21/07/2026

Identidade masculina em crise está no centro do drama "O Novelo", concorrente em Gramado

Longa de estreia da diretora Cláudia Pinheiro (SP), O Novelo, competidor brasileiro em Gramado, coloca em cena uma dramaturgia da emoção conjugada em tom sutil, investindo na mudança de alguns clichês dos dramas familiares. Como o fato de colocar no seu centro um grupo de cinco irmãos, todos homens e negros, de classe média ou alta, vivendo seus dilemas pessoais. Ou seja, também normalizando a presença de uma família negra no centro dos acontecimentos, fora de um contexto de violência, o que deveria ser normal há muito tempo num país de maioria afrodescendente, como o Brasil.

Partindo de um roteiro de Nanna de Castro, adaptando a própria peça, o filme honra esse parentesco teatral dando prioridade aos personagens e cavando espaço para sua expressão e transparência numa história cheia de abraços, carinhosa com estes cinco órfãos. A presença feminina, da mãe, d. Alzira (Isabel Zuaá), infiltra-se amorosamente no tecido emocional do quinteto.

Abandonados pelo pai quando o caçula, Cacau (Sidney Santiago Kwanza), acabara de nascer, os irmãos cresceram sob a liderança do mais velho, Mauro (Nando Cunha), assumindo o lugar da mãe, que morreu com a ajuda de Cicinho (Rocco Pitanga). A situação de cuidado mútuo é apenas um dos detalhes de um filme que desafia os estereótipos ligados à maternidade e à masculinidade - prova disso está na brincadeira dos irmãos, quando crianças, com a maquiagem da mãe, e do manejo do tricô.

Sem recorrer a grandes arroubos emocionais ou sofisticações estéticas que poderiam distrair a história do que ela pretende ser, O Novelo reserva energia para a conexão íntima destes homens entre si, apelando ao próprio sentimento de irmandade, apesar das profundas diferenças entre eles - evidente nos choques entre o advogado José Carlos (Sérgio Menezes), machão e espalhafatoso, e o intelectualizado psicanalista gay João (Rogério Brito).

Desconstruindo o macho

É notável como, num filme dirigido por uma mulher, se estabelecem com tanta nitidez estas identidades masculinas em crise - que é resultado da ampla pesquisa realizada pela roteirista Nanna de Castro para escrever sua peça. O filme fecha-se em torno deste pequeno núcleo familiar com a bravura erroneamente atribuída apenas às comédias argentinas, deixando de lado uma referência mais incisiva à política ou à religião, optando apenas pelo que melhor define ou incomoda cada personagem - caso dos problemas de Cicinho com a ex-mulher para ver as filhas.

A questão do déficit de paternidade é concentrada na localização de um homem velho, em coma no hospital, que pode ser o pai desaparecido. As diferentes reações dos irmãos diante da situação sustenta o eixo principal ao filme e sedimenta um retrato sensível de cinco pessoas, que por acaso são homens. O Novelo é a mais pura expressão do humanismo, do intimismo possível, com muito afeto - façanha respeitável em tempos tão duros.

A denúncia do racismo ficou por conta de um dos curtas concorrentes da noite de domingo (15/8), o contundente Desvirtude, de Gautier Lee (RS) - que focaliza as consequências da ofensa racista de uma professora sobre a vida de uma estudante de jornalismo, Kenia (Évellyn Santos) - que se baseou num caso real, levado ao conhecimento da ouvidoria de uma universidade.

O outro curta, a animação amazonense Stone Heart, de Humberto Rodrigues, enveredou pela ficção científica, retratando a saga de um personagem que se humaniza, num planeta devastado ao último grau, com o aparecimento súbito de uma flor - que ele tenta desesperadamente proteger. Uma metáfora clara e atual.

Identidade trans

O terceiro concorrente gaúcho, o documentário Extermínio, de Mirela Kruel, expande a legítima intenção de denúncia da violência contra a população transsexual para um mergulho profundo no estado de medo, da discriminação, mas também da luta pelos sonhos da comunidade trans do interior do Rio Grande do Sul. Ouvindo amigas, conhecidas e os pais de Nickolle Rocha, assassinada em Cachoeira do Sul, aos 19 anos, em 2016, o filme cria um dos retratos mais nítidos sobre esta condição.

Não faltam reflexão, nem emoção nem mesmo ambição artística. Essa última intenção é materializada na inserção de algumas belas cenas, como as passagens com algumas das entrevistadas na rua, dançando. Longe de serem meros enfeites, estas cenas se comunicam com os sonhos e ambições destas personagens, que revelam seus projetos de trabalho, seu medo do futuro e outras sensações normais para todo mundo - não para elas. Chegar viva ao fim de cada noite na rua, ainda mais que quase todas são levadas à prostituição para sobreviver, é uma façanha, conforme admite uma delas. Por tudo isso, Extermínio é um grito que precisa ser ouvido.