Política no Peru e no Brasil dominam competição no Cine Ceará
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 22/06/2015
- Tempo de leitura 6 minutos

Dois filmes políticos dominaram a programação da noite de domingo (21) no Cine Ceará, o peruano NN, de Héctor Gálvez, e o brasileiro Cordilheiras no Mar: A Fúria do Fogo Bárbaro, de Geneton Moraes Neto.
NN enfoca o drama dos milhares de mortos e desaparecidos no Peru que, entre os anos 1980 e 2000 – um período democrático - foi sacudido pelos combates entre dois grupos guerrilheiros, o Sendero Luminoso e o MRTA (Movimiento Revolucionário Tupac Amaru), e as forças do exército. Um tema muito relevante já que, como informou o diretor na coletiva de imprensa, esses conflitos resultaram em cerca de 69.000 mortos e 15.000 desaparecidos, um número imenso, ainda mais considerando-se que o Peru tem cerca de 30 milhões de habitantes.
Com uma pegada bastante realista, a trama ficcional acompanha o trabalho de uma equipe de especialistas forenses, médicos, antropólogos e outros, que se dedica a realizar exumações de covas clandestinas e procura identificar as ossadas, para devolvê-las aos familiares.
Fidel (Paul Vega) é um médico legista de uma dessas equipes, que tem em mãos um caso misterioso: a ossada de um homem, com ferimento a bala na cabeça (sinal de execução) e muitas costelas quebradas (sinal de tortura). Ele é o nono corpo localizado numa cova onde se acreditava haver apenas oito. E sua identidade permanece misteriosa, tendo como pista a foto de uma jovem encontrada por baixo da camisa do morto.
Surge uma mulher (Antonieta Pari) à procura do marido desaparecido, que está obcecada em finalmente sepultá-lo, ainda que não seja tão claro de que a ossada lhe pertença efetivamente – o que será objeto de reviravoltas e opções éticas na história.
Descaso e esquecimento
Com um ritmo sóbrio, o filme peruano consegue infiltrar uma sensibilidade especial não só para retratar o drama dos familiares à procura de seus entes queridos como desses profissionais que se ocupam de sua identificação – e que sofrem das sequelas emocionais de um trabalho exaustivo, desgastante e pouco reconhecido. Não só isso: ao longo do caminho, surgem claros sinais de que as autoridades estão empenhadas em deixar a localização e identificação desses mortos para trás, promovendo um progressivo esquecimento desse capítulo nada edificante, ocorrido entre os governos eleitos dos presidentes Belaunde Terry, Alan Garcia e Alberto Fujimori.
Na coletiva, Gálvez relatou que, recentemente, uma comissão da ONU visitou o Peru e constatou que o país não está fazendo o necessário em termos de resolução do caso dos desaparecidos. Este esquecimento seletivo deve-se, segundo o cineasta, ao fato de que, ao contrário da Argentina e do Chile, a esmagadora maioria dos mortos e desaparecidos não pertencem à classe média mas quase sempre se trata de populações camponesas de origem indígena, falantes do idioma quéchua e que “já vivem esquecidos, mesmo que estejam vivos”.
O cineasta, que trabalha em sua filmografia (que inclui também Paraíso e Lucanamarca) o tema dos direitos humanos, pretende usar seu filme para ativar a memória e o esclarecimento destes casos. NN será lançado nas salas peruanas em setembro próximo.

Ressuscitando Gláuber
Já o documentário Cordilheiras no Mar... resgata a figura do cineasta Glauber Rocha, focalizando um momento particularmente polêmico de sua biografia: quando ele apóia uma tentativa de abertura política conduzida pelo presidente-general Ernesto Geisel e chega a definir como “gênio da raça” seu ministro-chefe da Casa Civil, o general Golbery do Couto e Silva.
O também jornalista Geneton Moraes Neto inclui diversas imagens inéditas neste seu filme, algumas realizadas há décadas, caso de entrevistas com o ex-governador Miguel Arraes, o ex-líder camponês Francisco Julião e intelectuais franceses como o crítico Serge Daney, entre outros.
Uma informação bombástica do filme dá conta de que foram o ex-presidente João Goulart e Arraes quem convenceram Glauber de que Geisel faria a abertura política – “mas não falaram publicamente sobre isto, o que teria abalado a esquerda”, segundo Geneton. Com seu estilo apaixonado, Glauber saiu a campo para defender que se pegasse a mão estendida por este setor militar representado pelo então presidente, o que lhe custou um desgaste extraordinário junto à esquerda, que o patrulhou ideologicamente e não só: alguns o acusaram de ter-se “vendido”, o que era uma calúnia.
Ouvindo 26 entrevistados, com diversas imagens do próprio Glauber – além de performances realizadas por atores, como Ana Maria Magalhães, Paulo César Pereio, Aderbal Freire Filho, além de Cláudio Jaborandy interpretando Glauber -, o filme oferece, ele mesmo, material para mais polêmica. Até porque, como admite seu diretor, a obra pode ser vista não só como revisionista do papel exercido por Glauber (o que o absolveria das acusações mais duras) como do próprio papel dos militares, o que não é uma questão simples, ainda mais em se tratando dos tempos da ditadura.
Geneton acredita que o filme, que ele planeja há muito tempo, adquiriu uma inesperada atualidade nestes nossos tempos em que, como ele destaca, “há uma intolerância muito acirrada dos dois lados” (do espectro político). Por isso, para ele, “é preciso ressuscitar uma visão épica como a de Glauber, resgatando uma vocação de grandeza e originalidade do Brasil, de que falaram Darcy Ribeiro e outros”.
Nenhuma destas questões é simples, nem simplificada pelo filme, que em princípio não será lançado nos cinemas. Segundo o diretor, deverá fazer um circuito de festivais e depois ser exibido no Canal Brasil, seu produtor.
Curtas
A noite foi toda de curtas experimentais. Foi o caso do rapidíssimo Micro-macro, de Diego Akel (CE), um minuto de experimentações visuais; do documental Avenida Presidente Kennedy, de Adalberto Oliveira (PE), acompanhando de forma peculiar os dramas e desacertos das obras de uma grande e fundamental avenida do Recife; e também de outro documentário, História de Abraim, do paulista Otávio Cury (diretor do longa Constantino), revelando a história de um índio que, quando menino, foi trocado por uma vaca, só mostrando seu rosto na imagem final.
