Distopia pernambucana e comédia uruguaia na sexta noite de Gramado
- Por Neusa Barbosa
- 19/08/2021
- Tempo de leitura 4 minutos
Diretora de arte de mão cheia e diretora de filmes como o premiado curta Superbarroco e os longas Amor, Plástico e Barulho e Açúcar, a pernambucana Renata Pinheiro investe com tudo na fábula futurista em Carro-Rei, concorrente na competição em Gramado.
No cenário de uma Caruaru em que parece haver mais automóveis e motos do que gente, Renata cria um filme com um conceito estético bem-amarrado, com vários detalhes futuristas determinando o tom da história. Criando uma parábola política para um país obcecado por carros como símbolo de poder e ascensão social, ela centra seu foco na família formada por Marineide (Ane Oliveira), seu marido e o filho, Ninho. Vivendo na mesma casa, está o irmão de Marineide, Zé Macaco (Matheus Nachtergaele), mecânico de automóveis.
A morte de Marineide num acidente provoca a ruptura do núcleo familiar, com a expulsão de Zé pelo cunhado para o ferro-velho no limite da cidade. Agora adulto, Ninho (Luciano Pedro Jr.) rompe com o pai, dono da frota de táxis Carroaru Táxis, para estudar Agroecologia.
Reaproximados, tio e sobrinho empenham-se na reforma do carro destroçado no acidente que matou Marineide, simbolizando não só a própria reconstrução de seu vínculo do passado, como projetando uma perspectiva intrigante. O carro, afinal, mostra inteligência, pode falar e conversa especialmente com Ninho, que tem essa capacidade de comunicação com a máquina desde pequeno.
O roteiro, assinado por Renata, Sérgio Oliveira e Léo Pyrata, imagina desdobramentos que remetem ora a Stanley Kubrick - na presença de uma máquina inteligente e potencialmente perversa, como o computador Hal, de 2001 - Uma Odisséia no Espaço - como à anarquia de Léos Carax. E assim Carro-Rei constitui um verdadeiro objeto não-identificado em sua fusão de fábula e comentário político-ecológico que situa uma possibilidade de resistência às máquinas modificadas e inteligentes num aditivo retirado da agricultura orgânica.
Não falta também o erotismo humano/máquina, materializado pelas participações da performer Mercedes (Jules Elting), em sequências de uma bizarra beleza.
Comédia uruguaia
Bem mais pé no chão, o concorrente internacional foi a comédia uruguaia A Teoria dos Vidros Quebrados, uma coprodução com Brasil e Argentina, dirigida por Diego Fernández Pujol. Mas não deixa de ser também bizarra a situação de Claudio Tapia (Martin Slipak), perito de uma seguradora deslocado para uma missão numa cidadezinha na fronteira.
Supostamente, trata-se de uma promoção mas, ao chegar lá, Claudio descobre que sua vida ali não será nada fácil. Estão ocorrendo uma série de misteriosos incêndios de automóveis e sua companhia deverá indenizar pelo menos alguns deles.
Pressionado, de um lado, pelos clientes ansiosos por receber suas apólices, pelo chefe que quer que ele enrole e por diversos moradores da cidade, como o poderoso empresário Mendiçabal (o ator brasileiro Roberto Birindelli) e o delegado (César Troncoso), o perito também fica numa saia justa com a própria mulher, já que ele é obrigado a estender a permanência no lugar.
Dessa composição farsesca dos personagens da cidadezinha, da inserção de trechos oníricos e de músicas que dialogam com as agruras do protagonista, o filme extrai seu humor cínico e direto.
Curtas
A diversidade sexual habitou os dois concorrentes do formato da sexta noite do festival. Aonde Vão os Pés, de Débora Zanatta (PR), descreve a situação de uma garota que procura envolvimento com uma mulher mais velha e reage ao inesperado. Memória de Quem (Não) Fui, de Thiago Kistenmacker (RJ), dramatiza a história de uma trans, Marina (Sanni Est), cujo pai (Fernando Alves Pinto), rejeita sua condição. Quando ela morre, ele decide enterrá-la como homem, vestindo-a como tal e colocando seu antigo nome na lápide. Mas sua namorada e amigas reagem à atitude.
