Filme português "Cavalo Dinheiro" apaixona Cine Ceará
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 23/06/2015
- Tempo de leitura 3 minutos

Vencedor do prêmio de direção no Festival de Locarno, o filme português Cavalo Dinheiro, do realizador Pedro Costa, ocupou com honras a noite de segunda (22) no Cine Ceará. A boa projeção e som do reformado Cine São Luiz, em Fortaleza, fizeram jus portanto a um filme memorável, que já fora apresentado anteriormente no Brasil no Cine PE, no mês passado.
Representando a produção, o diretor de fotografia e iluminação Leonardo Simões foi um intérprete privilegiado dos métodos de realização destas imagens extraordinárias, que permanecem na memória muito depois da projeção, para dar conta das histórias de Ventura (habitual intérprete dos filmes do diretor), Vitalina Varela e Tito Furtado.
Imigrantes cabo-verdianos atolados em tragédias profissionais e familiares, estes personagens ocupam cenários como um hospital, um bosque e as próprias casas (como na admirável sequência que filma várias pessoas ao som da música Alto Cutelo, do grupo Os Tubarões) e também um elevador – esta última, previamente apresentada como segmento do filme coletivo sobre a cidade portuguesa de Guimarães, Centro Histórico (2012).
Clima de sonho
A trajetória de Ventura, que recorda trechos de sua vida e de suas relações com outras pessoas, é apresentada em clima onírico, numa fantasmagoria que evoca delírios que, nem por negarem a marca realista se mostram menos verdadeiros, muito pelo contrário.
Afinal, Ventura sintetiza em sua própria condição de quase fantasma – nunca desprovido do poder da palavra – as próprias contradições da situação de imigrante africano, de pobreza, exclusão, pouca saúde, dinheiro escasso e invisibilidade social que perdura mesmo após o fim da ditadura salazarista e a passagem da Revolução dos Cravos, de 1974 – episódio que tem suas entranhas expostas no segmento do elevador, que opõe Ventura e um soldado em trajes de guerra que mantém os olhos sempre fechados.
Se é verdade que Cavalo Dinheiro recusa-se a ser contido numa simples sinopse, não o é menos que sua concepção decorre de uma firme visão de Costa e só dele, como fez questão de frisar seu diretor de fotografia em Fortaleza.
Simões, que trabalhou com o cineasta em O Quarto de Vanda (aí como produtor) e Juventude em Marcha (passando à fotografia, que é sua especialidade), vê seu próprio trabalho no filme de forma muito técnica. Fez questão, aliás, de dizer que “não se considera um artista e sim um técnico. As imagens são dos realizadores. Não entendo as coisas de outra maneira”.
Formato quadrado
A opção pelo formato quadrado (como acontece em outro concorrente neste festival, a coprodução argentina Jauja, de Lisandro Alonso, e recentemente no Brasil, em O Homem das Multidões, de Cao Guimarães) é tema sobre o qual o diretor de fotografia não ofereceu explicação. “Não conversei sobre isto com Pedro. Apenas fiz o que me pediu”. Mas aventou a hipótese, bastante lógica, de que o formato se preste melhor à inserção dos personagens no espaço, como num retrato.
Curtas
Os três curtas da noite giraram em torno do mal-estar existencial de protagonistas masculinos. Foi o caso de Como são cruéis os pássaros da alvorada, de João Toledo (MG), Feio, velho e ruim, de Marcus Curvelo (BA), e Virgindade, de Chico Lacerda (PE), este último com discurso vincado na sexualidade frustrada do protagonista.
