21/07/2026

As mães e os pais do mundo passam por Veneza

Veneza - Neste festival, mais do que nunca, o Lido, sede do evento, tem sido uma ilha do cinema profundamente conectada com os papeis maternos e paternos, explodindo em caleidoscópicas crises em filmes como o francês Saint Omer, de Alice Diop, e a coprodução EUA/Inglaterra/França The Son, de Florian Zeller.

Documentarista premiada - com o filme Nous, na seção Encontros do Festival de Berlim 2021 -, a diretora francesa de origem senegalesa Alice Diop condensa em Saint Omer, sua estreia na ficção, várias camadas de discussão da figura feminina, filtrada pelas vertentes da maternidade e da imigração. A história, aliás, baseia-se em fatos reais.

Sua protagonista é Rama (Kayije Kagame), uma escritora que começa a acompanhar o julgamento de Laurence Coly (Guslagie Malanga), uma jovem senegalesa acusada de ter assassinado a própria filha, de 15 meses. Rama pensa em escrever um relato traçando um paralelo com a tragédia grega de Medéia, mas o que encontra nos depoimentos de Laurence é uma realidade que põe em foco a invisibilidade de imigrantes como ela, que era uma estudante universitária.

A superposição de relatos permite atravessar as primeiras impressões sobre este crime hediondo - cuja autoria a moça não nega -, dissecando uma sociedade que, apesar das instituições republicanas, como a justiça, permite o apagamento cotidiano dos direitos de uma parte de seus habitantes, como os imigrantes.

Rama fica profundamente impressionada com o processo também porque está grávida de quatro meses e os depoimentos reacendem seus sentimentos em relação à própria mãe, com quem mantém um relacionamento conturbado.

Em relação à encenação, Alice Diop, co-autora do roteiro ao lado da escritora e dramaturga Marie N’Diaye, recorre a uma câmera bastante fixa - na primeira metade do filme, praticamente imóvel, focalizando as considerações iniciais da juíza e o depoimento da ré. Uma escolha que remete às origens da diretora como documentarista, mas que não se furta, depois, de recorrer a sequências oníricas. Mas é claro que Alice Diop optou pela sobriedade e insere uma nota contundente em mais esta reflexão sobre como a França não é ainda a terra da liberdade, igualdade e fraternidade para seus cidadãos de origem africana - como fez outro concorrente ao Leão, Athena, de Romain Gavras.

Pai em crise
Diretor do premiado Meu Pai, que lhe deu o Oscar de roteiro adaptado, o francês Florian Zeller trouxe em The Son um drama sobre os dilemas de um pai, Peter (Hugh Jackman), diante da depressão severa que afeta seu filho adolescente de um primeiro casamento, Nicholas (o novato australiano Zen McGrath).

Casado pela segunda vez com Beth (Vanessa Kirby) e pai de um bebê, Peter é tragado de volta ao contato com a ex-mulher, Kate (Laura Dern), que não consegue lidar com Nicholas. Este manifesta o desejo de viver com o pai e a madrasta, uma convivência que dispara várias situações de conflito.

Jackman compõe um homem empenhado em encarar a culpa de haver deixado a ex e o filho, entrando em contato ele mesmo com o modelo negativo de paternidade que recebeu - o de seu próprio pai (Anthony Hopkins), com quem mantém um diálogo tenso e revelador.

Zeller é dramaturgo e, mais uma vez, como em Meu Pai, parte de uma peça teatral sua e conta com a parceria de Christopher Hampton para este roteiro. Assina, assim, um filme que escava fundo nas emoções familiares e comoveu boa parte da plateia que o assistia na manhã desta quarta (7), de jornalistas e profissionais da indústria do cinema.