23/09/2026

Filmes no domingo tematizaram impeachment e "progresso de vitrine"

Participante da mostra paralela Onde Estamos e Para Onde Vamos, o documentário Excelentíssimos, de Douglas Duarte (SP), colocou novamente em foco o impeachment da presidenta Dilma Rousseff e suas consequências.

Diretor de Personal Che (2007) e Sete Visitas (2015), Duarte viu-se colocado no epicentro deste furacão quando iniciava um documentário sobre o Congresso Nacional, em março de 2016. Contando com autorização para filmar do lado de dentro da instituição, embarcou nos acontecimentos que naquele momento sacudiam o país.

Filmando dentro deste centro de poder – assim como o recente O Processo, de Maria Augusta Ramos -, o cineasta mais uma vez coloca um espelho diante do comportamento destes representantes do povo, pró ou contra o impeachment, e as manobras de bastidores que o sustentaram.

Ainda que vários desses momentos sejam conhecidos, o documentário fornece uma espécie de linha do tempo, que começa na última aparição pública de Dilma, já deposta, recebendo flores na porta do Planalto e volta em flashback para as eleições de 2014, as manobras do candidato derrotado Aécio Neves para contestar o resultado daquela eleição e enfileira os discursos de líderes da oposição peessedebista para desestabilizar o governo, abrindo caminho à traição do MDB e ao posterior impeachment.

Como ocorreu em O Processo, é possível assistir a esses diversos capítulos de nossa mais recente tragédia institucional como um filme de terror, cujo final conhecemos – e nada mais sintomático dessa sensação do que a votação da admissão do impeachment, em 17 de abril de 2016, cujo televisionamento ao vivo permitiu ao povo brasileiro conhecer alguns dos mais folclóricos e abjetos representantes que por ele foram eleitos.

Outras imagens

Além de fazer uso destas imagens – algumas públicas, divulgadas por internet, como informam os créditos finais – o filme se vale de entrevistas próprias, algumas particularmente didáticas. É o caso de uma conversa com o deputado Carlos Marun (MDB), em que ele admite sem rodeios que “faria o impeachment independente do que se dissesse (como pretexto); se dissessem que Dilma roubou um picolé, eu faria o impeachment”. E também chama de “loucos” – ainda que não num sentido propriamente negativo, já que eram instrumentais ao impeachment – ao juiz Sérgio Moro e ao então presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha.

Essas e outras declarações, enfileiradas em ordem cronológica culminam no que se poderia chamar de “dia seguinte” do impeachment. O filme termina desmascarando a verdadeira natureza da administração Michel Temer, ao mostrar o envolvimento de seus principais artífices em escândalos de corrupção, que apontavam no governo que depuseram.

Por tudo isso, o filme tem seu valor como memória, como reorganização daqueles episódios vividos em turbilhão, colocando em evidência personagens que assumiram faces supostamente reivindicativas, libertárias – como alguns movimentos de ocasião, que levaram milhares de pessoas vestidas de verde e amarelo às ruas –, o que assume uma importância ainda maior num momento às vésperas de eleições, talvez as mais cruciais do período recente.


New life
Único representante do DF na competição de longas, New Life S.A., de André Carvalheira, caiu como um objeto não identificado na programação da noite de domingo (16). Sem dúvida, a ficção fala de questões sociais ao criar uma espécie de drama com um toque surreal em torno de um arquiteto (Renan Rovida), envolvido num grande projeto arquitetônico, patrocinado por seu sogro rico e gângster (Murilo Grossi).

O projeto está sendo construído no limite de uma reserva ambiental, diante de uma ocupação – que o sogro pretende eliminar pela força em breve, contando para isso com seus capangas armados. Paralelamente, a propaganda do novo empreendimento, New Life, envolve toda uma operação de marketing, como se realmente vendesse um novo modo de vida, o que envolve a representação de uma família, interpretada por atores, e que ocupa permanentemente um dos apartamentos decorados, realizando uma espécie de performance de comercial de margarina toda vez que um cliente em potencial os visita, como um estranho reality show.

Curiosamente, esta bizarra ideia do roteiro de Aurélio Aragão realmente foi encontrada depois na vida real. Como contou Maíra Carvalho, diretora de arte do filme, no debate de hoje, uma situação similar ocorreu em Goiânia, num shopping center.

O diretor Carvalheira, por sua vez, comentou que a mistura de tons e gêneros que percorre este seu longa de estreia – ele é um veterano diretor de fotografia e curta-metragista – vem de uma referência compartilhada por ele e o roteirista, de admiração pelo cinema surrealista de Luis Buñuel. “Queríamos fazer um retrato desse progresso de vitrine, dessa farsa de progresso. Então foi natural esse tom inserir-se na história”, disse.

Toda essa mistura, numa crítica social sem dúvida pertinente, em tempos de especulação imobiliária e empreendedorismo armado, no entanto, não funciona orgânica nem satisfatoriamente ao longo do filme, cuja estranheza em muitos momentos distancia e não engaja a pensar criticamente o tema de que está tratando. Há problemas, por exemplo, no desenvolvimento dos personagens, marcadamente a figura da esposa do arquiteto (Fernanda Rocha), cuja passividade dormente ultrapassa os limites da congruência, mesmo numa história que não se pretende completamente realista.

Curtas da competição

Na noite de domingo, foram exibidos dois curtas, o paulista Liberdade, de Pedro Nishi e Vinicius Silva, e o carioca Sempre verei cores no seu cinza, de Anabela Roque.

Com um pé na ficção, outro no documentário, Liberdade focaliza uma pensão, no bairro paulistano da Liberdade, onde coexiste uma comunidade de novos imigrantes, vindos da Guiné, e uma nissei, tematizando – ainda que numa encenação nem sempre convincente – um tema oportuníssimo, o apagamento e a sobreposição das histórias de diversas populações no bairro da Liberdade. Ainda que em sua origem estejam afrodescendentes, esse dado foi suprimido da memória, substituído pela passagem dos japoneses – hoje a cara “oficial” do bairro – e outros asiáticos, como coreanos e chineses. O tema, inclusive, ganha um momento especial diante da desastrada decisão do prefeito paulistano, Bruno Covas, de mudar o nome da praça da Liberdade para Liberdade-Japão, o que vem sendo alvo de protestos.

Sempre verei cores no seu cinza focaliza uma série de performances realizadas por alunos e professores da UERJ, visando um deslocamento, por espaços do Rio, de protestos artísticos para lembrar o desmonte da antiga e tradicional universidade estadual do Rio. A performance, aliás, é um elo de ligação deste curta com outro da seção competitiva, exibido no sábado (15), o cearense Boca de Loba, de Barbara Cabeça, que também tematiza a ocupação de um espaço urbano, no caso, o centro de Fortaleza, para expressar, aqui numa chave mais fantástica, uma tentativa de empoderamento feminino e afirmação de corpos de mulheres saindo dos subterrâneos que simbolizam a invisibilidade e a opressão.

Outro curta exibido sábado, o paulista Kairo, de Fábio Rodrigues, focalizou de maneira sensível o drama de uma assistente social (Vanessa Oliveira) que deve contar a um menino de 9 anos (Pedro Guilherme) que sua família foi chacinada, na periferia da zona norte da capital paulista.