 - 21:00 - Sessão: 807 (Sábado)
26/10/2013 - 21:00 - Sessão: 807 (Sábado)

O Grande Mestre
O cultuado cineasta Wong Kar-Wai volta a um universo parecido com aquele de seu Cinzas do Tempo (1996, e relançado numa outra versão em 2009), em seu novo O Grande Mestre. O mundo das artes marciais são o pretexto para as pirotecnias visuais do diretor, e outro tanto como metáfora para as relações humanas – especialmente as amorosas, terreno sempre explorado nos seus filmes.
A trama – assinada pelo diretor e Zou Jingzhi e Xu Haofeng – se inspira na história real de Ip Man (Tony Leung), figura que ficou conhecida como mestre de Bruce Lee, e começa quando, no final da década de 1930, ele derrota Gong Yutian (Wang Qingxiang), cuja filha, Gong Er (Ziyi Zhang), promete vingança.
Arma-se, então, as tramas com que o diretor costuma trabalhar, com amores reprimidos e desencontrados, vinganças repletas de paradoxos e a contenção de sentimentos. Se as idas e vindas na trama não são fáceis de se acompanhar, o cineasta compensa isso com imagens do mais alto apuro técnico e estético – sua marca registrada, assim como a câmera lenta.
O filme tem previsão de estreia para o primeiro trimestre de 2014. (Alysson Oliveira)
Indicação: 18 anos
CINE LIVRARIA CULTURA 1
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26/10/2013 - 18:00 - Sessão: 767 (Sábado)
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26/10/2013 - 18:00 - Sessão: 767 (Sábado)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3-27/10/2013 - 21:50 - Sessão: 834 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - POMPEIA 1
-28/10/2013 - 21:30 - Sessão: 971 (Segunda)
-28/10/2013 - 21:30 - Sessão: 971 (Segunda)
RESERVA CULTURAL 1
-29/10/2013 - 19:10 - Sessão: 1040 (Terça)
-29/10/2013 - 19:10 - Sessão: 1040 (Terça)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 4-31/10/2013 - 16:00 - Sessão: 1187 (Quinta)

Investigação sobre uma noite inesquecível
Jurado da Mostra e um dos homenageados com uma retrospectiva na programação, o filipino Lav Díaz compõe aqui um exemplar enxuto de seu estilo. Apesar de não durar muitas horas, como a maioria de seus filmes, Investigação... é uma espécie de cartilha parao que cineasta empunha como método de trabalho. A câmera permanecerá parada num único cenário por boa parte do filme, fixa em Erwin Romulo, jornalista que reconstitui sua amizade e o assassinato do jovem crítico Alexis Tioseco e sua namorada, Nika Bohink. Sem recorrer a nenhuma introdução, narração nem letreiros explicativos, Díaz confia, com bastante razão, que o relato de Romulo, pontuado por emoções variáveis e truncado na cronologia, ainda que citando vários personagens desconhecidos, nem sempre identificados por ele, dará conta de situar o espectador dentro da história. Ao final deste relato, tem-se conhecimento de um crime bárbaro, ainda não esclarecido, dos bastidores de uma sistema policial e judiciário inoperante, e da persistência de alguns, como Romulo, de seguir adiante para interferir nesse estado de coisas. O filme se completa com outra câmera parada, desta vez sobre o cenário de uma imensa manifestação silenciosa, em que os participantes seguram velas, e sobre a qual a luz do dia desvanece, a noite cai e nasce novamente a luz – ao som de um texto poético. Outro signo da permanência desta vigília, do tempo que corre diante da câmera persistente de Díaz, inscrevendo sua marca no estabelecimento de uma memória.
(Neusa Barbosa)
(Neusa Barbosa)
Indicação: 18 anos
CINEMATECA - SALA PETROBRAS
26/10/2013 - 19:00 - Sessão: 763 (Sábado)
26/10/2013 - 19:00 - Sessão: 763 (Sábado)

Os Amigos
O novo filme da paulista Lina Chamie, vibra na tela com um afeto delicado, numa construção sofisticada de narrativa, pontuada pelas interpretações iluminadas de Marco Ricca (talvez no melhor papel de sua carreira), Dira Paes, e um elenco infantil que faz intervenções realmente mágicas – além de um adorável cachorrinho, Moby.
Roteirizado pela própria Lina, Os Amigos fala de afetos de uma forma cálida e criativa, capaz de invocar a ternura possível entre as pessoas, mesmo diante da dor da perda de alguém querido, das frustrações do trabalho, do caos da chuva e do trânsito em São Paulo (cidade que, mais uma vez, aparece decisivamente enérgica e múltipla como é, num filme da autora de Tônica Dominante e Via Láctea).
As intervenções infantis nessa trajetória de um dia na vida de Téo (Marco Ricca) – que se torna uma espécie de protótipo de um ser humano qualquer – somam poesia de uma forma engraçada, musical, mágica. Há cenas com os filhos de Maju (Dira) e de uma amiga recém-viúva (Sandra Corveloni) na vida dele, com um adorável “consultor” numa loja de brinquedos – há um diálogo inusitado entre este menino e o protagonista sobre super-herois – e também trechos de uma encenação teatral/circense mirim da Odisséia de Homero. Ulisses, o herói grego, viajante no meio das águas, serve como metáfora cristalina da turbulência existencial de Téo, no dia em que acorda para ir ao funeral de um amigo de infância, Juliano (Otávio Martins), que ele não via há muito, muito tempo.
Usando, como sempre, com total propriedade e sensibilidade sua sólida formação de musicista, Lina Chamie incorpora trechos dos compositores Camille Saint-Saens (na admirável sequência no zoológico, criando um motivo musical para cada animal), Edvard Grieg e Benjamin Britten, construindo texturas dentro do filme, camadas dentro de camadas, que vão lhe dando uma consistência dramática e cinematográfica singular.
Por tudo isso e muito mais, Os Amigos mostra-se como um filme de câmera, em que o coração da diretora-roteirista, de todos os atores e técnicos (destacando-se a montagem sutil de Karen Harley), transparece na tela e abraça o seu público. Os Amigos é um filme para abraçar, uma sinfonia da ternura dos pequenos gestos. (Neusa Barbosa)
Indicação: 12 anos
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1
26/10/2013 - 21:45 - Sessão: 781 (Sábado)
26/10/2013 - 21:45 - Sessão: 781 (Sábado)
CINE LIVRARIA CULTURA 2
27/10/2013 - 14:00 - Sessão: 862 (Domingo)
27/10/2013 - 14:00 - Sessão: 862 (Domingo)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 3
29/10/2013 - 16:00 - Sessão: 996 (Terça)
29/10/2013 - 16:00 - Sessão: 996 (Terça)
Trilogia Park Chan-wook
Aproveitando a passagem por São Paulo de um dos mais famosos e premiados diretores sul-coreanos, Park Chan-wook, a Mostra programou uma bem-vinda reexibição de sua famosa trilogia: Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003) e Lady Vingança (2005). Na verdade, trata-se de uma trilogia temática, apenas. São três histórias distintas, com personagens diferentes, mas todos movidos por essa agenda vingativa, que proporciona ao diretor a oportunidade de desenvolver seu admirado estilo.
Chan Wook é um mestre da tensão e a usa sem parcimônia. Mantém seus espectadores no fio da navalha e os mergulha na angústia de seus personagens. Sua maestria maior está em criar emoções genuínas em melodramas fortes, que se acompanha com o coração na boca e um sentimento até de compaixão por seus atormentados seres: o desempregado Ryu (Shin Ra-kyun), que sequestra a filha do patrão para pagar pelo transplante de rim da irmã em Mr. Vingança; o perplexo Dae su (Choi Min-sik), obcecado em descobrir quem o manteve aprisionado por 15 anos; e a misteriosa Geum-já (Lee Young-ae), presa pela morte de uma criança e decidida a acertar contas com um ex-professor.
No sombrio mundo criado pelo diretor, há escassa possibilidade de pureza nas relações humanas. A sexualidade é sempre mostrada por um viés excessivo, não raro sórdido. Só o sangue parece capaz de expiar estas culpas, estes pavores, estas relações de dominação e abuso. É um universo fatalista, extremo como a própria vida. (Neusa Barbosa)
Leia as críticas dos filmes
MR. VINGANÇA
Indicação: 14 anos
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM
26/10/2013 - 15:45 - Sessão: 799 (Sábado)
26/10/2013 - 15:45 - Sessão: 799 (Sábado)
FAAP
30/10/2013 - 15:00 - Sessão: 1144 (Quarta)
30/10/2013 - 15:00 - Sessão: 1144 (Quarta)
OLDBOY
Indicação: 18 anos.
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM
26/10/2013 - 20:10 - Sessão: 801 (Sábado)
26/10/2013 - 20:10 - Sessão: 801 (Sábado)
FAAP
30/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1145 (Quarta)
30/10/2013 - 19:00 - Sessão: 1145 (Quarta)
CINE LIVRARIA CULTURA 2
31/10/2013 - 21:30 - Sessão: 1217 (Quinta)
31/10/2013 - 21:30 - Sessão: 1217 (Quinta)
LADY VINGANÇA
Indicação: 18 anos.
MIS - MUSEU DA IMAGEM E DO SOM
26/10/2013 - 18:05 - Sessão: 800 (Sábado)
26/10/2013 - 18:05 - Sessão: 800 (Sábado)
FAAP
30/10/2013 - 11:00 - Sessão: 1143 (Quarta)
30/10/2013 - 11:00 - Sessão: 1143 (Quarta)
CINEMATECA - SALA PETROBRAS
31/10/2013 - 20:30 - Sessão: 1208 (Quinta)
31/10/2013 - 20:30 - Sessão: 1208 (Quinta)

Run & Jump
Vários profissionais, como antropólogos, jornalistas e documentaristas, vivem o dilema da aproximação do seu objeto de estudo, pois, na mesma medida em que é necessário para melhor observação, há o risco de alterar o comportamento das pessoas observadas e comprometer a si próprio. Em Run & Jump, o neurologista Ted (Will Forte) vive essa situação contraditória ao acompanhar a reintrodução de Conor (Edward MacLiam), um paciente com graves sequelas após sofrer um derrame, no núcleo familiar.
A distância que o médico mantinha no início da sua pesquisa vai diminuindo à medida que ele percebe a maneira como o novo comportamento de Conor afeta a vida da família dele. O paciente demonstra certa falta de senso, repetição de ações e um tratamento ofensivo ao filho Lenny, que é homossexual. A esposa, a otimista Vanetia (Maxine Peake), insiste, assim como age com o seu adaptador quebrado de CD para o toca-fita do carro, que as velhas coisas funcionem, tentando impor que o marido volte a ser como antes, o que se mostra impossível. Tamanho impacto faz com que o cientista se aproxime demais dos membros dessa família, provocando transformações em todos que estão à sua volta e nele mesmo.
No papel extremamente contido de Ted, o comediante Will Forte mostra competência com sua verve dramática, que repetiu no ainda inédito Nebraska, de Alexander Payne. A diretora Steph Green, que teve seu curta New Boy indicado ao Oscar em 2009, também demonstra capacidade ao conduzir essa história, com todas as nuances de drama e pitadas de comédia em um filme que facilmente provoca risos, silêncios, e lágrimas – daqueles mais emotivos – no público. A trilha sonora acompanha esses altos e baixos do longa, que tem um de seus trunfos na fotografia de Kevin Richey, de tom amarelado e com uma iluminação incidente nos personagens que muda no decorrer das cenas dentro do mesmo ambiente interno da casa. (Nayara Reynaud)
Indicação: 14 anos
RESERVA CULTURAL 1
26/10/2013 – 15:45 – Sessão: 784 (Sábado)
26/10/2013 – 15:45 – Sessão: 784 (Sábado)
CINEMARK – SHOPPING CIDADE JARDIM 6
28/10/2013 – 19:00 – Sessão: 976 (Segunda)
28/10/2013 – 19:00 – Sessão: 976 (Segunda)

Grand Central
Destaque na seção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2013, o segundo filme da jovem cineasta e roteirista francesa Rebecca Zlotowski mostra um grande amadurecimento, unindo um romance de risco a um contexto de trabalho em usinas nucleares com claro tom de denúncia. A França é, aliás, o país europeu que mais utiliza esse tipo de energia.
Gary (Tahar Rahim) é um jovem desempregado, que acaba recrutado para o serviço de limpeza dessas usinas, compondo com outros rapazes iguais a ele um exército de trabalhadores temporários, expostos aos enormes perigos com a radiação – que eles não desconhecem, mas têm poucas condições de recusar, devido ao imenso desemprego na Europa.
Gary (Tahar Rahim) é um jovem desempregado, que acaba recrutado para o serviço de limpeza dessas usinas, compondo com outros rapazes iguais a ele um exército de trabalhadores temporários, expostos aos enormes perigos com a radiação – que eles não desconhecem, mas têm poucas condições de recusar, devido ao imenso desemprego na Europa.
Contratado, Gary e seus amigos são alojados perto de uma usina, unindo-se a supervisores como Gilles (Olivier Gourmet) e Toni (Denis Ménochet) – homens experientes nesta atividade absurdamente arriscada, que deveria ser destinada apenas a robôs, o que não ocorre para evitar custos às empresas. Gary envolve-se com a mulher de Toni (Léa Seydoux), injetando na história o intimismo, humanizando o que poderia ser apenas um drama sindical e político.
Todos esses ingredientes, reunidos com boa liga, proporcionam um filme forte, ótimo de ver. Uma nova diretora nasce no cinema francês – e conduz muito bem seu elenco admirável, além de traçar na tela um retrato realista da realidade de seu país, que não é nada rósea. (Neusa Barbosa)
Indicação: 14 anos.
CINEMATECA - SALA BNDES
26/10/2013 - 16:00 - Sessão: 758 (Sábado)
26/10/2013 - 16:00 - Sessão: 758 (Sábado)
Outras informações no site da Mostra
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