"Bardo", de Iñarritu, é um filme barroco e de intensa beleza visual
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 01/09/2022
- Tempo de leitura 4 minutos
Veneza - No segundo dia do festival, a competição vai esquentando com títulos que trazem diretores e atores prestigiados - como o drama biográfico Tár, do norte-americano Todd Field, que foi feito sob medida para sua protagonista e produtora, Cate Blanchett, encarnando uma maestrina, Lydia Tár, que foi a primeira mulher a comandar uma grande orquestra, a de Berlim. E também foi o caso de Bardo, Falsa Crónica de Unas Quantas Verdades (foto), do mexicano Alejandro González Inãrritu, um dos raríssimos títulos latino-americanos desta seleção.
Tár é um filme denso, desses que mergulha num universo bem específico, o da música clássica, recorrendo a uma profusão de nomes que pode intimidar quem não seja muito afeito a essa área. O filme é minucioso, embora um tanto longo, debruçando-se sobre questões candentes em torno dessa maestrina, que foi pianista e galgou degrau a degrau a sua ascensão a um posto que, por séculos, foi negado às mulheres. Aparecem, portanto, questões de gênero, sexualidade (a maestrina é lésbica) e cultura corporativa no mundo das altas artes, que dependem de financiadores
Na pele de uma mulher que tem suas arestas,
Cate Blanchett brilha no esmero de suas nuances, não temendo expor seu temperamento dominador e sua capacidade de seduzir - que, finalmente, se torna seu calcanhar de Aquiles para tornar-se alvo de maquinações e bullying virtual, esta uma área que ela absolutamente desconhece.
Cate Blanchett brilha no esmero de suas nuances, não temendo expor seu temperamento dominador e sua capacidade de seduzir - que, finalmente, se torna seu calcanhar de Aquiles para tornar-se alvo de maquinações e bullying virtual, esta uma área que ela absolutamente desconhece.
Compondo sua personagem na medida precisa da humanidade, Cate consegue que ela não se torne antipática a nossos olhos, ainda que não esconda suas manobras e dos aspectos mais negativos de seu caráter, como seu autocentrismo e aridez afetiva. Além disso, é visível o empenho da atriz australiana para executar os movimentos da maestrina com a orquestra, tocar piano e também falar alemão em várias cenas. Cate mergulhou na persona que interpreta, um caso singular de ascensão e queda que tem muito material para magnetizar qualquer atriz. O filme, no entanto, é um bocado árido, embora bastante preciso no retrato de seu ambiente.
Bardo
Com este filme barroco e grandiloquente, o mexicano Iñárritu volta à direção depois de 7 anos - o último foi O Regresso, pelo qual venceu o segundo Oscar como diretor. Em Bardo, Falsa Crónica de Unas Quantas Verdades, realiza um filme ambicioso, em que se nota um fio autobiográfico no protagonista, Silverio Gama (Daniel Giménez Cacho), que logo se apaga nos desdobramentos do roteiro, assinado pelo diretor e Nicolás Giacobone (que dividiu com ele os créditos de Birdman, 2014).
Jornalista e documentarista mexicano, Gama volta ao seu país natal para receber um prêmio. A viagem desencadeia uma série de reencontros e reativa lembranças que colocam em xeque a identidade e as certezas de Silverio Essa jornada é filmada da maneira mais ambiciosa, em 65 mm, com direção de fotografia do premiado Darius Khonji, revelando-se em sequências de imensa beleza: como a abertura, que mostra uma sombra voando no deserto; os imigrantes em busca de uma aparição da Virgem Maria; um vagão de metrô invadido pela água; uma montanha de indígenas mortos, remetendo ao genocídio da colonização; e uma engenhosa forma de retratar os desaparecidos, um fenômeno persistente, marca da força do crime organizado no México.
Por esse engenho e ambição, nota-se que Bardo… está para Iñárritu assim como A Doce Vida ou 8 1/2 estavam para Federico Fellini.
Ou seja, uma imensa declaração de amor ao cinema passando pelo crivo pessoal, deixando para trás qualquer necessidade de afirmação ou de conquista, como o diretor mexicano já obteve de Hollywood. Ele não precisa provar mais nada a ninguém, então pode-se dar ao luxo de inserir na história de Bardo… - que é o nome de um lugar - a responsabilidade dos EUA em boa parte dos problemas do México. Este aspecto é ilustrado numa cena em que o jornalista conversa com um embaixador norte-americano, não se esquecendo de mencionar lembrar que a chamada Guerra Mexicano-Americana, de 1846/1848, foi, na verdade, uma invasão, que custou ao México metade de seu território. O filme é da Netflix e tem data de lançamento estimada para 16 de dezembro.
Ou seja, uma imensa declaração de amor ao cinema passando pelo crivo pessoal, deixando para trás qualquer necessidade de afirmação ou de conquista, como o diretor mexicano já obteve de Hollywood. Ele não precisa provar mais nada a ninguém, então pode-se dar ao luxo de inserir na história de Bardo… - que é o nome de um lugar - a responsabilidade dos EUA em boa parte dos problemas do México. Este aspecto é ilustrado numa cena em que o jornalista conversa com um embaixador norte-americano, não se esquecendo de mencionar lembrar que a chamada Guerra Mexicano-Americana, de 1846/1848, foi, na verdade, uma invasão, que custou ao México metade de seu território. O filme é da Netflix e tem data de lançamento estimada para 16 de dezembro.
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