O esplendor e a desconfiança do feminino em "A Portuguesa" e "Naomi Campbel"
- Por Neusa Barbosa, de Curitiba
- 09/06/2019
- Tempo de leitura 4 minutos
Curitiba -Entre as Exibições Especiais desta edição, certamente uma das mais notáveis é a do filme A Portuguesa, da realizadora lusitana Rita Azevedo Gomes - uma das veteranas de estilo mais elegante do cinema de Portugal e que está em Curitiba como membro do júri internacional.
Ambientado no período medieval, o filme é um primor de direção de arte, tendo na fotografia de Acácio de Almeida um aliado poderoso para a precisão da composição de ambientes. Toda esta moldura estética está a serviço de uma obra que consegue, no devido tempo, invocar a vida pulsante por trás de todas as convenções de época, trazendo à lua uma instigante discussão sobre os conflitos dos mundos feminino e masculino segundo os valores de então, mas trazendo este atrito para a contemporaneidade de maneira sutil.
Realidade trans
Na sessão Foco, um destaque é a diretora chilena Camila José Donoso, também presente em Curitiba, e que ontem apresentou seu documentário Naomi Campbel (2013), em que desdobra parte da trajetória de Paula Yérmen Dinamarca - uma transexual em busca de uma operação de mudança de sexo. Ao longo da carreira de Camila, aliás, Yérmen tornou-se uma presença constante em seus filmes. Aqui ela funciona também como co-diretora, numa cumplicidade da exposição de sua própria intimidade que só assim seria possível.
ASSISTA AO TRAILER DE NAOMI CAMPBELL
Apesar da diferença de época deste filme e da história de A Portuguesa, a feminilidade distinta de Yérmen é ígualmente vista com desconfiança por alguns de seus vizinhos, no bairro popular onde mora, ainda mais porque ela é assumidamente chegada ao sincretismo religioso - tem um altarzinho em que mistura várias devoções em sua casa e trabalha num portal de tarô, dando consultas esotéricas por telefone.
Trabalho de gerações
