21/07/2026

Drama chileno sobre ex-padres pedófilos abre Cine Ceará


O 25º Cine Ceará deu a largada em sua mostra competitiva ibero-americana com o drama O Clube, em que o diretor chileno Pablo Larraín entrelaça poder e acobertamento da Igreja Católica, através de uma história que focaliza um refúgio de ex-padres culpados de algum tipo de crimes, no litoral do Chile.

O filme, que venceu o Urso de Prata (Grande Prêmio do Júri) no último Festival de Berlim e tem distribuição brasileira garantida (pela Imovision) é, mais uma vez, resultado de um amplo trabalho de pesquisa e construção dramatúrgica, como em todas as obras deste excelente diretor, que já filmou antes Tony Manero, Post Mortem e o recente No, que foi indicado ao Oscar de filme estrangeiro.

Pelo rigor e profundidade do filme, é surpreendente a declaração do ator Alejandro Goic, que veio a Fortaleza para sua divulgação, de que se tratou de uma “filmagem de guerrilha”, ou seja, realizada em escassos 19 dias, sem ensaios prévios, em jornadas de trabalho intensivas e com equipe técnica reduzidíssima. O resultado traduz, talvez, essa urgência e também a grande experiência não só do diretor, como de seus co-roteiristas (Guillermo Calderón e Daniel Villalobos), com experiência como dramaturgos, assim como seus principais atores, caso de Goic e também de Jaime Vadell, Alejandro Sieveking, Roberto Farías e Alfredo Castro (um ator-fetiche do diretor, presente em todos os seus trabalhos anteriores).

Funcionando num clima claustrofóbico, tendo como cenário uma grande casa isolada, numa colina que descortina o mar, o enredo acompanha o cotidiano doentio de quatro ex-padres, todos com um passado que envolve pedofilia, ocultação de crimes dos militares na ditadura e até sequestro de crianças, num lugar supostamente dedicado à penitência e recuperação.

Eles têm a companhia de uma única mulher (Antonia Zegers, esposa do diretor e do elenco de Post Mortem), que cuida das tarefas domésticas e também é a que mais tem vida social no pequeno povoado próximo. Os demais pouco podem sair e conviver com outras pessoas. Uma única atividade os apaixona: cuidar de um galgo, que participa de corridas, com um desempenho tão bom que permite que os ex-religiosos acumulem dinheiro com apostas.

Forasteiro acusador

A rotina é sacudida pela chegada de Sandokan (Roberto Farías), vítima escandalosa de um religioso que acaba de chegar a esta comunidade reclusa. O incidente tem efeitos trágicos e provoca a vinda de um emissário da igreja, que tem poderes inclusive para desmontar este grupo – que é a coisa que mais temem, já que não têm lugar no mundo lá fora, como verdadeiros párias sociais.

O ator Alejandro Goic destacou que estas comunidades existem e têm o objetivo principal de “ajudar estes padres a escapar da justiça”. Ele lembrou que um projeto da Igreja Católica, de comprar uma ilha no Caribe para abrigar estes ex-padres, somente foi abortado devido à imensa repercussão negativa.

Seu personagem, um homem envolvido no desvio de bebês, filhos de adolescentes que eram convencidas que haviam nascido mortos, para encaminhá-los a adoção por famílias sem filhos, baseia-se num personagem verídico, Joignant. Mas destacou que a construção do personagem no filme é uma “livre adaptação” do caso e que nunca fizeram um “estudo direto” desta pessoa, nem era sua intenção retratá-lo especificamente.

O ator, de 59 anos, e com grande experiência em direção de teatro e dramaturgia, opinou que O Clube, a seu ver, não é meramente um filme sobre a Igreja Católica. “Na minha opinião, é um olhar sobre as instituições e a corrupção do poder. E a Igreja Católica é uma instituição que permeia todas as outras na América Latina. A pedofilia, aliás, também é um exercício do poder, de padres encarregados da educação de uma criança que se aproveitam dela”. Por isso, ele acredita que o filme possa interessar também a não-católicos, entre os quais se inclui este ex-militante socialista-marxista, que atuou na clandestinidade e foi preso duas vezes durante a ditadura de Pinochet.

Repercussão no Chile

Lançado há três semanas no país, O Clube vem tendo sucesso crescente, segundo o ator. Foi lançado numa época em que outro filme, Karadima, igualmente ficcional, retratando um padre pedófilo ligado a empresários, estava em cartaz no Chile. Ironicamente, informou o ator, no mesmo dia em que estreou O Clube, um bispo encarregado de investigações sobre estes casos na Igreja chilena, que é seu tio e homônimo, anunciou que seriam tomadas medidas para seu esclarecimento e eventuais punições.