Comédia pop "Jesus Kid" satiriza situação política do país
- Por Neusa Barbosa
- 20/08/2021
- Tempo de leitura 4 minutos
Com a comédia pop Jesus Kid, de Aly Muritiba (PR), o 49º Festival de Gramado encerrou a mostra competitiva brasileira nesta quinta (19/8). Nesta sexta, será mostrado o filme de encerramento, Fourth Grade, de Marcelo Galvão. As premiações serão anunciadas neste sábado (21/8).
Sátira política
Afastando-se dos filmes densos que marcaram até aqui sua carreira - como Ferrugem, Para Minha Amada Morta e Nóis por Nóis - , Muritiba mergulhou no universo de Lourenço Mutarelli para adaptar a saga de um escritor de westerns em crise, Eugênio (Paulo Miklos). Não se trata, a rigor, de um bloqueio criativo. Acontece que o país entrou numa toada de autoritarismo religioso e a editora é pressionada a interromper a publicação de suas histórias sobre um personagem de sucesso, o cowboy Jesus Kid, alegando-se que toma o nome de Jesus em vão. Qualquer semelhança com a realidade não será mesmo mera coincidência - aliás, o general do Centro de Controle de Idoneidade Ideológica que supervisiona as políticas editoriais chama-se Olavo.
Pressionado pelo aperto financeiro, Eugênio acaba aceitando o convite para escrever o roteiro de um filme sobre um escritor em bloqueio criativo, devendo, para isso, permanecer trancado num hotel - situação idêntica ao enredo de Barton Fink, dos irmãos Coen, que é referido abertamente nesta sátira.
No hotel, Eugênio conviverá com o curioso recepcionista, Arlindo (Leandro Daniel Colombo), mas sempre chamado por ele de Chet, em referência a Barton Fink.
Fora ele, apenas dois hóspedes, a enfermeira Erica (Maureen Miranda) e o idoso incapacitado de quem ela cuida (Luthero de Almeida), farão parte de seu círculo íntimo, tornando-se os personagens Nurse e Fantoche na história que ele está escrevendo.
Fora ele, apenas dois hóspedes, a enfermeira Erica (Maureen Miranda) e o idoso incapacitado de quem ela cuida (Luthero de Almeida), farão parte de seu círculo íntimo, tornando-se os personagens Nurse e Fantoche na história que ele está escrevendo.
Mas a companhia mais constante do escritor é mesmo seu personagem Jesus Kid (Sergio Marone), que assume as rédeas da história e de sua vida, como um verdadeiro alter ego que se preze. O cowboy ousado e saradão movimenta bastante a vida do escritor tímido e travadão, tornando-se uma espécie de vingador contra os chatos e malvados do mundo, facilmente reconhecíveis em suas roupas pretas, como preferem os fascistóides. Mas não só. Há também o notório usuário de um terno verde, efusivamente cumprimentado pelo recepcionista como o sr. Hang, logo seguido por um pato amarelo, que há poucos anos frequentou a avenida Paulista, ambos frequentando um seminário para ricos e afortunados. Para eles, este Jesus não tem perdão.
Déficit de trabalho
Também centrado numa crítica social, esta em tom dramático, o último concorrente internacional foi o argentino Planta Permanente, de Ezequiel Radusky. O ambiente é um órgão governamental, a Gestão de Obras Públicas, onde há mais de 30 anos trabalha Lila (Liliana Juárez). Ela faz parte da equipe da faxina, ao lado de sua melhor amiga, Marcela (Rosario Bléfari). Mas as duas encontraram uma atividade paralela numa cantina improvisada no subsolo, uma das muitas dependências sem uso e que se torna uma fonte de ganhos e satisfação extra para elas.
A chegada de uma nova diretora (Verónica Perrotta) , com suas habituais políticas de reestruturação e que acarretam demissões, abala a rotina. O processo permite ao filme observar a impiedade com que essas situações se desenrolam no dia a dia, em que as pessoas descobrem seu desligamento ao não encontrarem mais seus cartões de ponto no lugar.
Um outro incidente entra no meio da amizade de Lila e Marcela, expondo as raízes deste fenômeno em que a escassez crescente de trabalho leva trabalhadores a deixarem de reconhecer-se como iguais e estarem no mesmo barco.
Curtas
A Fome de Lázaro, de Diego Benevides (PB), retrata uma tradição da cidade de Monteiros, interior paraibano, onde a cada ano se repete uma série de banquetes rituais, inclusive para os cães da cidade, tendo como referência uma promessa de São Lázaro.
Da Janela Vejo o Mundo, de Ana Catarina Lungarini (PR), centra sua história numa velha senhora (Catarina Lucinda), em conflito com sua rotina e que resolve tomar uma atitude para matar sua saudade de ter a areia da praia em contato com seu corpo, como ocorria no passado que ela recorda luminoso.
