05/06/2026

O libelo antiintolerância de Amelio e os fantasmas de Tilda Swinton

Veneza - O Festival de Veneza acordou em seu sétimo dia (6) com um libelo contra a homofobia, com o concorrente italiano Il Signore delle Formiche, em que o veterano Gianni Amelio revisita a história verídica do professor Aldo Barbanti (Luigi Lo Cascio).

Verdadeiro homem do Renascimento, com uma curiosidade intelectual espalhada por várias áreas, o professor é um mirmecólogo (especializado em formigas) e filósofo, mas também interessado nas artes, reunindo em torno de si vários jovens em sua Torre, um centro cultural na Emilia Romagna, nos anos 1960. Era marxista, havia sido partigiano (membro da Resistência italiana antinazista)na II Guerra e era também homossexual - o que, na época, era alvo de preconceito inclusive nos meios esquerdistas.

Por conta de seu envolvimento com um aluno, Ettore (o estreante Leonardo Maltese), Barbanti será alvo de um processo, baseado numa lei fascista nunca antes aplicada e que se referia a um hipotético crime de subjugamento moral - já que Miussolini, como lembra o jornalista Ennio Barbanti (Elio Germano), se não aprovou uma lei específica anti-homossexualidade, criou uma legislação, de todo modo, vaga o bastante para enquadrar qualquer um que se desviasse dos padrões estabelecidos.

Com um andamento clássico, o filme de Amelio - já vencedor de um Leão de Ouro em 1998 pelo drama Assim Eles Riam - aperta seus botões emocionais, delineando com clareza a figura altiva do professor, interpretado com brio pelo experiente Luigi Lo Cascio, traduzindo uma individualidade que não se verga às conveniências do momento e desafia um sistema judicial que tomou suas posições a priori contra ele, comprometendo toda a ideia de justiça.

O personagem de Ettore permite ao filme discutir igualmente outra aberração, a violência do sistema de tratamento psiquiátrico de então, que se valia do da internação e do uso dos eletrochoques para tentar “curar” a homossexualidade, como se doença fosse.

Pela clareza e emotividade de sua linguagem, o filme de Amelio tem potencial para comunicar-se com grandes plateias, rompendo a bolha dos já convencidos da normalidade da homossexualidade e podendo chegar, quem sabe, àqueles que ainda alimentam preconceitos a respeito.

A figura do jornalista, interpretada com notável contenção pelo também veterano Elio Germano, é outra face iluminada deste filme, já que é através do personagem que se abre uma camada para discutir o papel do próprio jornalismo na difusão e manutenção dos preconceitos. Não falta, igualmente, uma saudável crítica da própria esquerda, neste caso, do Partido Comunista Italiano e do jornal L’Unità, que na época não foram veementes quanto deveriam na defesa de um dos seus.

Fantasmas de Tilda
Tilda Swinton é uma atriz tão versátil e dotada que, quando ela entra num filme, já existe um fortíssimo componente a seu favor. Imagine-se, então, Tilda interpretando um duplo papel, como uma velha mãe e sua filha, no drama The Eternal Daughter, da diretora inglesa Joanna Hogg - um filme que tem a produção executiva de ninguém menos do que Martin Scorsese.

Que não se roube a quem for assistir o prazer da descoberta do que está realmente por trás desta viagem de mãe e filha à antiga casa da família da velha senhora, agora um hotel, em que elas são as únicas hóspedes. Um clima de estranheza, medo e tensão se instala à medida que a filha, Julie, uma cineasta, conversa com a mãe, Rose, explorando suas memórias de um passado vivido ali, na enorme mansão, eternamente cercada de uma névoa, que se adensa muito à noite, assim como os barulhos nos quartos vazios - ou nem tanto.

O jogo do filme é claramente psicológico, visando as sensações do espectador, apostando fortemente nos recursos que o cinema oferece - luzes, sombras, ruídos, aparições de personagens inesperados. Tudo isso sob o olhar de Tilda, emprestando, mais uma vez, seu corpo camaleônico a duas personagens que se desdobram na tela e são, de várias maneiras, um espelho uma da outra, um detalhe da história que ter a mesma atriz nos dois papeis claramente sublinha.

Sutil como é, o filme é uma grata surpresa na seleção, uma obra que revela os recursos de uma diretora que no Brasil conhecemos bem pouco. Na coletiva de imprensa, Joanna Hogg contou que sua primeira intenção foi escrever uma história de fantasmas. Mas, afinal, o resultado também lhe saiu autobiográfico, mergulhando em sua relação com a própria mãe. O mais surpreendente é que não havia um roteiro fechado. A diretora e Tilda foram construindo aos poucos os eventos do relacionamento das duas personagens, com a atriz entrando também com suas próprias vivências como mãe. Não houve truques técnicos para colocar Tilda contracenando consigo mesma. As cenas foram gravadas plano a plano, com Joanna Hogg lendo o outro papel para Tilda e filmando apenas a atuação dela.