Drama cubano "Santa y Andrés" discute polarização política na ilha
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 09/08/2017
- Tempo de leitura 4 minutos

Fortaleza – A polarização política é o grande tema do concorrente cubano Santa y Andrés, de Carlos Lechuga, que coloca frente a frente, em 1983, duas pessoas em campos opostos – uma ortodoxa militante do regime comunista, a camponesa Santa (Lola Amores), e um escritor dissidente e homossexual, Andrés (Eduardo Martínez).
Apesar de situado há mais de 30 anos atrás, trata-se de um enredo perfeitamente atual, não só em Cuba, como no Brasil e outros países do mundo. Este é o principal apelo do filme, o que não escapou a setores duros do regime cubano, que trabalharam nos bastidores para impedir a exibição do filme no Festival de Havana, no ano passado. Até agora, o filme circulou em cerca de 40 festivais pelo mundo e ainda não foi exibido em seu próprio país, nem mesmo na tradicional Escola de Cinema e TV de San Antonio de los Baños.

A polêmica em torno das violações de direitos humanos cometidas contra dissidentes mostra o quanto o assunto está à flor da pele neste momento em que Cuba, ainda mais depois da morte de Fidel Castro, em novembro, está discutindo mudanças estruturais na sociedade formada a partir da Revolução de 1959.
O filme centra-se numa situação bem particular, quando Andrès, que já passou oito anos preso por conta do teor tido como subversivo de livros que pretendia publicar, é colocado sob vigilância domiciliar durante um congresso que traz observadores internacionais a Cuba. A ideia é impedi-lo de procurar a imprensa estrangeira e denunciar excessos do regime, como já fez no passado.
Sua guardiã é Santa, fiel soldada do governo, que diariamente sobe uma ladeira íngreme, carregando a própria cadeira para exercer sua vigilância do escritor, que vive num sítio afastado e extremamente despojado. A história se estrutura num jogo de observação mútua, que desencadeia um processo de transformação de Santa.
Por conta dessa opção, a personagem feminina faz um arco mais complexo, já que se abre para realidades que desconhecia. Enquanto isso, Andrés mantém-se na defensiva, dissimulando pensamentos e atitudes, até que recebe uma cabal prova de confiança de sua vigia.
Reconciliação
No concorrido debate do filme, na tarde desta quarta (9-8), o diretor comentou ter-se assustado com a violência da repercussão em torno do filme – que despertou reações extremadas tanto à direita quanto à esquerda, junto a públicos estrangeiros em que se incluíam cubanos que vivem fora do país. “Não imaginava que o filme fosse despertar esse tipo de reações, até porque acho que ele é voltado à reconciliação”, observou.
Ele reconhece que em Cuba, ainda hoje, não há tolerância para certos tipos de críticas abertas. “Observo aqui no Brasil que um jovem pode circular tranquilamente com uma camiseta onde se lê ‘Fora Temer’. Em Cuba, por exemplo, não se poderia andar sem problemas com uma camiseta com um letreiro ‘Abajo Martí’ (referente ao herói da independência nas Américas José Martí)”.
Por outro lado, o diretor, que afirmou vir de uma “família de revolucionários”, em que se incluem jornalistas e até embaixadores, garantiu ter recebido apoio em sua própria casa. Tanto a atriz Lola Amores quanto a produtora Cláudia Calviño, por sua vez, disseram ter resgatado histórias familiares das quais pouco sabiam durante o processo de pesquisa para a realização do filme. Cláudia, por exemplo, soube mais a respeito de um tio materno, que era homossexual e, por isso, foi perseguido.
Carlos Lechuga também admitiu que um dos modelos para seu personagem no filme foi o escritor Reinaldo Arenas – que foi objeto do filme Antes do Anoitecer, com Javier Bardem no papel principal. Mas não queria repetir um filme sobre ele, já que existe esse, de Julian Schnabel, a seu ver bastante bom. O diretor alegou que “queria falar de outras pessoas da mesma geração de Arenas, seus amigos que, ao contrário dele, não conseguiram continuar escrevendo”.
Curtas
Foi uma noite bastante sensível na seleção dos curtas, como o representante cearense Caleidoscópio, de Natal Portela e Roney Souza, que retrata de maneira semidocumental a vida de garotos que vivem no interior cearense, com ênfase no relacionamento de um menino e seu pai.
O curta carioca Valentina, de Estêvão Meneguzzo e André Félix, por sua vez, criou uma ficção para falar da necessidade de preservação do próprio cinema, acompanhando a luta de uma jovem funcionária da Cinemateca do MAM (Gabriella Fabrianni), no Rio, em busca de um rolo perdido do filme Eternamente Pagu, de Norma Bengell, e de uma cópia de Os Esquecidos, de Flávio Migliaccio (que faz uma ponta no próprio papel).
Já O Estacionamento, de William Biagioli (PR) enveredou pelo realismo fantástico para retratar uma noite na vida de um recém-contratado vigia de um estabelecimento desses, um imigrante haitiano (Daniel Felice).
