"O mês que não terminou" esquenta o debate político em Brasília
- Por Neusa Barbosa, de Brasília
- 27/11/2019
- Tempo de leitura 4 minutos

Brasília -
Qualquer documentário teria dificuldades imensas - intransponíveis talvez - para dar conta de um tema tão amplo como a relação que une os protestos de rua de 2013 com o resultado da eleição presidencial de 2018. No entanto, é a essa a missão que se propõe O mês que não terminou (ao lado, equipe durante o debate sobre o filme), de Francisco Bosco e Raul Mourão, longa concorrente no Festival de Brasília.

Professor da UFRJ e ex-integrante da equipe do ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira, Bosco, ao lado do artista plástico Raul Mourão - que abre espaço à inserção de sequências visuais abstratas, inclusive de outros artistas, ao longo da narrativa -, empenha-se numa reflexão intelectual que é difícil de acompanhar plenamente neste formato de um documentário de 104 minutos, narrado pela atriz Fernanda Torres. Talvez seja essa a grande fragilidade do filme que, sem dúvida, se soma a diversas outras tentativas fílmicas de aproximação do impasse atual do Brasil - como Democracia em Vertigem, de Petra Costa, Já vimos esse filme, de Boca Migotto e tantos outros.
Rodantes
Na mostra paralela Novos Realizadores, o filme de estreia do mineiro Leandro Lara, Rodantes, focalizou três personagens errantes e perdidos na paisagem de uma devastada Rondônia. Tatiane (Caroline Abras) é a prostituta que se move de povoado em povoado, parecendo fugir a um passado indeterminado. Henry (Félix Smith) é um imigrante haitiano que vai trabalhar no garimpo, levando com ele a mulher e dois filhos pequenos. Odair (Jonathan Well) é um adolescente que vive com a família numa comunidade pesqueira e abandona sua casa buscando independência.
A sequência inicial, mostrando estes três personagens na beira de uma estrada à noite, onde caminhões passam rapidamente, parecendo que vão atingi-los, é de uma grande beleza e poder de síntese, resumindo a instabilidade de sua posição neste mundo de relações precárias e violentas. A fotografia de Adolpho Veloso, aliás, é um dos pontos altos da produção.
Não vai tão bem o desenvolvimento destes personagens no roteiro, assinado por Lucas C. Barros, especialmente no retrato da personagem feminina. Ela ocupa muitas cenas com seu corpo, nestes bordeis sórdidos, resultando numa exposição um tanto excessiva desta nudez, sem que se dê chance a esta ótima atriz de expressar a dinâmica de sua personagem de maneiras mais complexas.
Da mesma maneira, a jornada mística a que Henry se lança não parece devidamente solidificada ao longo de sua trajetória no filme.

Curtas
Parabéns a você (foto), de Andréia Kaláboa (PR), retrata o universo infantil de uma comunidade de origem ucraniana, destacando o sonho de uma menina, Yiúlia (Monica Christo) de viver uma festa de aniversário, o que encontra um obstáculo a morte de um primo de sua mãe.
O curta baiano Pelano!, de Christina Mariano e Calebe Lopes, envereda pela ficção científica com toque político ao descrever uma situação de impasse quando, de vido à devastação ambiental, os habitantes de uma cidade são impedidos de circular nas ruas em determinados horários do dia pelo risco de combustão espontânea no fortíssimo calor.
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