05/06/2026

Comédia cubana tempera com ficção científica o tema da imigração

Fortaleza - Comédia embebida na ficção científica, A Extraordinária Viagem de Celeste García, de Arturo Infante [na foto a atriz Maria Isabel Díaz, o diretor Arturo Infante (direita) e o tradutor Enrique Hernandez], soprou um ar leve na competição do Cine Ceará na noite desta terça (3). Interpretada pela cubana Maria Isabel Díaz, radicada há 15 anos na Espanha (foi atriz de Volver, de Pedro Almodóvar), a protagonista é uma sexagenária professora, que trabalha como atendente no Planetário de Havana e que um dia se vê confrontada com a surpreendente descoberta de que sua vizinha era uma alienígena do planeta Gryok.

O roteiro, também assinado por Arturo Infante, ao mesmo tempo ironiza e normaliza esta convivência entre alienígenas e terráqueos na ilha de Fidel, extraindo humor e comentário político-social na mesma medida. Mas o faz com leveza, com um olho na comédia, sem abrir mão da humanização de seus personagens.

Celeste encarna diversos dilemas femininos - chegou aos 60 anos, é uma viúva solitária, tem um trauma do passado de violência doméstica e uma vida bastante incolor. Assim, cai como um presente o convite recebido da vizinha alien para embarcar na próxima astronave rumo a esse Gryok que todos fantasiam e ninguém conhece.

Revestido de um toque à primeira vista ingênuo, mas calcado em ironia sobre o tempo presente, o filme de Infante equilibra-se entre estas duas vertentes, da crítica social no retrato de um país belo mas de onde tantos sonham escapar para não sabem direito onde e os preparativos da viagem espacial, hilários. Impossível não rir, impossível não empatizar. Quem, no presente momento, não deseja escapar para um planeta distante?

Na coletiva do filme, o diretor comentou que realmente é
uma metáfora esta analogia entre imigração e espaço sideral já que esta imigração, para os cubanos, não raro “é tão definitiva quanto mudar-se para outro planeta”. Estreante na direção de longas, Infante é um fã de ficção científica, que realizou outras curtas dentro deste gênero, que tem encontrado expressão em outros filmes cubanos recentes, como Juan de los Muertos. Aliás, a produtora deste filme e de A Viagem Extraordinária de Celeste García é a mesma, contou o diretor.

Já para a atriz, que está extremamente diferente, fisicamente, de sua personagem na tela - muito mais magra e com cabelos curtos e brancos -, fazer este filme foi uma bem-vinda volta ao país natal. Atriz muito conhecida na ilha, desde seu filme de estreia, Una novia para David (1985), ela encarou com alegria esta volta, “um reencontro com velhos amigos e também com as novas gerações”. Desde 2003, ela não atuava em Cuba.

Curtas

Foi também a primeira noite competitiva de curtas-metragens, mostrando os primeiros quatro concorrentes (foto). Exibido no mais recente Festival É Tudo Verdade, o documentário As Constituintes de 88, de Gregory Boltz (RJ), resgatou, com materiais de arquivo, a participação de 26 deputadas no esforço da elaboração da Constituição de 1988, lutando por pautas de gênero, como o direito ao aborto. Na coletiva, o diretor informou que está preparando um longa no qual vai ampliar o tema.

A animação paulista Livro e Meio, de Giu Nishiyama e Pedro Nishi, encantou os olhos pela sua liberdade de fantasia e apuro técnico. Na coletiva, a diretora Giu contou que o filme utilizou a técnica da rotoscopia, usando como modelos um par de bailarinos - cuja movimentação, num filme sem diálogos, cria uma atmosfera onírica.

Primeiro Ato, de Matheus Parizi (SP), acompanha os dilemas de dois estudantes de teatro procurando romper a rotina de sua escola e mobilizar colegas a participarem de protestos contra o desmonte das políticas culturais, que ocorriam em São Paulo em 2015. Na coletiva, o diretor Matheus Parizi - que tem um curta anterior, O afinador, que estreou na mostra Horizontes do Festival de Veneza -, comentou sobre sua afinidade com o teatro, universo deste curta, que é também o prólogo de um futuro longa. Ele vê, na dificuldade de diálogo dos dois protagonistas de seu curta um tema essencial para explicar um dos impasses do Brasil de hoje. “Não é só uma questão de que os outros não vão às passeatas, há uma dificuldade de diálogo também dos dois, que são pedantes. Precisamos fazer esse tipo de autocrítica”.

Finalmente, o cearense Além da Jornada, de Victor Furtado e Gabriel Silveira, embarcou fundo no filme de gênero para criar uma atmosfera de terror a partir da jornada de um funcionário de agência de turismo diante de um novo e estranho patrão. Estrelado por Yuri Yamamoto, protagonista de Inferninho, este curta, como aquele longa, é fruto da nova produtora Mar Revolto, que nasceu da Alumbramento, incorporando novos membros, como Furtado. Ele contou na coletiva que o grupo prepara a produção de diversos projetos, longas e curtas, empenhado em resistir ao atual impasse na produção em cinema, criado pelo governo federal.