21/07/2026

Filmes de mulheres retratam líderes camponesas do Brasil e refugiado no México

Fortaleza
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Dois filmes dirigidos por mulheres, o documentário brasileiro Vozes da Floresta, de Betse de Paula, e a ficção mexicana Luciérnagas (Vagalumes), de Bani Khoshnoudi, apresentaram, na nova noite competitiva do Cine Ceará, dois panoramas sobre pessoas invisibilizadas, marginalizadas pela estrutura sócio-política ou o preconceito.

No caso do filme de Betse de Paula - diretora de Revelando Sebastião Salgado e da ficção Vendo ou Alugo - , o documentário traça o perfil de diversas lideranças femininas que, em várias regiões do Brasil, afirmam-se na luta pela defesa de seu trabalho e seus direitos, sejam as indígenas de Roraima, as quebradeiras do coco do babaçu, líderes sindicais e as atingidas por barragens no Pará ou as defensoras dos quilombolas do Maranhão.

Dando a palavra a cada uma destas mulheres, a diretora coloca em suas mãos a possibilidade de revelar seu modo de vida, suas lutas, seus dilemas -algumas, como uma líder sindical rural, convivem diariamente com ameaças de morte. Sendo assim, o filme tem o mérito de colocar seus espectadores diante de um Brasil tantas vezes escondido, ausente das representações da mídia. É seu maior mérito.

Como explicou a diretora no debate do filme, seu ponto de partida foi uma série de TV, em que cada uma destas líderes tinha o seu momento individual - o que explica o longa ter herdado um formato baseado no dispositivo de deixar falar suas mulheres, sem interferências, o que eventualmente compromete o ritmo da narrativa.

Uma grande contribuição à compreensão do universo destas pessoas geralmente ignoradas pela grande mídia foi a presença de três personagens do filme na sua apresentação, na noite de segunda (2) no Cine São Luís, e também no debate desta terça. Nice Machado, Rosenilde Costa e Neta Cerejo, todas elas ligadas aos movimentos dos quilombolas no Maranhão, puderam explicar, melhor do que ninguém, seus dilemas e lutas - que todas esperam que sejam levados a um público maior pela circulação de Vozes da Floresta [na foto, a
diretora Betse de Paula ao lado da líder comunitária Neta Cerejo].

Ligada aos quilombolas de Alcântara (MA), Neta destacou na coletiva como o filme chega num momento oportuno, quando deputados tentam acelerar a tramitação pelas comissões do Congresso de um novo acordo com os norte-americanos envolvendo a base de Alcântara. Ela destacou que “em nenhum momento as comunidades locais foram ouvidas”. Por isso, adiantou que já estão criando seu próprio protocolo de consulta, já que existe uma ameaça concreta de que centenas de famílias locais possam vir a ser deslocadas de seus territórios.

Refugiado gay

Numa outra chave, o filme da diretora iraniana radicada no México, Bani Khoshnoudi, Luciérnagas, entra na vida de Ramin (Arash Marandi), um refugiado iraniano que chegou ao porto de Veracruz, México. Ele vive entre a angústia da pobreza, do trabalho precário, das dificuldades com o idioma e também a ansiedade para novamente partir para outro lugar. Fora tudo isso, ele ainda tenta manter escondida sua homossexualidade, o que teve relação com sua partida do Irã, onde deixou um namorado.

O roteiro, também assinado pela diretora, abre diversos caminhos, como a amizade entre Ramin e a jovem dona da pensão em que ele mora (Edwarda Gurrola) que, por sua vez, tem uma pendência com um ex-namorado que partiu para os EUA.

Outros personagens entram neste universo focado na inadequação destes jovens, que desejam outra vida, mas não se aprofunda nenhum deles. O filme resulta um tanto minimalista, no sentido dramatúrgico, o que a diretora, na coletiva, ressaltou que se tratava de uma opção sua. “Interessa-me contar um pouco a história dos personagens, convidando as pessoas a entrar nelas. Mas não queria ser didática. Mesmo na vida, as pessoas não nos contam tudo. Nunca vamos saber toda a história de ninguém. Acho bom guardar um pouco de mistério”.

O enredo foi desenvolvido por ela a partir de uma notícia que leu, sobre um iraquiano que passou por uma série de peripécias para chegar a Veracruz. A diretora, que vive na Cidade do México, tem, até por sua história pessoal, afinidade com o tema dos deslocamentos e migrações. Ela saiu do Irã aos 2 anos de idade, levada pelos pais, vivendo nos EUA, onde estudou, e está há 9 anos no México.

Quanto ao título (Luciérnagas), a diretora o retirou de um ensaio escrito nos anos 1970 pelo cineasta e poeta italiano Pier Paolo Pasolini, que em espanhol se chama “La desaparición de las luciérnagas”, e que se referia ao sufocamento dos artistas sob o fascismo recém-renascido na Itália - em que esses mesmos artistas, no entanto, resistiam, piscando intermitentemente suas luzes. Sem dúvida, um texto a reler nos novos tempos, na Itália e no Brasil.