05/06/2026

Amor canibal e periferia francesa em chamas são destaques em Veneza

Veneza - No terceiro dia da competição em Veneza, todas as atenções se voltaram para Bones And All, o novo filme do italiano Luca Guadagnino com personagens canibais, adaptando romance de Camille De Angelis. Dito assim, parece mais bizarro do que é - embora, evidentemente, não deixe de conter cenas chocantes. O diretor de Me Chame pelo Seu Nome chamou de novo seu ator, Timothée Chalamet, para viver um dos canibais, o jovem Lee. A protagonista é Maren (Taylor Russell), jovem abandonada pelo pai aos 18 anos, devido a um histórico de incidentes sangrentos, envolvendo a menina e também sua mãe, que há anos está desaparecida.

Entregues à própria sorte, Maren e Lee acabam se encontrando, literalmente, farejando um ao outro - quem come carne humana teria esse dom, como Maren aprendeu ao longo da estrada, depois do encontro com um homem um tanto exótico, Sully (Mark Rylance).

Estabelecido este cenário, nos EUA dos anos 1980, de Ronald Reagan, a história estabelece conexões com famílias desestruturadas, jovens à procura de rumo e também com uma relativa busca de justiça social. Afinal, quando busca uma nova vítima, Lee sempre procura identificar pessoas de algum modo más ou injustas. Mas seu compasso, certamente, não é infalível, sublinhando a tragédia de sua condição.

Trilhando assim forte na esfera do horror, com cenas bem gráficas, Bones and All acena com um comentário sobre a disfuncionalidade, que assume várias faces ao longo das épocas - e a nossa não está fora desse esquadro.Fora isso, Guadagnino retrata seu casal de jovens protagonistas com inescondível empatia humana, ainda que não seja um apoio aos seus ataques. Mas, como os vampiros, eles não podem escapar à natureza que herdaram de seus pais. Entre estes dois deserdados solitários, forma-se um vínculo, um romance. Torto, pode ser, mas não por conta do amor, deste amor marcado pelo doentio. Enfim, não foi fácil ver o filme logo cedo de manhã, como foi o caso da primeira sessão de imprensa por aqui, às 8h30 da manhã.

DR dos Tolstoi

Numa chave inteiramente distinta, o consagrado documentarista norte-americano Frederick Wiseman, 92 anos, mostrou aqui seu primeiro filme de ficção, Un Couple, filmado na França durante a pandemia e falado inteiramente em francês. Para quem conhece a vasta obra de Wiseman, um preciso investigador dos bastidores de instituições, de hospícios à Ópera de Paris, foi um choque descobri-lo como autor de um verdadeiro teatro filmado, cujo estilo lembra alguns filmes do veterano Manoel de Oliveira.

Contando com a presença única da atriz Nathalie Boutefeu,Wiseman explora os bastidores do tumultuado casamento de Sofia e Leon Tolstoi, dando voz à mulher sobre os extremos da paixão e os reiterados abusos do temperamental escritor através das cartas de Sofia. O cenário é um belíssimo jardim, Boulaye, em que a atriz, interpretando Sofia, desfia longos monólogos, fazendo seu discurso diretamente para a câmera. Torna-nos, assim, os habitantes do outro lado de um confessionário, compartilhando os altos e baixos de emoções tempestuosas e evidenciando questões de gênero da maneira como podiam ou não expressar-se no século XIX. Sofia Tolstoi é uma voz do passado mas, em certos momentos, nos soa estranhamente atual..

Periferias em fogo
Filho de Costa-Gavras, Romain Gavras mostra, em seu terceiro longa, Athena, mais uma vez sua diferença do estilo do pai, afirmando seu gosto por ação e adrenalina, embora aqui não falte uma preocupação sócio-política. O nome do filme remete a uma das explosivas periferias francesas, que está em polvorosa após a morte de um menino, Idir, supostamente vítima da violência policial que aflige preferencialmente os jovens de origem árabe que ali vivem.

Assinado pelo próprio Gavras, ao lado de Elias Belkeddar e Ladj Ly (o premiado diretor de Os Miseráveis), o roteiro situa o início de uma rebelião popular em Athena, conduzida pelos jovens, quando a polícia reluta em identificar os agentes que teriam matado o menino. A sequência inicial, que mostra estes jovens, liderados por Karim (Sami Slimane), um dos irmãos do morto, é simplesmente alucinante, acompanhando seu ataque a uma delegacia, roubando carros e armas e levando tudo isso para Athena, onde eles formarão barricadas para resistir ao inevitável ataque da polícia.

Na espinha dorsal da história, está justamente este clã de irmãos que inclui, além de Karim, também Abdel (Dali Benssalah), rejeitado na comunidade por ter-se tornado militar, e Moktar (Ouassini Embarek), o traficante do pedaço. É através deles que se toma o pulso da rebelião, combatida por policiais fortemente armados, dentre os quais se distinguirá Jérôme (Anthony Bajon) - alguém que cai no olho do furacão despreparado e se torna alvo de uma tensa negociação.

Gavras imprime ao seu filme um sentido de urgência muito palpável, que tem visível intenção de denúncia da marginalização imposta aos franceses de origem árabe, tratados como cidadãos de segunda classe e alvos preferenciais da violência policial.

Mas não deixa de abrir uma brecha para discutir também o perigo dos julgamentos apressados e insere a ameaça da extrema-direita - talvez devesse até ter explorado um pouco mais este aspecto, já que os franceses de origem árabe são implacavelmente perseguidos pelos eleitores de Marine Le Pen e assemelhados, que defendem uma xenófoba “França para os franceses”, como se os netos de argelinos, por exemplo, não fossem franceses.