Um passeio pelos festivais, clássicos de Bellocchio e novidades da produção independente
- Por Equipe Cineweb
- 21/10/2016
- Tempo de leitura 25 minutos

O primeiro final de semana da Mostra está repleto de atrações do mais recente Festival de Cannes, como o drama iraniano O Apartamento (prêmio de melhor roteiro e melhor ator), de Ashhar Farhadi, e também a adorável comédia dramática norte-americana Paterson, de Jim Jarmusch. Mas não faltam boas dicas da produção independente, como o drama búlgaro Glory, o chileno No vas a estar solo e novidades nacionais, como os documentários Curumim, Martírio e A luta do século, além da bela coprodução luso-francesa Correspondências, sobre a amizade entre os poetas Jorge de Sena e Sophia de Mello Breiner Andresen. Nunca é demais revisitar os clássico do italiano Marco Bellocchio, convidado de honra da 40ª edição, como Bom dia, noite e seu novo Belos Sonhos.

Paterson
Paterson, novo filme do norte-americano Jim Jarmusch, pousou em Cannes, onde concorreu à Palma de Ouro em 2016, com uma nota densa de sutileza e literal poesia – já que é esse o tema que impregna tudo em torno de Paterson, o protagonista interpretado com calor intimista por Adam Driver.
Motorista de ônibus que compartilha o nome da cidade em que nasceu e onde vive, Paterson é um fino observador do mundo à sua volta – só que, ao contrário dos anjos de Wim Wenders em Asas do Desejo, não é invisível (embora ninguém à sua volta pareça notá-lo). Ele escreve poemas num caderno, em que anota pensamentos e especula em torno das mínimas coisas de seu cotidiano. Uma simples caixa de fósforos, por exemplo.
Seu mundo parece estreito: as ruas da pequena Paterson, uma casinha modesta e rosada, que compartilha com a mulher Laura (Goshifteh Farahani) e o cachorro, Marvin (que é um personagem com função na história e, sem ironia, ótimo intérprete).
O filme é conduzido com rigor, retratando um cotidiano que se repete, aparentemente sem mudanças. Todo dia Paterson faz tudo igual, Laura nem tanto – mas as variações dela guardam uma certa afinidade interna, já que ela é obcecada por atividades artísticas e culinárias em torno de padrões em preto-e-branco.
A repetição permite aos poucos enxergar as brechas onde se insinua a grandeza da vida, por mais simples que pareça. A própria história da cidade de Paterson, afinal, não é tão insignificante, já que ali nasceram ou viveram poetas e atores, como William Carlos Williams, Allen Ginsberg e Lou Costello (da dupla Abbott & Costello), entre muitos outros. Um mural no bar, frequentado por Paterson toda noite, guarda as pegadas dessas célebres passagens pela cidade.
Habilmente, Jarmusch provoca nossas expectativas viciadas como espectadores. Cria pistas que levam a temer grandes tragédias e violência. E aí, também, nos lembra de que tantos outros caminhos se sucedem diariamente, ao largo dessa espetaculosidade enganosa que o próprio cinema, em geral, estimula. E aí está o grande prazer de descobrir este filme sutilmente grandioso. (Neusa Barbosa)
CINEARTE 1 – 23/10 – 19:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 – 27/10 – 21:40
CINE CAIXA BELAS ARTES S/1 VILLA LOBOS – 28/10 – 21:35

O apartamento
Como em O Passado e A Separação, o iraniano Asghar Farhadi cria novamente um emaranhado emocional complexo na trama de O Apartamento, vencedor dos prêmios de melhor roteiro e melhorator (Shahab Hossein) no mais recente Festival de Cannes. A princípio, retrata os dilemas de moradia de um casal de atores, Emad (Shahab Hossein) e Rana (Taraneh Alidoosti), em Teerã. O prédio onde viviam sofreu rachaduras e é interditado. Passo seguinte, eles encontram refúgio num apartamento encontrado por um amigo. E é ali, numa noite em que esperava pelo marido, que Rana sofre a agressão de um invasor.
A sugestão de que Rana sofreu um estupro, que nunca fica clara, pode ou não dever-se a uma tentativa de driblar a vigilante censura iraniana, que é denunciada explicitamente numa outra sequência, a da montagem da peça em que trabalha o casal de atores, uma adaptação de A morte de um caixeiro viajante, de Arthur Miller. Na cena em questão, torna-se evidente que a personagem, Miss Francis, estaria nua, ou quase isso, mas ela é vista em cena usando um casaco impermeável (o que é motivo de uma brincadeira posterior do elenco).
A agressão muda completamente a vida do casal, com Rana tornando-se atemorizada e insegura, e Emad, cada vez mais tenso. O foco desloca-se dela, na primeira parte, para ele, cada vez mais obcecado por identificar o agressor.
Como sempre nas histórias de Farhadi, há um eixo moral, ético, que se amplia numa discussão dos limites da vingança. É um roteiro bastante matizado e envolvente, que dá margem para muitas reflexões. (Neusa Barbosa)
CINEARTE 2 – 22/10 – 19:50
CINEMARK CIDADE SÃO PAULO – 24/10 – 21:30
CINESALA – 30/10 – 19:50

Belos Sonhos
Adaptando o romance homônimo de Massimo Gramellini, o filme dialoga
sobremaneira com a obra do próprio Marco Bellocchio, especialmente com alguns pontos de seu filme de estreia, De Punhos Cerrados (65). Mesmo não sendo um roteiro original seu, portanto, a história é povoada de pontos que são caros ao diretor, que lida magnificamente com este mergulho na psique e também na época de um jornalista, Massimo (adulto, interpretado por Valerio Mastandrea), traumatizado afetivamente pela morte precoce de sua mãe (Barbara Ronchi), quando ele tinha 9 anos.
sobremaneira com a obra do próprio Marco Bellocchio, especialmente com alguns pontos de seu filme de estreia, De Punhos Cerrados (65). Mesmo não sendo um roteiro original seu, portanto, a história é povoada de pontos que são caros ao diretor, que lida magnificamente com este mergulho na psique e também na época de um jornalista, Massimo (adulto, interpretado por Valerio Mastandrea), traumatizado afetivamente pela morte precoce de sua mãe (Barbara Ronchi), quando ele tinha 9 anos.
Há um equilíbrio enorme na caracterização do personagem desde a infância, especialmente por conta dos dois ótimos atores que o interpretam em duas fases, Nicolò Cabras, quando menino, e Dario Dal Pero na adolescência. Um resultado, certamente, da intervenção de um diretor super-qualificado, capaz de extrair as diversas camadas do melodrama, ao qual não subtrai seu potencial emotivo, mas sem sucumbir a ele – como fazem os chorosos melodramas hollywoodianos.
Bellocchio compõe com nuances e realismo as diversas fases na vida de Massimo, tirando um ótimo proveito de imagens da televisão da época (anos 1950/1960) não só para situar a história temporalmente como para definir o papel que ela representa no imaginário do menino. Este se apega a uma heroína televisiva feiticeira, Belfagor – de quem sua mãe gostava -, para construir uma fantasia, um refúgio que lhe permite defender-se, não só da perda materna, como da frieza emocional do pai (Guido Caprino).
Além das inevitáveis passagens pelo catolicismo e o futebol (a história passa-se em Turim), um outro tema nada desprezível relaciona-se com a profissão do protagonista. Há diversas situações em que Bellocchio injeta uma crítica tremenda ao componente de manipulação das notícias – como quando o fotógrafo que acompanha Massimo na cobertura do conflito em Sarajevo, nos anos 1990, Desperado (Pier Giorgio Bellocchio), coloca dentro do quadro da foto de uma mulher morta também seu filho, que estava no quarto ao lado. É uma cena impactante, que expõe o sensacionalismo em seu mais alto grau.
Trata-se de um universo evidentemente muito masculino, em que o papel das mulheres é mais marginal – ainda que o centro da precariedade emocional do protagonista seja esta traumática morte precoce da mãe. Ainda assim, há pequenas participações femininas marcantes, como da francesa Emmanuele Devos, como a mãe de um amiguinho de Massimo, e Berenice Béjo, como uma médica que se torna seu interesse amoroso. (Neusa Barbosa)

A China está próxima
Vencedor do Prêmio Especial do Júri e do Prêmio da Crítica do Festival de Veneza, o filme de 1967 é o segundo longa do então jovem diretor Marco Bellocchio, dando sequência a uma obra que coloca em primeiro plano a discussão das engrenagens do mundo em que vive, com destaque para a política, a religião e a família, inseridas historicamente. O roteiro original, assinado por ele e pela também atriz Elda Tattoli, retrata uma família burguesa, os Gordini Malvezzi, formado por condes, vivendo numa mansão secular, lotada de peças de museu que marcam uma longa e íntima convivência com o poder.
Três irmãos são a atual geração: Vittorio (Glauco Mauri), professor que vai candidatar-se a vereador pelo Partido Socialista Unificado, depois de ter rodado por todos os principais partidos da época; Elena (Elda Tattoli), que administra os bens da família; e o caçula Camillo (Pierluigi Aprá), que estuda numa escola católica e flerta com o maoísmo, liderando um pequeno grupo que se dedica a ações radicais. Em torno desse trio, gravitam dois funcionários – o contador Carlo Carini (Paolo Graziosi), do PSU, frustrado por ter sido mais uma vez alijado de uma candidatura própria em favor do mais rico Vittorio e que vai ser seu principal assessor de campanha; e a jovem secretária Giovanna (Daniela Surina), que passa os dias servindo Vittorio e Elena.
Carlo e Giovanna têm um caso secreto, mas o rapaz abre mão disso para envolver-se interesseiramente com Elena, empenhando-se em engravidá-la para garantir a ascensão social que lhe foi negada por outras vias. Quando Giovanna descobre, ela, que vinha resistindo ao assédio de Vittorio, finalmente cede ao patrão, seguindo a mesma rota de alpinismo social do ex-namorado.
Estes cínicos relacionamentos entre os personagens são construídos de forma a evidenciar os jogos de manipulação social que governam a sociedade italiana de então – com modelos que podem facilmente ser transportados a outros tempos e lugares. Mesmo feito há 50 anos, o filme tem ressonância e oferece material para reflexão, até por ser esplendidamente escrito, dirigido e interpretado. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 – 22/10 – 17:40
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA 1 – 24/10 – 16:00
Bom dia, noite
CINESESC – 23/10 – 15:00
CINEMATECA – SALA BNDES – 27/10 – 21:10
CINEARTE 1 – 30/10 – 14:00
Martírio
Documentando o massacre sofrido, ao longo de séculos, pelos índios Guarani-Caiowáa, o novo documentário do veterano cineasta Vincent Carelli coloca na ordem do dia a construção da narrativa e a questão da visibilidade social.
Martírio é o segundo filme de uma trilogia de Carelli, iniciada em Corumbiara (2014) – sobre um massacre indígena em 1985, no sul de Rondônia –, que se completa com um filme a ser lançado, Adeus capitão, iniciado em 1986, em torno das indenizações a tribos em função da instalação de grandes projetos, em Marabá, sul do Pará.
Os temas dos três filmes são distintos, mas têm em comum o espírito guerreiro de resgatar a história indígena, insistentemente varrida, adulterada, vilipendiada em séculos da suposta civilização. Nada mais eloquente desse processo do que Martírio, em suas 2h40 de duração enumerando diversos episódios da saga de resistência dos Guarani-Caiwoáa.
Recorrendo a material filmado por ele mesmo desde 25 anos atrás e também a preciosos materiais de arquivo, Carelli – com a colaboração de Ernesto de Carvalho e Tita – situa muito bem a expropriação das terras desse povo, mencionando a Guerra do Paraguai, o ciclo do plantio do mate, as intervenções do Marechal Rondon e de Getúlio Vargas, chegando até o momento atual. Um momento de impasse, em que os índios, cansados da eterna indefinição da demarcação, empenham-se de maneira não raro heroica por retomadas pontuais de seu território, independentemente da violência e das mortes sofridas.
Um dos aspectos mais contundentes de Martírio está nas imagens de políticos – como uma comissão do Senado que tratou da discussão sobre a PEC 215, que traria para o Congresso a palavra final sobre demarcações de terras indígenas -, que demonstram à perfeição em que mãos estão entregues o Congresso e o País. Ou seja, latifundiários da chamada “bancada do boi” avessos a qualquer concessão aos indígenas e no mínimo coniventes com a violência que leva ao seu extermínio. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 – 23/10 – 18:30
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2 – 25/10 – 15:50
CINE CAIXA BELAS ARTES S/1 VILLA LOBOS – 29/10 – 15:40
Nunca vas a estar solo
Musico pop chileno e cineasta estreante, Alex Anwandter escolheu um tema espinhoso para seu filme Nunca vas estar a solo, um ataque homofóbico que afeta a vida de um jovem e seu pai. Pablo (Andrew Bargsted) tem 18 anos, e tenta viver sua sexualidade de forma livre, apesar do cenário machista de onde mora, e passa o tempo ensaiando para um teste de um show de drag queen. Ele vive com seu pai, Juan (Sergio Hernández), funcionário de uma fábrica de manequins.
Pablo mantém, há um bom tempo, um caso com seu vizinho e amigo de infância, Felix (Jaime Leiva), que tem dificuldades em aceitar sua própria homossexualidade, a ponto de agredir seu amante, na rua, com a ajuda de outros rapazes dos arredores. O ataque é tão brutal que deixa o protagonista em coma.
Nesse momento, o filme, também roteirizado por Anwandter, muda seu foco, concentrando-se na figura paterna e sua batalha pela punição dos culpados ao ataque de seu filho, além de lidar com o remorso que ele sente por ter sido incapaz de proteger seu filho. A única testemunha do ataque é a melhor amiga do rapaz (Astrid Roldan), que estava com ele, mas conseguiu fugir, o que a faz se sentir culpada, mas também temerosa de denunciar os agressores (que moram todos no mesmo bairro).
Juan é mostrado, então, como uma figura solitária, com dificuldade de pagar as contas hospitalares, e sofrer com o vazio da ausência de um filho que ele descobre que mal conhecia. Sua missão é que os culpados paguem pelo crime, mas ele também esbarra num sistema conivente e homofóbico.
Baseado num caso real, de um rapaz chamado Daniel Zamudio, morto em 2012, em Santiago, o filme de Anwandter é repleto de boas intenções, necessário, mas nem sempre com a
força que poderia ter. Sua narrativa se abre em pequenos personagens e dramas – como um envolvendo um confronto entre Juan e seu patrão – que nem sempre contribuem na construção da narrativa, e enfraquecem o que há de importante. O filme ganhou o prêmio especial do júri do Teddy Award no Festival de Berlim, troféu concedido a obras com temática LGBT. (Alysson Oliveira)
força que poderia ter. Sua narrativa se abre em pequenos personagens e dramas – como um envolvendo um confronto entre Juan e seu patrão – que nem sempre contribuem na construção da narrativa, e enfraquecem o que há de importante. O filme ganhou o prêmio especial do júri do Teddy Award no Festival de Berlim, troféu concedido a obras com temática LGBT. (Alysson Oliveira)
CINESESC - 22/10 - 19:20
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA ANEXO 4 - 24/10 - 18:00
CINE CAIXA BELAS ARTES
S/1 Villa Lobos -
29/10 - 14:00
S/1 Villa Lobos -
29/10 - 14:00
A luta do século
Alguma coisa acontece toda vez que sobem ao ringue os lutadores Luciano Todo Duro e Reginaldo Holyfield. Por mais de 20 anos, estes dois gladiadores, o primeiro pernambucano, o outro baiano, mantiveram uma das mais ferozes rivalidades do boxe brasileiro, capazes de manter os dois estados em pé de guerra.
Depois de muitas provocações e acusações mútuas de golpes baixos, agora na faixa dos 50 anos, os dois lutadores conseguem, enfim, dividir o mesmo espaço – material de arquivo mostra que já na pesagem ou na apresentação dos dois na véspera de seus confrontos, não raro, os dois rolavam pelo chão diante das câmeras.
O experiente diretor baiano Sergio Machado compõe um retrato sensível destes lutadores, pontuando suas trajetórias cheias de altos e baixos, abrindo espaço para um perfil humano sutil destes homens e de seus contextos – que passam longe das glórias e dos altos cachês do boxe internacional. O filme venceu o prêmio de melhor documentário no Festival do Rio. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 1 – 23/10 – 16:40
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – AUGUSTA 1 – 28/10 – 15:30
CINESALA – 29/10 – 14:00
Beduíno
Lançado em première mundial no mais recente Festival de Locarno, em agosto, e nacionalmente em Brasília, em setembro – fora de competição -, o mais recente trabalho doveterano Julio Bressanelevou 14 anos para ser concluído.Aos 70 anos, como sempre dedicado a um tipo particular de invenção cinematográfica, o cineasta articula suas habituais divagações literário-pictórico-poéticas, com a parceria dos atores Alessandra Negrini e Fernando Eiras, seus habituês, encenando esquetes lembrando um estrangulador de louras (objeto de filme anterior seu), a obsessão de uma mulher por um sonho que se repete, interações de um casal e outros temas que se sucedem na tela, embalando a imaginação e o intelecto naquela mistura tão cara ao diretor. Não é filme “pra entender”, é filme “pra viver”. E faz um bem danado à sensibilidade e à inteligência. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 2 – 23/10 – 20:30
CINESALA – 24/10 – 16:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 5 – 28/10 – 15:15
Curumim
O documentário de Marcos Prado (Estamira), que teve première mundial no Festival de Berlim, em fevereiro, traça o perfil de Marco “Curumim” Archer, um dos brasileiros executados na Indonésia por tráfico de drogas em 2015. Contando com recursos como uma câmera clandestina – contrabandeada para dentro da prisão pelo próprio Archer -, acompanha-se vários meses de sua vida no cárcere, ao longo dos 11 anos que permaneceu no corredor da morte, permitindo uma rara visão interna dessas condições no limite.
O diretor situa seu filme de maneira a evitar julgar seu personagem – que ele conheceu ligeiramente na adolescência, quando Archer era um “menino do rio”, que surfava no píer de Ipanema. Foi, aliás, o próprio Archer quem lhe pediu que fizesse um filme sobre ele, de algum modo pressentindo que não teria saída. Prado o faz com distanciamento, procurando descobrir quem foi este homem, que nasceu bonito, em família rica e talentoso para esportes (foi professor de asa-delta), mas enveredou por um caminho autodestrutivo, terminando seus dias dividindo uma cela com terroristas islâmicos e assassinos perigosos (alguns dos quais foram poupados da pena capital por terem obtido os meios para corromper as autoridades locais, um fenômeno crônico que o filme explora a partir de diversos depoimentos, como de um italiano que dividiu também a cela com Marco, foi condenado à morte por tráfico mas conseguiu safar-se com a ajuda de sua família para “financiar” sua libertação).
O filme não suaviza aspectos mais polêmicos do personagem, ouvindo também amigos que o conheceram na juventude dourada em Ipanema. De um modo oblíquo, fornece material para uma discussão séria sobre drogas e pena de morte, sem querer ter um discurso pronto nem a palavra final sobre nenhum dos dois temas. (Neusa Barbosa)
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA – FREI CANECA 3 – 23/10 – 21:30
RESERVA CULTURAL 2 – 24/10 – 18:00
CINEMARK CIDADE DE SÃO PAULO – 28/10 – 21:30
Glory
Os cineastas búlgaros Kristina Grozeva e Petar Valchanov confirmam em Glory a predileção por explorar dilemas sociais. Lançado ano passado no Brasil, A Lição trazia uma professora prestes a perder a casa que, enquanto tentava remediar de qualquer jeito a situação, investigava um roubo acontecido em sala de aula. Se o questionamento ético era o cerne desse primeiro filme de uma trilogia de longas inspirados em notícias, este segundo capítulo opta por um caminho diferente. Por mais que pareça que o impasse deste conto moral sobre um controlador de ferrovia que encontra uma grande quantia em dinheiro nos trilhos e chama a polícia seja a entrega do montante, a verdadeira pergunta da obra é lançada apenas na última cena.
Antes disso, o funcionário Tsanko Petrov (Stefan Denolyubov) é exaltado como um herói nacional por um ministério dos Transportes em crise por conta de denúncias de corrupção. A diretora de relações públicas do departamento, Julia Staikova (Margita Gosheva, mesma atriz de A Lição), coordena as ações de mídia neste sentido, enquanto passa por um processo, junto com o marido, de fertilização e congelamento de embriões. Só que o velho relógio dele, uma das poucas coisas importantes de sua vida, some, fazendo o pacato e correto cidadão lançar-se em sua busca.
Exibido em Locarno, o filme, expoente do neorrealismo búlgaro, por confluência ao cinema romeno e influência dos Dardenne, destaca-se pela crítica à exploração da figura de indivíduo, sem que haja uma preocupação genuína por ele, não só por parte do governo, mas também da imprensa. E não seria diferente com o resto da população em tempos tão instantâneos de redes sociais. Trata-se de um intrincado panorama da Bulgária contemporânea, que se beneficia de seu humor involuntário para seu estudo humano. (Nayara Reynaud)
CIRCUITO SPCINE PAULO EMILIO – CCSP
22/10 - 15:00
22/10 - 15:00
CINE CAIXA BELAS ARTES
S/1 Villa Lobos
29/10 - 20:10
S/1 Villa Lobos
29/10 - 20:10
INSTITUTO CPFL - SALA UMUARAMA
30/10 - 21:00
30/10 - 21:00
CINESALA
- 02/11 - 14:00
- 02/11 - 14:00
O Sonho de Greta
Tal como sua protagonista, O Sonho de Greta está florescendo: no caso, como um cinema em fase de amadurecimento. Transpondo uma peça que dirigiu de Matthew Whittet, ator que interpreta o pai da garota e adapta seu próprio texto para as telas, Rosemary Myers faz de seu primeiro filme algo já proeminente em sua proposta e estilo, ainda que a diretora estreante abuse demais de suas influências para deixar mais clara sua própria voz. A referência mais imediata é ao trabalho de Wes Anderson, dando a impressão inicial que o cineasta juntou-se a David Lynch para fazer uma típica produção adolescente.
Myers, porém, brinca com a simetria ao extremo no uso de gêmeas(os) idênticas(os), além de optar pela steadycam em vários momentos e por enquadramentos mais diversos para dar sua assinatura à obra, que abocanhou prêmios locais e foi exibida no Festival de Berlim. Nela, a festa de 15 anos de Greta Driscoll (Bethany Whitmore, com uma vívida interpretação) é marcada como um rito de passagem para a adolescência, ou que é ela própria. O cenário é uma Austrália suburbana dos anos 1970, destacada por uma paleta de cores amarelada, no qual a garota acabara de se mudar e, por ser nova no pedaço, já sofre o assédio das poderosas trigêmeas, um trio à la Meninas Malvadas (2004) que domina a escola.
Com personagens que se limitam a estereótipos, o roteiro de Whittet entrega diálogos espirituosos, especialmente através de Elliot (o afiado Harrison Feldman), o melhor amigo da jovem, que entrega falas impagáveis, como a de quantas vezes por dia pensa em certo assunto; cenas marcantes, a exemplo da memorável entrada dos convidados na festa; e uma ousadia sutil no final. A direção, por sua vez, é mais eficiente em seu sarcasmo e surrealismo da realidade familiar e escolar de Greta do que em sua faceta onírica, pontuada por uma direção de arte e fotografia sombrias e opostas ao resto do longa. Isso talvez porque o sonho em si demore a vingar na narrativa – ainda que seja uma clara alegoria do inconsciente dela, até pelo uso dos mesmos atores. Por fim, fica a imagem de um filme que tira humor, dor e afeição de sua envolvente estranheza. (Nayara Reynaud)
CINEMARK CIDADE SÃO PAULO
22/10 - 19:00
22/10 - 19:00
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - FREI CANECA 2
25/10 - 18:50
25/10 - 18:50
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA - AUGUSTA 1
30/10 - 18:30
30/10 - 18:30
Correspondências
A amizade entre os poetas portugueses Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andresen, registrada de forma comovente na prolífica correspondência que os dois mantiveram entre 1957 e 1978, no período em que Sena se exilou no Brasil e nos Estados Unidos, durante a ditadura salazarista, é visitada no documentário Correspondências, da diretora lisboeta Rita Azevedo Gomes.
A diretora classifica o filme como um diálogo cinematográfico no qual temas presentes durante os 20 anos de troca de cartas, literários ou não, são abordados de forma franca e muitas vezes áspera. Não a aspereza de confronto entre os amigos, mas a aspereza dos temas, como o da ditadura salazarista que une os poetas e amigos numa jornada de pessimismo, amargura e impotência.
A diretora escolheu algumas cartas e poemas e fez um ensaio poético, intercalando os textos e construindo uma textura de imagens que conduz o espectador no conhecimento e compreensão da vida desses dois amigos ao longo da narrativa das cartas. Os poemas são declamados por atores próximos da diretora em ambientes familiares, como uma cozinha no campo e quintais acolhedores. Imagens de países visitados pelos amigos também servem para contextualizar o que se aborda nas cartas. Aliás, cartas e poemas parecem ser uma extensão. Ou, numa outra leitura, os textos poéticos refletem também a realidade daquele tempo.
Esse é o sexto longa da diretora, apresentado este ano no Festival de Locarno. Mesmo falando de autores e de temas portugueses, o filme pretende também ultrapassar o mundo lusófano. “Como é que esta conversa portuguesa, de um período que nós conhecemos por dentro, mas do qual lá fora não se tem bem a ideia, com dois poetas portugueses, fala aos outros?”, indagou a cineasta em entrevista ao jornal Pùblico. E ela própria respondeu: “Comecei a perceber que, se calhar, pode ser uma coisa entendida por qualquer pessoa.” (Luiz Vita)
CIRCUITO SPCINE OLIDO
- 23/10 - 21:10
- 23/10 - 21:10
ESPAÇO ITAÚ DE CINEMA AUGUSTA 1 - 28/10 - 21:10
Como podem ocorrer mudanças de programação de última hora, confira sempre previamente a programação no site da Mostra.
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