Cinema na pandemia e crise latina são temas em Gramado
- Por Neusa Barbosa
- 17/08/2021
- Tempo de leitura 4 minutos
A pandemia, que abala o Brasil e o mundo há praticamente dois anos, encontra uma expressão divertida em Álbum em Família, do ator e diretor Daniel Belmonte - em que um grupo de atores e um diretor (Belmonte também) tentam contornar os empecilhos do confinamento para ensaiar uma montagem/filme inspirados em Álbum de Família, de Nelson Rodrigues (1912-1980).
O próprio dramaturgo aparece em divertidos inserts, em trechos de entrevistas, fazendo uma espécie de participação fantasmática nesta tentativa de revisitar um de seus grandes textos teatrais, escrito em 1945. A escolha da peça cria um fio condutor, já que, neste momento pandêmico, o isolamento em família obriga que os atores sejam filmados por seus próprios parentes para compor as cenas da peça/filme.
Há bons momentos de humor nas participações especiais, como de Renata Sorrah e Lázaro Ramos, interagindo com a trupe, integrada por Otávio Müller, Cris Larin, Dhara Lopes, Kelson Succi, Eduardo Speroni e George Sauma. Emergem daí comentários ácidos sobre o conteúdo polêmico do texto, como seu machismo e misoginia, ao retratar uma família altamente disfuncional, incestuosa. E também uma reflexão sobre os significados mais amplos, referindo-se à análise do crítico Sábato Magaldi, que via no clã retratado por Rodrigues o símbolo da primeira família do Brasil - branca, misógina, racista.
Este esforço de um “cinema pandêmico” tem, no entanto, o problema de eventualmente enveredar demais por algumas viagens egotrípicas, que esticam uma proposta que evidentemente tem que ser enxuta para não perder o fio. Isto, no entanto, só acontece pela metade.
Troca de identidades
Primeiro concorrente da competição estrangeira, o drama policial boliviano Pseudo, dos diretores Gory Patiño e Luis Reneo, cria genuína tensão na história de um taxista de La Paz, Julián (Cristian Mercado). Retrato vivo da precariedade trabalhista e financeira que abala todo o continente, Julián trabalha dia e noite no táxi, procurando pagar a cota diária ao dono da frota e também juntar dinheiro para uma operação necessária ao seu irmão, Silvano (Percy Jiménez).
Seguindo-se a uma tentativa de assalto, um passageiro deixa no táxi sua mochila, documentos e uma máquina fotográfica. Ao decidir passar-se por ele, pensando em realizar um trabalho de fotógrafo, Julián termina envolvido na trama de um atentado a um grande empresário da mineração, envolvido com a guerra suja em seu país.
Participante do Festival de Gramado 2019 com o drama Muralla - que venceu um prêmio de ator para Fernando Arze Echalar -, o diretor Patiño exercita aqui, mais uma vez, um mergulho numa realidade social apodrecida, entremeando-a de reflexão sociopolítica. Sem esta contextualização, não seria possível compreender estes seus personagens, com vidas destroçadas por modelos econômicos ultraliberais nascendo dos escombros de ditaduras militares, cujos sinais nunca desaparecem de todo. Prova disso são as marcas que carrega no corpo a jovem Naira (Carla Arana), uma das idealizadoras do atentado.
Sem deixar de lado o componente de thriller, o filme cria tensão no comportamento errático do protagonista, metendo os pés pelas mãos ao adentrar um submundo que desconhece. A fotografia contrastada de Gustavo Soto fornece a moldura acertada para esta tragédia latinoamericana.
Curtas
Exibido em outros festivais, como o Cine Ceará 2020, o curta cearense A Beleza de Rose, de Natal Portela, revisita, numa chave sutil, o tema do racismo estrutural, ao seguir um dia na vida de uma jovem em busca de trabalho. A moça e seu cabelo afro não são, no entanto, os únicos temas de uma narrativa fluida, que segue as vidas de alguns personagens num dia qualquer - uma mulher que se prepara para o trabalho, leva o filho à escola, os vendedores ambulantes, um fotógrafo e outros. Nesta aparente diluição, infiltra-se o que o filme quer mostrar, a banalidade da vida cotidiana que drena energias e sonhos, ainda que resista uma possibilidade de revolta - da qual é um símbolo poderoso a catártica sequência final do menino contra a tela de TV que exibe, sem parar, um programa de Xuxa.
Outro retrato bem-delineado de um microambiente, o paulista Fotos Privadas, de Marcelo Grabowsky, exibido no Mix Brasl 2020, centra-se na insegurança desencadeada entre um casal de parceiros, Rafa e Mateus, depois que convidam um rapaz de programa, Felipe, para uma noite com eles. O elenco, integrado por Lucas Galvino, Vinicius Neri e Antonio Miano, sustenta muito bem esta atmosfera carregada das inconstâncias do desejo.
