Veneza à espera da premiação
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 10/09/2022
- Tempo de leitura 4 minutos
Veneza - Sábado é dia de apostas, à espera das premiações do 79º Festival de Veneza, que serão anunciadas na noite deste sábado (10). No balanço, nenhum grande choque ou unanimidade, mas bons filmes não faltaram, mesmo que tenha parecido excessiva e patrioteira a presença de quatro concorrentes italianos - pelo menos dois deles, Chiara, de Susanna Nicchiarelli, e Monica, de Andrea Pallaoro, ficariam melhor fora de competição ou numa seção paralela.
É sempre arriscado imaginar o que vai pela cabeça do júri - este ano, presidido pela atriz norte-americana Julianne Moore - , mas, mesmo assim, vou cravar aquji minhas apostas e preferências:
Leão de Ouro - Bardo, ou Falsa Crónica de unas Cuantas Verdades, de Alejandro González Iñárritu (foto ao lado): um filme intenso, de grande beleza visual, marca registrada do premiado diretor mexicano, que concorre ao Leão pela terceira vez; The Banshees of Inisherin, do inglês Martin McDonagh, uma saborosa comédia dramática de humor negro; entre os italianos, o melhor colocado é L’Immensità, de Emanuele Crialese, um drama familiar que se revelou autobiográfico (o diretor fez transição de sexo há anos e isso não era sabido); e, correndo por fora, o nipo-francês Love Life, de Koji Fukada, uma crônica sutil sobre família e casamento, e o francês Saint Omer, em que a documentarista Alice Diop parte para a ficção com um drama que explora os limites da identidade feminina do ponto de vista dos imigrantes na França.
Melhor direção - Gianni Amelio (Il Signore delle Formiche); Santiago Mitre (Argentina, 1985), Martin McDonagh (The Banshees of Inisherin) ou Emanuele Crialese (L’Immensità). Correndo bem por fora, o francês Romain Gavras e seu contundente, mas irregular, Athena.
Grande Prêmio do Júri: se não levarem o prêmio máximo, fortes candidatos são Love Life, de Koji Fukada e Saint Omer, de Alice Diop.
Especial do Júri: este cairia muito bem ao iraniano Khers Nist/No Bears, de Jafar Panahi, um primor de contundência e criatividade de um diretor perseguido.
Roteiro: Argentina, 1985; Il Signore delle Formiche; e os franceses Les Miens, de Roschdy Zem, ou Les Enfants des Autres, de Rebecca Zlotowski, ambos crônicas nuançadas sobre família, maternidade e relacionamentos.
Copa Volpi - melhor ator: a se acreditar no público, parece barbada para Brendan Fraser, por The Whale, mas há concorrentes à altura em Ricardo Darín, por Argentina, 1985, Luigi Lo Cascio, em Il Signore delle Formiche, a dupla Brendan Gleeson e Colin Farrell (The Banshees of Inisherin),. Quem sabe até Hugh Jackman, no drama The Son, de Florian Zeller.
Copa Volpi - melhor atriz: Cate Blanchett começou favorita e favorita ficou pelo impecável trabalho de composição da protagonista de Tár, de Todd Field, na pele de uma maestrina de caráter dominador e polêmico. Mas correm por fora Penélope Cruz - premiada aqui no ano passado por Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar -, pela mãe atormentada de L’Immensità; Ana de Armas, como a Marilyn Monroe de Blonde, de Andrew Dominik, ou ainda, Tilda Swinton, num duplo papel em The Eternal Daughter, de Joanna Hogg.
Prêmio Marcello Mastroianni (revelação): este parece ter destino certo para um intérprete italiano, seja Luana Giuliani, em seu difícil papel da menina que quer ser menino de L’Immensitá, ou Leonardo Maltese, o jovem de Il Signore delle Formiche. Correndo por fora, Zen McGrath, o adolescente depressivo de The Son.
A turma da zebra
Surpresa seria se levassem prêmios os concorrentes White Noise, de Noah Baumbach, que abriu o festival mas não agradou a muitos, ou Bones and All, de Luca Guadagnino - que, apesar do diretor italiano, é uma produção norte-americana e pareceu ter comparecido na seleção para ocupar a vaga de escândalo do ano, por sua temática de romance canibal.
Único documentário da seleção, o ótimo All the beauty and the bloodshed, perfil da ativista Nan Goldin assinado por Laura Poitras, é pleno de qualidades, mas é difícil crer que leve premiações com este perfil de festival. Da mesma forma, o drama The Son, de Florian Zeller, é bom, mas a sensação é de que ficou bem abaixo de seu premiado filme anterior, Meu Pai.
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