04/06/2026

Brasil estreia em Berlim com dois filmes ambientados em São Paulo

Marco Dutra e Caetano Gotardo foram a 1899 para fazer Todos os Mortos (fotos ao lado e abaixo). Matias Mariani fincou os pés no século 21 em Cidade Pássaro. Mas os dois filmes têm mais do que uma coisa em comum: passam-se em São Paulo, lidam com imigração e estão no 70º Festival de Berlim, o primeiro em competição, e o segundo, na seção Panorama.

A ideia de Todos os Mortos surgiu há oito anos, e de lá para cá muita coisa mudou no Brasil, o que teve impacto no longa. Mas a verdade é que, por mais transformações que o País tenha atravessado nos últimos tempos, a estrutura da sociedade continua a mesma. Dutra e Gotardo, que dirigem juntos pela primeira vez, foram buscar no passado as razões para isso, focando na virada do século 19 para o 20. O Brasil tinha sido o último país das Américas a abolir a escravidão, em 1888, e a República tinha sido instaurada via golpe de Estado militar um ano mais tarde. Os escravos foram relegados à própria sorte. A sociedade escravocrata agora tentava embranquecer a população com a imigração de europeus.

É nesse cenário que encontramos as mulheres da família Soares. Isabel (Thaia Perez) e suas filhas Maria (Clarissa Kiste) e Ana (Carolina Bianchi) mudaram-se da fazenda de café, agora nas mãos de imigrantes italianos, para a cidade – o patriarca continua no interior. Cada uma lida com a perda de posição social e econômica de uma maneira. Isabel finge que nada houve, Maria entra para o convento, e Ana enfrenta problemas de saúde mental. Por exemplo, sente a presença dos mortos, especialmente dos ex-escravos. As três estão à deriva. Acabam de perder Josefina (Alaíde Costa), a ex-escrava que era empregada doméstica das três. Ana insiste na contratação de Iná (Mawusi Tulani), nora de Josefina, que está no interior e também procura seu lugar no mundo, ao lado do filho João (Agyei Augusto), depois que o marido sumiu.

As complicadas interações de patrões com os empregados domésticos, a desigualdade social relacionada ao racismo, a supressão da religião e da cultura de origem africana e a eliminação das suas nuances são alguns dos problemas da virada do século 19 para o 20 que permanecem no 21. Tanto que a São Paulo de hoje vai se infiltrando pouco a pouco no filme de época, primeiro pelos sons de avião ou britadeira, depois pelas imagens de prédios e carros de polícia.
Marco Dutra e Caetano Gotardo tiveram o cuidado de contratar historiadores especialistas no ponto de vista dos negros e montar uma equipe diversificada. O resultado são detalhes que mostram respeito, como as diferenças de cultura e expressão religiosa de povos africanos (o que deveria ser óbvio, mas infelizmente não é). Só que os diretores também querem tratar de muitos assuntos, gerando uma perda de foco. A opção por um tom não-naturalista na direção dos atores incomoda, mas Mawusi Tulani se destaca de qualquer maneira. As personagens são mais representações de modos de pensar do que pessoas, e há um distanciamento que em geral resulta em frieza. Mas Todos os Mortos tem cenas fortes e uma vontade de pensar o Brasil de que o cinema nacional e o país em si necessitam no momento.

Cidade Pássaro

Em Cidade Pássaro, Matias Mariani foca na São Paulo de 2020, com a história de Amadi (OC Ukeje) que sai da Nigéria para procurar no Brasil o irmão mais velho, Ikenna (Chukwudi Iwuji). A cidade que bate no peito para dizer que é dos imigrantes é menos hospitaleira com os que chegaram recentemente, majoritariamente de origem africana e latino-americana, o que sugere o racismo de quem queria embranquecer sua população. Amadi logo descobre que as mensagens de Ikenna, contando de seu emprego como professor universitário, eram a criação de um mundo de sonho. Sem falar português, Amadi sai atrás de pistas do irmão, conhecendo o professor Miro (Paulo André) e a ex-namorada de Ikenna, Emília (Indira Nascimento).

Como Todos os Mortos, Cidade Pássaro também se perde um pouco nas tantas coisas que quer dizer, da questão da construção da identidade à rivalidade fraternal, passando pela questão da imigração recente. Ikenna também criou uma teoria matemática para explicar o mundo, que tanto pode ser genial quanto maluca. Como Marco Dutra e Caetano Gotardo, Mariani teve consultores da cultura igbo e fez questão de contratar atores nigerianos para os papeis principais.

Mariani mostra uma São Paulo ainda pouco vista no cinema brasileiro, filmando a cidade sob inspiração da ficção científica. É um começo promissor na carreira de diretor de longas de ficção para Mariani, que atuou anteriormente como produtor e roteirista, além de um documentário de longa-metragem, A Vida Privada dos Hipopótamos.

Fotos "Todos os Mortos": Hélène Louvart/Dezenove Som e Imagens