05/06/2026

Veneza parou para ver a Marilyn da Ana de Armas

Veneza - Um dos filmes mais esperados desta seleção,o drama Blonde, do diretor neozelandês Andrew Dominik, chegou a Veneza nesta manhã de quinta (8) dividindo opiniões. Nada de se estranhar, em se tratando de mais uma mergulho radical no mito Marilyn Monroe, interpretada com brio pela cubana Ana de Armas, com roteiro baseado no livro da escritora Joyce Carol Oates.

A atriz será provavelmente o aspecto menos contestado do filme, já que sua interpretação serve a contento à disposição de explorar a construção e, sobretudo, a destruição do mito, ou melhor, o esfacelamento de Norma Jeane Baker, a pessoa, pelas exigências impostas à estrela Marilyn Monroe.

O filme de Dominik é eficaz na construção da personagem, em sua imensa fragilidade emocional, a partir de uma infância infeliz, abandonada pelo pai e logo deixada também pela mãe instável (Julianne Nicholson), internada num sanatório. Dessa personalidade insegura, forjou-se a imagem da mulher mais sexy do planeta, abusada em seu corpo e alma por produtores, maridos e amantes, que não consegue romper esse círculo em que o sucesso a aprisiona. Ela se torna vítima de um processo em que satisfaz às fantasias de todos mas sem conseguir, ela mesma, corresponder às suas emoções.

A fotografia de Chayse Irvin cria sequências de grande impacto e beleza em cenas oníricas, que traduzem os sonhos e fantasias mais profundos de Marilyn - como as estradas em fogo na primeira fuga da pequena Norma e sua mãe. Procura-se uma certa fidelidade nas reencenações de capítulos capitais da vida de Marilyn, como alguns filmes - Quanto Mais Quente Melhor e Os Homens Preferem as Loiras, entre outros - suas relações amorosas com Charlie Chaplin Jr. (Xavier Samuel), Edward G. Robinson Jr. (Evan Williams), Joe Di Maggio (Bobby Cannavale), Arthur Miller (Adrien Brody) e o presidente John Kennedy (Caspar Philipson).

Essa correspondência com episódios biográficos remete à história da personagem mas procura, mais do que tudo, diluir a aura dourada em torno dela - o que, convenhamos, não é novidade, mas em geral não é feito de uma forma tão determinada quanto no filme de Dominik, que evoca a grande tristeza da belíssima atriz de maneira ampla e respeitosa, mas com alguns excessos - como a insistência em imagens dos fetos das gravidezes inconclusas da atriz.

Com uma figura bem mais miúda do que a personagem real, Ana de Armas corresponde-lhe perfeitamente, especialmente no rosto, traduzindo aquela sua indizível mistura de sensualidade e fragilidade infantil. Ela chegou a ter um coach de voz para assumir um tom mais suave, como Marilyn, e, como ela mesmo disse, “não quis me proteger, quis experienciar tudo”, referindo-se à maneira como mergulhou na sofrida trajetória de sua personagem. Por isso, ela carrega Marilyn com muita verdade e não será surpresa se for lembrada em premiações, aqui em Veneza ou outras, como o Oscar.

Huis clos iraniano
Um dos temas deste festival, a violência de Estado, ressurgiu no primeiro concorrente iraniano, Shad, Dakheli, Divar (Beyond the Wall), de Vahid Jalilvand (premiado na mostra Horizontes 2017 com o drama Sem Data, Sem Assinatura). Com uma narrativa claustrofóbica, que se volta sobre si mesma, a história focaliza o drama de Ali (Navid Mohammadzadeh), um homem que está ficando cego e fica restrito ao seu apartamento, e que esconde uma fugitiva da polícia, Leila (Diana Habib) que se refugiou no seu prédio.

É o tipo de filme do qual se deve duvidar dos próprios olhos e prestar atenção aos detalhes, numa história de conteúdo bastante melodramático e que aposta na circularidade à medida que esclarece a verdadeira natureza dos acontecimentos externos que ligam os dois personagens e explicam suas reações. O realismo é só um recurso e refere-se aos flashbacks.

Ainda que na coletiva do filme, nesta manhã de quinta (8), o diretor tenha evitado fazer declarações políticas - o que não é de se estranhar, vindo de um país que recentemente aprisionou cineastas premiados, como Mohamed Rasoulof
e Jafar Panahi -, o filme mostra claramente um episódio de violência policial desencadeado pelo protesto de operários contra a falta de pagamento há 4 meses. Há algo de podre na realidade iraniana e seus cineastas vêm correndo riscos para expor suas contradições na tela. Nesta sexta (9), aliás, será exibido em competição o novo filme de Jafar Panahi, Khers Nist (No Bears).