05/06/2026

Noite nordestina no festival consagra curtas e o longa "Soldados da Borracha"

Fortaleza - Exibido fora de competição, o documentário Soldados da Borracha, de Wolney Oliveira (foto), carimbou o DNA da noite mais nordestina dentro do festival - em que três dos quatro curtas vinham do próprio estado e um único (Marie, de Léo Tabosa), de Pernambuco, ainda que com referência ao Ceará na história e diversos técnicos locais na equipe.

Por tudo isso, foi uma noite de Cine São Luiz lotado e acolhimento proporcional à auto-estima que, neste momento, contra a corrente do País em transe, o cinema cearense vem experimentando - inclusive tendo-se em conta a indicação da atração inaugural do festival, A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, diretor cearense, para lutar por uma vaga na fila do Oscar de filme estrangeiro.

História encoberta

Já premiado no Festival É Tudo Verdade, em abril, onde teve sua première, Soldados da Borracha resgata uma história trágica e inexplicavelmente mal-conhecida pelos brasileiros - a saga dos cerca de 55.000 trabalhadores de vários estados que foram atraídos, por propaganda no governo Getúlio Vargas, para participar de um esforço em prol dos EUA na II Guerra, suprindo suas necessidades de borracha, extraída na Amazônia. Apesar das promessas governamentais, as condições de trabalho eram tão duras - com casos de maus-tratos, exploração e escravidão - que cerca de 30.000 destes trabalhadores morreram.

Contando com farto material de arquivo, pesquisado dentro e fora do Brasil com a assessoria de Antônio Venâncio e Carla Siqueira, o filme se constrói também nas diversas entrevistas feitas pelo diretor com os sobreviventes, de cujos relatos emergem denúncias inacreditáveis. Ainda que não falte a muitos deles bastante humor para revisitar memórias nem sempre agradáveis.

Falta de reconhecimento

Na coletiva de imprensa, Wolney Oliveira (na foto com o músico DJ Dolores, autor da trilha do filme) - que é diretor executivo do Cine Ceará - destacou como sua maior dificuldade encontrar uma estrutura dramatúrgica para o filme, já que acumulou, ao longo de anos, cerca de 220 horas de material (ele tem encaminhado o projeto de uma série para aproveitar parte disso).

Na fase inicial, o desafio foi encontrar materiais para o filme. “O próprio governo brasileiro queimou documentos referentes aos ‘soldados da borracha’, o que dificultou que, mais tarde, eles pudessem obter aposentadoria”, afirmou o diretor. Mesmo órgãos que dispunham de arquivos a respeito, como a Cinemateca Brasileira, mostraram-se refratários a compartilhá-lhos, exigindo esforço redobrado da produção do documentário.

Finalmente, como o filme mostra, estes ‘soldados da borracha’ - entre eles, também algumas mulheres - conseguiram, em 2014, o direito a uma indenização de R$ 25.000,00 e aposentadoria de dois salários mínimos, sem décimo-terceiro, nada mais. Para Wolney, outra grossa injustiça: “Eles nunca obtiveram o mesmo reconhecimento que os pracinhas da FEB (Força Expedicionária Brasileira), por exemplo. Os túmulos dos ‘soldados da borracha’ muitas vezes ficaram perdidos na selva. Enquanto isso, os pracinhas têm um túmulo de honra no Rio de Janeiro”, frisa.

Autor da trilha sonora, o músico DJ Dolores contou que repetiu aqui a técnica que utilizou para a trilha de um documentário anterior de Wolney, Os Últimos Cangaceiros - “abordar o documentário como se fosse uma ficção”. Ele também se disse indignado sobre “como essas situações se repetem no Brasil”. Ao seu lado, o fotógrafo do filme, Rogério Resende, lamentou “o desconhecimento que se tem desta história”.

O documentário tem lançamento estimado para o segundo semestre de 2020, além de ter garantida sua exibição no Canal Brasil, um de seus coprodutores.

Curtas

Numa noite que celebrou o Nordeste, foram marcantes curtas que valorizaram exercícios de linguagem, realizados por diretores formados em escolas locais, como a Cena 15, do Porto Iracema.

Foi o caso de O tempo do olhar e o olhar no tempo, de Samuel Brasileiro (corroteirista de Pacarrete, de Allan Deberton, o grande vencedor do mais recente Festival de Gramado, atração de encerramento aqui amanhã), Marco, de Sara Benvenuto, e Oração ao cadáver desconhecido, de Sávio Fernandes. Em todo caso, três curtas muito diferentes.

Parte de uma série de filmes feitos com a avó do diretor, de 88 anos, O tempo do olhar e o olhar no tempo se constroi em cima de conversas dele com ela, em que lhe são mostradas fotos obtidas na Feira da Ladra, em Lisboa. A partir das fotos, a avó faz comentários em que mistura observação e suas próprias memórias.

Marco, por sua vez, desenvolve uma narrativa em torno de uma jovem mulher (Ana Luiza Rios), que volta à sua cidadezinha natal, confrontando os códigos locais de conservadorismo e machismo, que ela não se mostra mais disposta a aceitar.

Exemplo de filme de gênero constituído em cima dos cânones do terror, Oração ao cadáver desconhecido cria um clima de medo a partir do surgimento de um cadáver, seu encontro por dois homens e o destino que um deles decide dar a este corpo.

Finalmente, o pernambucano Marie - multipremiado no Festival de Gramado, onde estreou -
segue uma narrativa mais clássica, muito bem-decupada, em torno de sua personagem-título (Wallie Ruy), uma mulher trans que volta à sua cidade natal para enterrar o pai. Sua volta é a oportunidade de reencontrar o velho amigo Estêvão (Rômulo Braga), que há anos se afastou dela, depois de uma infância passada juntos.