Gramado exibe "Homem Onça", um retrato das privatizações no país
- Por Neusa Barbosa
- 15/08/2021
- Tempo de leitura 5 minutos
Segundo concorrente da competição brasileira do 49o. Festival de Gramado, Homem Onça, de Vinicius Reis (RJ), faz a crônica de um país através de dois tempos na vida de um homem, Pedro - interpretado com galhardia por Chico Díaz, primeiro grande candidato a uma premiação como ator.
Pedro é gerente de projetos ambientais de uma estatal, a Gás do Brasil, no final dos anos 1990, cuja equipe acaba de receber um prêmio internacional por um projeto de sustentabilidade. Mas o troféu chega no momento em que a companhia está enfrentando uma reestruturação total, por conta da privatização - o supra-sumo da ideologia neoliberal, que impõe o enxugamento radical de empregos, indiferente à qualidade das trajetórias dos envolvidos.
Logo no início, o filme recorre a trechos documentais, de protestos de rua contra a privatização da Vale do Rio Doce, em maio de 1997, deixando clara sua inspiração num dos grandes divisores de águas na história recente do país - e que fez parte da experiência familiar do diretor Vinícius Reis, que a ouviu contar do próprio pai, afetado por ela. Mas o filme mostra mais ambição do que enraizar-se no real, construindo sua narrativa em dois tempos paralelos na vida de Pedro e permitindo-se ao menos uma sequência fantástica. Sem contar a referência simbólica que dá nome ao filme, essa fera que espreita, implacavelmente caçada, não raro julgada extinta mas demonstrando uma capacidade extraordinária de resistir.
Há o Pedro que ainda luta por seu emprego e sua equipe, casado com Sonia (Sílvia Buarque), sendo sua casa a própria residência dos pais do diretor. E há também o Pedro de alguns anos depois, morando numa casa na mata, ao lado de outra mulher, Lola (Bianca Byington). A narrativa evolui alternando estes dois tempos para traçar o perfil não só de Pedro como de um país que luta, não raro, consigo mesmo, e sem perder de vista os relacionamentos pessoais e os afetos.
A elaboração técnica do filme, com uma montagem e desenho de som precisos de Waldir Xavier (incluindo-se aí a excelente pesquisa musical, situando as épocas retratadas), a fotografia a quente de João Atala, a direção de arte de Tainá Xavier, contribui para que o filme cresça em muitas direções, oferecendo um painel reflexivo e emocionado de um país que dói na carne de todos nós. Pedro é um digno viajante de um passado recente que nos trouxe até o dramático impasse do momento atual. E que elenco afinado e maravilhoso, dando carne a personagens que tem sintonia com pessoas que existem.
O filme tem estreia nos cinemas marcada para o próximo dia 26 de agosto e entra também na plataforma Belas Artes à la Carte.
Imigrantes cercados
Segundo longa do diretor Gilson Vargas (de Dromedário no Asfalto), o concorrente gaúcho A Colmeia aposta num conceito estético forte, com uma fotografia dessaturada (de Bruno Polidoro), para delimitar o universo claustrofóbico de uma pequena comunidade isolada de imigrantes alemães no sul, no final da II Guerra Mundial. Até por esse detalhe, pode-se pensar no cinema do mexicano Carlos Reygadas nesta crônica de um grupo disfuncional, fechado sobre si mesmo e sofrendo ataques de inimigos externos.
Dois gêmeos adolescentes, Mayla (Andressa Matos) e Christopher (João Pedro Prates), adotados por uma família, representam um espaço de afeto que não tarda a ser contaminado pelo veneno generalizado do ambiente - de um clima opressivo, de trabalho braçal, desconfiança mútua e ausência de ligação amorosa entre os membros, exceto o casal principal, Bertha (Janaina Pelizzon) e Werner (Rafael Franskowiak). Ainda assim, uma relação um tanto obsessiva.
É visível que o diretor quer manter sua narrativa menos linear, em torno do mal-estar nítido destes descendentes de alemães - naquela altura, proibidos de falar alemão em público -, dos ataques que sofrem e das relações tensas que mantêm com uma comunidade externa que nunca vemos e onde não se integram. Um detalhe interessante é infiltrar nesse contexto a nota crítica da violência deles contra os indígenas.
Curtas
Na competição de curtas, o concorrente paulista Entre Nós e o Mundo, de Fábio Rodrigo, impregnou-se profundamente de uma realidade social trágica para resgatar o perfil de uma mulher, Erika Felipe de Souza, mãe que há poucos anos perdeu um de seus filhos, Theylor, morto pela polícia aos 16 anos. Neste momento, ela está grávida daquela que será sua terceira filha, ao mesmo tempo que se preocupa com o filho sobrevivente, temendo que tenha a sorte do outro.
Fica claro que o cineasta é da família da personagem e esta intimidade é aproveitada positivamente para resgatar as emoções da mãe, para usar fotos dos irmãos que cresceram juntos e também retratar a esperança representada pelo nascimento de outra criança. Uma pequena crônica da vida familiar na periferia de São Paulo, filmada em Itaquaquecetuba, cidade a cerca de 50 km da capital.
O outro curta foi o paraibano Animais na Pista, de Otto Cabral. Estruturado para dar a impressão de um longo plano-sequência, o filme cria um cenário de pesadelo ao deter-se nos detalhes e nos personagens envolvidos num acidente de trânsito na estrada e algumas de suas consequências. Um belo trabalho da fotografia de Rodolpho de Barros e da montagem de Ely Marques.
Os curtas e o longa gaúcho são disponibilizados pela plataforma Globoplay durante o festival (até 21/8).
