24/09/2026

FICA encerra programação com filmes sobre índios e mineração

Goiás – Em sua 18ª edição, o FICA (Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental) está comprovando que o conceito que move a ecologia e a reflexão sobre meio ambiente estão indo mais longe. Prova disso é a seleção de filmes vistos aqui desde o dia 16, que contemplam não só a natureza, seu uso e devastação como um olhar mais complexo sobre o que é esse estar da espécie humana no mundo.

O festival encerra-se hoje (21) à noite com a premiação e um esperado show reunindo Elba Ramalho e Geraldo Azevedo.

Em torno do carvão
Em seu último dia de exibição de filmes, o sábado (20) – aniversário da poetisa Cora Coralina (1889-1985), nativa da cidade de Goiás, e motivo de vários festejos públicos por aqui -, os três concorrentes da mostra competitiva contemplaram a exploração do carvão, fonte de energia para milhões de pessoas no planeta e cuja extração não raro é regada a sangue e exploração.

Dos três filmes, o mais impressionante foi o documentário Coal India (imagem ao lado), de Félix Röben e Ajay Koli, produção alemã que retrata a situação degradante de homens que sobrevivem ou da extração do minério, em condições subhumanas, e, pior ainda, de meninos e mulheres que conseguem seu sustento de pedaços deste carvão que conseguem subtrair dos caminhões que o transportam. Qualquer semelhança com os relatos da Revolução Industrial perdem na comparação. E o melhor do filme é como resgata a dignidade destes seres humanos, com o depoimento da mulher que se orgulha de prover ao próprio sustento e a exibição dos dotes de dançarinos de dois meninos no final.

Outro documentário, Reveka, de Benjamin Colaux e Christopher Yates (Bélgica), expôs de maneira detalhada e intimista o trabalho estafante de mineiros bolivianos que tiram sua sobrevivência da procura de vestígios de prata ou zinco – hoje mínimos - nos muito cavados túneis de Cerro Rico, na mina de Potosí, que há pelo menos cinco séculos é cenário de uma super-exploração como relatado no livro As veias abertas da América Latina, de Eduardo Galeano.

Já a produção austríaca White Coal, de Georg Tiller, preferiu ater-se a um ensaio visual, estético, em torno de uma imensa usina em Taiwan e do transporte de carvão num local na Polônia. Sem diálogos, o filme extrai sua narrativa do contraste entre as instalações modernas da usina de Taiwan, em cores, e a exploração do minério em outras condições na Polônia, em preto-e-branco. Mas o filme resultou frio neste exercício formal, tendo uma sequência excepcional
no uso de algumas imagens divertidamente bizarras de um vídeo de segurança da usina, em que aparecem dois seres que parecem extraterrestres de um desenho animado infantil.

Duas histórias do Brasil
Na sexta (19), chamaram a atenção dois documentários brasileiros, Taego Ãwa (imagem ao lado), de Marcela e Henrique Borela, e A Grande Nuvem Cinza, de Marcelo Munhoz.

Taego Ãwa resgata a trajetória excepcional dos índios Avá-Canoeiros através do encontro de fitas VHS na Universidade Federal de Goiás, anos atrás, pela então estudante Marcela Borela. Anos depois, com a parceria do irmão, Henrique, que se especializou em Antropologia, ela traz à luz estas antigas imagens dos Avá-Canoeiros do Araguaia (que se chamam Ãwa) a partir de um contato forçado pela FUNAI em 1973 – estes índios sempre preferiram permanecer isolados.

As imagens foram remetidas aos seus personagens, como o velho líder Tutawa, sobrevivente de lutas duras contra os brancos e que contava, na época, com mais de 80 anos. Tutawa e seus descendentes concordaram com a ideia dos documentaristas e participaram deste filme, dando entrevistas e fornecendo a base de uma narrativa que procura, mais do que tudo, retratá-los com o máximo de respeito e o mínimo de interferência. Um documento que proporciona muito material para reflexão.

A grande nuvem cinza, por sua vez, mergulha no mundo dos plantadores de tabaco do Paraná, descobrindo histórias de um trabalho exaustivo, minimalista – o cultivo das sementes é feito manualmente em recipientes mínimos – e o resultado da exposição aos agrotóxicos por parte de uma mulher. Além disso, o filme capta de maneira sensível a inquietação que se apodera deste mundo, em que os mais jovens, como a garota Joci, sonham com profissões urbanas e uma vida fora das fazendas familiares que sustentam este cultivo – ainda mais, satanizado pelas campanhas de saúde contra o fumo.