14/09/2026

"Ninguém está olhando" aborda desafios do auto-exílio


Fortaleza – Coprodução entre Argentina, Brasil e Colômbia, o drama Ninguém está olhando, da diretora Julia Solomonoff, competidor no Cine Ceará, incorpora muitos temas no seu enredo, a partir da atormentada jornada existencial de Nico (Guillermo Pfening). Ator argentino que vinha tendo sucesso numa série de TV, Rivales, ele decidiu abandonar tudo, mudando-se para Nova York, especialmente para livrar-se de uma relação amorosa opressiva com seu produtor, Martín (Rafael Ferro).
Nesse trecho da história filmada em Nova York é que ocorrem as sequências mais interessantes, voltadas a uma quebra de expectativas ligadas a padrões sociais. Por exemplo, Nico, por ser homem, intriga um grupo de babás latinas que se reúnem num parque, quando começa a cuidar de um bebê, filho de uma amiga. Ele também desafia o estereótipo quando vai fazer um teste para um papel de latino e é recusado preliminarmente apenas por seu biótipo não corresponder ao esperado, por ser loiro.


Nessa luta de Nico para simplesmente sobreviver numa cidade competitiva, longe de suas raízes, com dificuldades para encontrar trabalho na própria área – um filme que ele ia fazer é sempre adiado -, ele encara um desafio aos próprios limites, resistindo à tentação de voltar, já que Martín o assedia continuamente à distância.
Evidentemente, quer-se abordar várias questões, envolvendo choques culturais, identidade de gênero, necessidades de afirmação e sobrevivência. Guillermo Pfening
- que iniciou sua carreira cinematográfica com Coração Iluminado, de Hector Babenco – mostra-se um intérprete afinado a um vendaval de emoções viscerais e é o grande trunfo de um filme apoiado num roteiro que aponta inúmeras discussões.

Longe das raízes
No debate do filme, nesta tarde de terça (8), a diretora admitiu que usou alguns elementos melodramáticos em sua história, mas assinalou que o fez sob um ângulo bem diferente das novelas e seriados de TV. Respondendo a uma pergunta neste sentido, Julia afirmou: “Gosto de melodramas, mas não tenho uma voz melodramática. Por isso, em meus filmes, cada vez mais o que me interessa é o olhar, o ângulo como me volto para seus temas e, com certeza, o faço de maneira diferente das novelas”.
Comentando o tema do exílio e desenraizamento do personagem, a diretora comentou que o filme se inspirava em muitas das experiências que ela mesma viveu, estudando e trabalhando nos EUA, país onde, no momento, ela voltou a morar. O próprio ator-protagonista viveu de perto realidades que expressa na ficção quando teve um projeto de filme cancelado e teve que viver com seus próprios recursos por alguns meses em Nova York, mudando-se constantemente de bairro para economizar. Neste processo, Guillermo lembrou de uma noite que passou dormindo numa praça, por ter esquecido sua carteira. “Ainda bem que era verão”, divertiu-se.

Curtas
Três curtas ocuparam a terceira noite competitiva, começando com o inspirado Do que se faz de conta, das diretoras Amanda Pontes e Micheline Helena (CE), que insere em sua narrativa o fascínio mágico pelo cinema ao contar a história de um velho projecionista e sua filha. O cinema clássico norte-americano, em filmes como Gilda, com Rita Hayworth, entrelaça-se à própria ficção na vida dessa pequena família.
O curta goiano Algo do que fica, de Benedito Ferreira, revisita numa chave ficcional o silêncio em torno da tragédia do césio 147, em Goiânia, ocorrida há 30 anos. Finalmente, o documental Manual, de Letícia Simões, feito em Cuba, registra, numa chave poética, observações em torno de como lidar com cavalos, com uma extraordinária beleza de imagens.