05/06/2026

Veneza dá a largada na inquietação com Baumbach e Cousins


Veneza - Afinal, White Noise mostrou-se um filme um tanto desconcertante para uma abertura de festival - a não ser que a ideia seja dar uma sacudida logo de cara. A obra do norte-americano Noah Baumbach, que adapta o livro homônimo de Don DeLillo de 1985, descarrega nos espectadores, desde a primeira cena, uma tempestade verborrágica cortante. É preciso logo se ligar para procurar entender o que está acontecendo, e os acontecimentos flertam com o caos.

Professor universitário especializado em estudos sobre Hitler, Jack (Adam Driver) tem sua vida ancorada pelo trabalho bem-sucedido e por um casamento aparentemente bem-resolvido com Babette (Greta Gerwig), em que os dois juntaram filhos de casamentos anteriores e tiveram mais um, Wilder, ainda bem pequeno.

Desse núcleo inicial tira=se o rastilho de pólvora que arrasta uma pequena comunidade autocentrada e que resume, de várias maneiras, os EUA de 40 anos atrás, que tem tantas semelhanças com o de hoje. A aparente tranquilidade será abalada pela explosão de um caminhão, que espalha uma nuvem tóxica em toda região.

A catástrofe põe em fuga todas as famílias, numa sequência de situações que providenciam um gatilho a um maiores medos deste casal, o medo da morte. Um jura ao outro que quer morrer antes para não experienciar a solidão desta perda. Aparentemente comum, este temor leva a que os dois, especialmente Babette, procurem remédios para esta dor, simbolizando a procura obsessiva de nossa sociedade de buscar soluções químicas até para algumas das questões fundadoras da condição humana - como a consciência da mortalidade.

Tratando de coisas sérias, o filme cria um escape irônico no tom bizarro que recobre as situações, personalidades e manias do casal e seus filhos, particularmente os adolescentes Denise (Raffy Cassidy), obcecada por remédios, especialmente os que toma sua mãe, e Heinrich (Sam Nivola), um nerd que parece sempre saber tudo. A outra menina, Steffie (May Nivola), vive apavorada no meio de tudo isso.

Diante de uma história assim, era de se esperar um final talvez trágico. Sem querer dar spoiler, o final não alivia as questões que o filme discute, evidentemente, mas remete à ideia de que, apesar de tudo, a humanidade chegou até aqui - então, alguma alegria é possível, com uma contagiante coreografia.

Fascismo ontem e hoje
Abrindo a seção paralela Giornate degli Autori, foi exibido o documentário Marcia su Roma, do cineasta irlandês Mark Cousins, um dos Eventos Especiais da programação. Contando com a assessoria do pesquisador italiano Tony Saccucci, Cousins mergulha nos bastidores de A Noi, de Umberto Paradisi (1922), expondo a manipulação de imagens daquele filme, que foi ferramenta essencial à transformação da tristemente famosa Marcha sobre Roma de 1922 no rastilho inicial do fascismo de Benito Mussolini.

Mas não é somente disso que Cousins quer falar. A ambição desta obra magnífica é justamente expor os mecanismos pelos quais o fascismo se reinventa e se repete em outras épocas e lugares, como a nossa - e não é nenhum acaso que o filme comece com uma imagem de Donald Trump, respondendo a perguntas sobre suas razões de ter citado uma frase de Mussolini em seu twitter, frase essa repetida em outra ocasião pelo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, mencionado no filme, assim como Marine Le Pen e Giorgia Meloni, do partido ultradireitista Fratelli di Itália, esta última apontada como possivel nova primeira-ministra italiana, após as próximas eleições legislativas, em 25 de setembro.

Profundo conhecedor da história do cinema, como demonstrou em alentados documentários como The Story of Film: A New Generation (2021), exibido no Festival È Tudo Verdade, Cousins também menciona, na porção final, alguns dos títulos mais sublimes que foram realizados na mesma época em que A Noi, obras de Charles Chaplin r Carl Theodor Dreyer, entre outros. Cousins demonstra, mais uma vez, o quanto é capaz de estabelecer um diálogo criativo e emotivo com sua plateia, inserindo uma participação da atriz italiana Alba Rohrwacher, representando uma mulher comum da época do fascismo italiano que se viu desiludida e perseguida à medida que foi deixando de apoiá-lo. Nunca será demais lembrar, como o faz Marcia su Roma, o quanto a violência represetna a natureza profunda do fascismo, onde quer que ele se manifeste. Um filme, enfim, profundamente significativo para os brasileiros neste momento.