21/07/2026

Passado recente em xeque nos filmes de abertura em Brasília

Brasília -
Se filmes de abertura, mesmo fora de competição, servem para sinalizar alguma declaração de intenções, é de se esperar que a 51ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro colocará em discussão, até o dia 23, alguns dos mais sérios problemas de identidade, polarização, choque entre passado e presente que afetam o País. O que é um sinal de que o festival, idealizado por Paulo Emílio Salles Gomes, continua muito vivo e forte.

Independentemente de erros e acertos ao longo de sua realização, o longa Domingo, de Clara Linhart e Fellipe Barbosa (este o autor de Casa Grande e Gabriel e a Montanha), e o curta Imaginário, de Cristiano Burlan, cumpriram seu propósito de botar sua colher neste imenso caldeirão efervescente do Brasil. Cristiano, aliás, exibe na tarde deste sábado (15), na mostra paralela Onde Estamos e Para Onde Vamos?, o documentário Elegia de um crime, lançado na mais recente edição do Festival É Tudo Verdade, que desdobra as várias e dilacerantes camadas do assassinato da mãe do diretor, Isabel Burlan, há 7 anos – ainda impune – e que compõe, juntamente com o curta Construção e o longa Mataram meu irmão, a chamada “trilogia do luto” na obra deste diretor gaúcho-paulista.

Mesmo abordando uma história familiar, Elegia de um crime tem muito a dizer sobre a persistência doentia da violência machista na sociedade brasileira.

Churrasco gaúcho

O ponto de partida de Domingo, ambientado no interior gaúcho (foi filmado em Pelotas), foi um roteiro de Lucas Paraíso (autor do roteiro do drama Aos teus olhos) que vem sendo desenvolvido desde 2005. Como o filme se situa temporalmente no dia da posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 1 de janeiro de 2003, compreensivelmente veio passando por diversas mudanças, tentando acompanhar um contexto político cada vez mais imprevisível. “Nunca poderíamos imaginar que, a esta altura, o Lula estaria preso”, comentou o diretor Fellipe Barbosa, no debate do filme.

Essas alterações na história, segundo ele, vieram mais no sentido de que “os personagens oprimidos não fossem só oprimidos”. Assim sendo, cresceram relativamente personagens como o da empregada Inês (Silvana Sílvia), única negra dentro do elenco, que é uma figura não submissa e capaz de eventualmente fazer frente à autoritária matriarca Laura (Ítala Nandi). O roteirista Paraíso acrescentou que estas mudanças dramatúrgicas nos empregados vieram também de contribuições dos próprios atores. O filme, aliás, é construído em torno de uma grande dose de improvisações, celebradas por longos planos-sequências.

Estas relações de poder, não raro permeadas por rituais de crueldade, são colocadas em primeiro plano na história, que acompanha a realização de um churrasco, reunindo duas famílias, a dos donos de uma grande casa decadente e também a de um de seus empregados (vivido por Michael Wahrmann, Martha Nowill e seus filhos). Nesta casa, são empregados domésticos Inês, sua filha Rita (Maria Vitória Valença) e José (Clemente Viscaíno), um velho sem família cuja vida gira inteiramente em torno destes patrões.

A posse de Lula é acompanhada à distância, pela televisão, pela empregada Inês, sem que os patrões tomem muito conhecimento daquele cerimonial que se passa em Brasília. Hoje, diante de tudo o que aconteceu desde 2003, o filme poderá ter certamente outras leituras, já que se pretendia, a princípio, como um mergulho nos valores de uma certa elite, como Barbosa fez em Casa Grande. O diretor vê um parentesco entre os dois filmes, mas considera que Domingo é “menos reconciliatório”, talvez um reflexo de tempos mais acirrados – ainda que Fellipe Barbosa observe que talvez este confronto atual “talvez seja necessário”.

Referências

No debate, foram apontadas várias referências cinematográficas com as quais Domingo dialoga – que foram assumidas pelos diretores -, caso do cinema de Lucrécia Martel (especificamente O Pântano, citado pelo professor Ismail Xavier, que estava na plateia) e também do cinema romeno (caso específico de Sierra Nevada), além de Pedro Almodóvar e Luis Buñuel.

Um dado incerto no lançamento comercial do filme será a reação do público durante as transmissões pela TV que mostram trechos do discurso inaugural da primeira posse de Lula. Junto à plateia politizada do festival, nesta noite de sexta (14), a repercussão foi altamente calorosa, ensejando várias manifestações de “Lula Livre”! – que, aliás, tinham ocorrido desde o início da apresentação da cerimônia de abertura, capitaneada pelos atores Letícia Sabatella e Chico Díaz.

Fellipe Barbosa disse que “é completamente imprevisível saber” como será esta reação na estreia do filme, prevista para ocorrer logo após a realização do primeiro turno das eleições, que ocorrem no dia 7 de outubro.

Imagens suíças

Já o curta Imaginário sobrepõe o som de diversos antigos noticiários (repórter Esso) e/ou discursos relativos a vários momentos dramáticos da história brasileira – a derrubada e o suicídio de Getúlio Vargas, o discurso de João Goulart na Central do Brasil, declaração de vacância da presidência da República pelo deputado Ranieri Mazzili, abrindo espaço ao golpe de 1964, a prisão do governador Miguel Arraes, o discurso do deputado Rubens Paiva conclamando resistência ao golpe, o anúncio do AI-5 – a imagens diversas fornecidas pela Cinemateca Suíça.

Uma chave da compreensão está numa frase, que àquela altura pareceu enigmática, pronunciada pelo diretor Cristiano Burlan ao apresentar seu filme, na noite de ontem – “é um filme de terror”. E realmente é esta a sensação que fica pela absorção do acúmulo de tantas tragédias ao longo da história política do Brasil. A impressão que se tem, às vezes, é que ao abrir uma janela, se vai enxergar aquela série de rostos atônitos que se veem nas imagens suíças, nas ruas, intercaladas por outras, mostrando tropas marchando e o som ensurdecedor de suas botas, prenunciando uma outra vaga do fascismo na Europa. Imaginário, afinal, é um brado pela lucidez diante da memória.