15/09/2026

Drama peruano "Canção sem Nome" abre competição no Cine Ceará

Fortaleza - A competição ibero-americana começou neste sábado (31) no Cine Ceará com o concorrente peruano Canção sem nome, de Melina León, drama rigoroso de estreia da cineasta, filmado em preto-e-branco com muita precisão pelo diretor de fotografia Inti Briones (de Vazante e do inédito Hebe: A estrela do Brasil).
Ambientado no Peru de 1988, sacudido por uma intensa crise econômica e política e repressão policial acirrada pela eclosão do terrorismo do grupo Sendero Luminoso, o enredo destaca um casal indígena, Georgina (Pamela Mendoza) e Leo (Lucio Rojas), e um jornalista, Pedro Campos (Tommy Párraga).
O caminho destas pessoas, de origem social muito distinta, cruza-se quando Georgina dá à luz numa clínica clandestina e seu bebê desaparece. Pedro investiga o caso, expondo as entranhas de um país tomado pelo crime organizado e a cumplicidade das autoridades, num ambiente contaminado pela opressão contra a maioria da população, pobre e privada de educação e mesmo dos mais mínimos direitos - o casal indígena nem mesmo tem documentos de identidade.
Por todos estes detalhes, coloca-se em primeiro plano os invisíveis da sociedade, que não têm voz ativa ou poder, historicamente subjugados e subsistindo com uma resistência quase mineral - num conformismo que, por vezes, explode em reações desesperadas, como seu aliciamento pelo terrorismo.
Também é muito bom que Georgina ocupe mais o centro desta busca frenética, porque, ainda mais sendo mulher, é alvo de um tipo específico de discriminação. Pedro, por sua vez, tem seus problemas íntimos para torná-lo alvo de ameaça. Nesta aliança acidental de opressões distintas é que o filme de Melina León, que teve sua première em Cannes e venceu prêmio no Festival de Munique, forja a forte empatia que constroi com o público por seus deserdados da terra.

Comédia
Fora de competição, abriu a noite uma exibição especial da comédia Maria do Caritó, de João Paulo Jabur, em que a atriz Lília Cabral interpreta a protagonista, uma personagem que já viveu no teatro. Trata-se de uma solteirona virgem, que vive numa pequena cidade do interior, presa a uma promessa do pai, supostamente para salvar sua vida quando bebê, e que a condenou a não se casar, prometida que foi a São Djalminha.

Lília é um encanto como atriz, carismática, frágil, ingênua e é a principal atração do filme, que tem no elenco ainda a luminosa Juliana Carneiro da Cunha como a dona de um circo - é pena que o cinema brasileiro não dê mais e melhores chances para aproveitar o talento de Juliana, desde 1990 integrante do grupo francês Théâtre du Soleil.
Ela foi homenageada pelo festival (foto).
Maria do Caritó tem estreia prevista para 31 de outubro.

Foto deLília Cabral: Arlindo Barreto/Divulgação