"A Vida Invisível" tem sessão apoteótica no Cine Ceará
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 31/08/2019
- Tempo de leitura 3 minutos
Fortaleza - Foi apoteótica a primeira apresentação em território nacional do drama A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, abrindo a 29a. edição do Cine Ceará na noite desta sexta (30). Não só pela presença da atriz Fernanda Montenegro, uma das raras unanimidades nacionais em qualquer tempo - e que não participou da exibição do filme em Cannes, em maio, onde ele venceu o prêmio de melhor filme da mostra Un Certain Regard - como pelos protestos contra a indicação de um interventor na Universidade Federal do Ceará, com direito a faixas no palco e também à presença de políticos, como os ex-candidatos presidenciais Fernando Haddad e Ciro Gomes na primeira fila do cine São Luiz.
A sessão de A Vida Invisível, indicado pelo Brasil para concorrer a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro 2020, foi calorosa, apaixonada, movida por diversas manifestações, no palco ou na plateia (o filme ainda tem uma sessão extra na manhã deste sábado, na sala Dragão do Mar). Karim Aïnouz, que veio receber o troféu Eusélio de Oliveira, homenagem do festival à carreira deste que é o mais famoso cineasta cearense do momento, não se furtou a ler uma declaração do movimento na Universidade Federal do Ceará, que é um dos pilares por trás do próprio festival.
Fora isso, Fernanda Montenegro, às vésperas dos 90 anos - a completar-se em outubro - fez, como sempre, uma manifestação firme e iluminadora. Olhando o cinema lotado, na plateia e no mezanino, começou sua fala dizendo: “O Brasil vai dar certo. E vai dar certo pela arte”, sendo aclamadíssima. Em seguida, contou como Karim a contatou para participar do elenco deste filme, por meio de uma carta, em que ele se referia as vicissitudes da vida de sua mãe, Iracema, uma feminista, e de sua tia - que estava na sessão ontem - e que enfrentaram toda a série de obstáculos que travavam as mulheres de sua geração, tão cristalinamente retratados nesta história - uma obra sublime que não só expõe o sufocamento das mulheres no Brasil dos anos 1950 como humaniza os homens que julgam ser seu dever manter estas estruturas patriarcais que, finalmente, também a eles desumanizam e oprimem.
Segunda visita
Foi minha segunda visão deste filme primoroso, em que Karim Ainouz, adaptando obra alheia (o romance de Martha Batalha), o faz com imensa liberdade e poder de reinvenção, contando com a cumplicidade de suas protagonistas, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), as duas irmãs que simbolizam tantas das múltiplas faces da feminilidade em perigo, esgarçada por regras, costumes, morais e preconceitos que abatem, em sua época, tantas possibilidades de auto-expressão e livre arbítrio.
Encharcada de tons vermelhos e verdes, a fotografia de Hélène Louvart é a moldura ideal de uma história em que as sutilezas somam intensidade, evidenciando o ritmo dramático preciso do diretor nesta sua maturidade serena, mas também inquieta. A vida invisível é um primor em suas elipses, em seus não-ditos, em seus pulos temporais, sem que nada se perca, nada sobre fora do lugar e nenhuma pieguice se infiltre. Diretor de Madame Satã, O Céu de Suely e Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo, Karim compõe seu melodrama magistral. Como eu já disse em Cannes, é o nosso Almodóvar tropical.
O filme estreia no Nordeste no dia 19 de setembro e 31 de outubro em outras regiões.
Encharcada de tons vermelhos e verdes, a fotografia de Hélène Louvart é a moldura ideal de uma história em que as sutilezas somam intensidade, evidenciando o ritmo dramático preciso do diretor nesta sua maturidade serena, mas também inquieta. A vida invisível é um primor em suas elipses, em seus não-ditos, em seus pulos temporais, sem que nada se perca, nada sobre fora do lugar e nenhuma pieguice se infiltre. Diretor de Madame Satã, O Céu de Suely e Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo, Karim compõe seu melodrama magistral. Como eu já disse em Cannes, é o nosso Almodóvar tropical.
O filme estreia no Nordeste no dia 19 de setembro e 31 de outubro em outras regiões.
Fotos do Festival: Rogério Resende/Divulgação
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