06/06/2026

Mostra rende-se ao olhar infantil

O italiano Anni Felici, de Daniele Luchetti (de Meu irmão é Filho Único), e o infantil brasileiro O Menino no Espelho (foto), de Guilherme Fiúza Zenha, trouxeram a visão das crianças para a tela, no quinto dia de projeções do Cine PE.

Enquanto o primeiro é uma comédia dramática um tanto autobiográfica de Luchetti (que olha para sua infância e o relacionamento de seus pais), O Menino do Espelho é baseado no romance homônimo, também com toques autobiográficos, de Fernando Sabino (1923-2004) e sua vida em Belo Horizonte.

A noite começou com a exibição do italiano, que participou da Mostra Internacional de São Paulo no ano passado. No filme, Dario (Samuel Garofalo), alter ego do diretor, relata em primeira pessoa sua vida em família: seu pai, Guido (Kim Rossi Stuart), um artista plástico egocêntrico e com pouca projeção, mãe Serena (Micaela Ramazzotti), insegurança e dependente, e o caçula Paolo (Niccolò Calvagna), que conquistou a empatia do público.
 
Ambientada no início dos anos de 1970, a história se concentra na relação conflituosa entre os pais, que parecem não conseguir viver juntos ou separados. Quando Guido enfrenta problemas com a crítica, que debocha de seu trabalho, Serena parte com os filhos para um refúgio feminista, onde encontrará mais do que amizades - gravadas pela câmera Super-8 de Dario. 
 
Com humor e elenco afinado, Anni Felici carrega na narrativa de Dario, que olha já adulto para sua infância. Com a sensibilidade, mostra como podem ser complexas as relações humanas, sejam entre marido e mulher, intergeracionais ou adúlteras.  
 
Já em Belo Horizonte
 
Baseado no livro do mineiro Fernando Sabino, Guilherme Fiúza Zenha construiu (junto com Cristiano Abud e o produtor André Carreira) o roteiro de O Menino no Espelho com muita liberdade sobre o texto e plena anuência da família do autor, como o próprio diretor garantiu em entrevista aos jornalistas. 
 
Antes da exibição do longa, que concorre a melhor filme no festival, o diretor subiu ao palco para dedicar a projeção “aos grandes José Wilker e Eduardo Coutinho”. O diretor foi acompanhado pelo ator Mateus Solano, coadjuvante na produção, que rasgou elogios ao autor do livro: “Li o livro do Sabino duas vezes e sempre me vi como o garoto. Foi muito curioso interpretar o pai”.

O livro e o filme acompanham as peripécias do pequeno Fernando (Lino Facioli), cuja imaginação o leva a brincadeiras que terminam em castigos de seu pai (Solano) e mãe (Regiane Alves), que deseja enviá-lo a um colégio interno militar. Depois de ler “Alice no País do Espelho” (de Lewis Carroll), a imagem do garoto no seu espelho se materializa e surge aí Odnanref, o seu inverso.

Esta é a chance que Fernando precisava para viver suas aventuras – entre elas desvendar os mistérios de uma casa assombrada no bairro -, enquanto seu duplo fica com as partes chatas, de ir à escola, estudar ou jantar com seus pais. Não demora muito para Odnanref se rebelar querendo liberdades; Fernando que vá para o colégio militar.
 
Curiosamente, para melhor ambientar Belo Horizonte dos anos de 1930, década em que a história transcorre, o diretor escolheu a cidade de Cataguases, o emblemático pólo de produção cinematográfica ligado ao pioneiro Humberto Mauro, por seu patrimônio preservado e alguns impedimentos para locações na capital do Estado. 
 
O diretor afirmou que espera que o espectador viaje pela história para encontrar o que há de melhor na própria infância (”lá dentro”). E as travessuras de Fernando, que remetem às fantasias de criança do próprio Sabino, permitem essa retrospectiva.