21/09/2026

Memória e resistência são temas dos filmes do sábado

Um feliz encadeamento na programação deste sábado (15) no Festival de Brasília alinhou filmes de temas muito próximos, permitindo um diálogo. Foram eles o documentário Nós (foto ao lado), de Pedro Arantes (SP), exibido na mostra paralela Onde Estamos e Para Onde Vamos, e os dois longas concorrentes da noite, o documentário Torre das Donzelas, de Susana Lira (RJ), e a ficção Los Silencios, de Beatriz Segnier, uma coprodução Brasil/Colômbia/França que foi selecionada na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2018.


O apagamento de memórias duras entra como um fio condutor destes três filmes, que resgatam, ainda que em chaves diferentes, episódios dramáticos do Brasil e da Colômbia, na fronteira com o Brasil, em Letícia.

Autogestão na cadeia

Parece incrível que as cerca de 30 personagens de Torre das Donzelas, ex-presas políticas
de um setor isolado do presídio Tiradentes, em S. Paulo, nos anos 1970, tenham passado quatro décadas em quase silêncio sobre esta extraordinária experiência, um verdadeiro exercício de resistência e autogestão dentro da cadeia, em plena ditadura. Elas mesmas contam que não haviam tocado no assunto nem com maridos, nem com filhos por muitos anos, algumas até agora.

Do relato destas mulheres – entre as quais, a jornalista Rose Nogueira, a fotógrafa Nair Benedito, a educadora Dulce Maia e a ex-presidenta Dilma Rousseff – emerge a descrição de suas vivências, isoladas das presas comuns, num local em que elas não só reconstruíram o espaço físico (mediante o trabalho de duas arquitetas que havia entre elas) como criaram rotinas que lhes permitiam resistir ao medo, às eventuais torturas (fora dali) e à imprevisibilidade do tempo que permaneceriam ali dentro, longe de filhos, maridos, familiares.

Um grande acerto do filme é evitar um tom lamentoso e também fugir do modelo tradicional das “cabeças falantes”. Evidentemente, há algumas entrevistas em separado – como foi o caso de Dilma e Ilda Martins da Silva, entre outras. Mas grande parte do documentário se vale de um dispositivo, a construção de um cenário que reproduz a “torre das donzelas” (assim chamada por seu formato e a ocupação feminina), a partir dos desenhos que elas fizeram, nenhum igual ao outro, é bom que se diga.

Conquista do espaço

Este espaço, que ficou montado num estúdio em S. Paulo por dez dias, permitiu que as ex-colegas de cela voltassem a conviver num mesmo lugar, reproduzindo tarefas, como cozinhar juntas e conversar. Dilma não pode participar dessa vivência porque, naquele momento, defendia-se no processo do impeachment. Ela é, no entanto, uma personagem que se sobressai por seu carisma para articular as memórias daquela comunidade, que usou esse tempo em comum para a própria educação pessoal e política, já que trocavam informações, livros, davam cursos de línguas entre si, resistindo à desumanização e desesperança comuns em situações de aprisionamento.

Há episódios absolutamente impagáveis, como quando elas lembram da chegada de três malas, doadas pela família rica de uma das prisioneiras, contendo vestidos de festa – coisa das mais inúteis para elas, mas que serviu para que organizassem um desfile na cadeia. O diretor do presídio, acreditando que estavam enlouquecendo, como resultado, autorizou que tomassem banho de sol a partir dali.

As presas criaram inclusive um ritual para quando uma delas era libertada, cantando a Suíte do Pescador, de Dorival Caymmi, como despedida. Ainda assim, nesta libertação havia perigos. Foi lembrado hoje, no debate do filme, que uma das prisioneiras soltas, Eleni Teles Guariba, desapareceu três meses depois.

A sombra do desaparecido

Desaparecidos estão no centro de outro documentário, Nós, que nomeia quatro deles: Luiz Almeida Araújo, o Lula, militante da luta armada, desaparecido desde 1971; Rolindo Vera, professor indígena guarani, desaparecido no Mato Grosso do Sul desde 2005; Paulo Alexandre Gomes, com passagens na justiça e em liberdade condicional, desde 2006, durante os chamados “crimes de maio”; e Felipe Damasceno Machado, desde 2008.

As circunstâncias por trás destes sumiços podem variar, mas compartilham uma trágica marca em comum – a capacidade desta ausência, esta morte sem corpo e sem possibilidade de luto, de assombrar permanentemente seus familiares. Saltam aos olhos evidências da responsabilidade de autoridades policiais ou militares por trás de todos eles, expondo uma sinistra “filosofia de trabalho”, assumida por alguns personagens dos porões da ditadura – caso do coronel Paulo Manhães, conhecido pelo codinome “doutor Pablo”, que em depoimento à Comissão da Verdade, citado no filme, defendeu a tática dos desaparecimentos pela maior eficácia de sua “ação psicológica”, provocando mais medo ainda do que a morte pura e simples.

No caso da ficção Los Silencios, a presença destes desaparecidos é materializada pela visão de seus fantasmas por sua família, criando uma narrativa com um toque surreal, fantástico, que nunca encobre a tragédia dos acontecimentos reais - no caso, a guerra contra o narcotráfico e as FARC, na Colômbia, que vitima preferencialmente as populações pobres.

O filme, que tem no elenco Enrique Díaz, Marleyda Soto e vários não atores da comunidade indígena da Ilha da Fantasia – incrível nome real de um bairro de Letícia, na Colômbia -, articula estas narrativas, dando conta da luta de refugiados destas guerras e as necessidades de ajustes e reconciliação. O filme tem uma sequência final de rara beleza, que simboliza esta busca de um novo equilíbrio, de uma nova ordem que supere as polarizações, sem esquecer de dar conta das necessidades fundamentais das populações.