05/06/2026

Dia de crises na família e na masculinidade

Veneza - Se o domingo foi o dia das mulheres, segunda (5) começou como o dia dos homens, trazendo filmes com atuações masculinas marcantes - oferecendo concorrência ao favoritismo do argentino Ricardo Darín, o firme e discreto promotor do drama Argentina, 1985, de Santiago Mitre.

Mais uma vez, o diretor e roteirista inglês, Martin Donagh, constroi uma história bem-amarrada e precisa, com toques de drama e humor negro, em seu The Banshees of Inisherin (numa liberalíssima tradução, “os espíritos de Inisherin”). O lugar é uma ilhota irlandesa, habituada por pouquíssimas pessoas e onde todos se conhecem. A crise é desatada pela separação de dois amigos que nunca se largavam, Padraic (Colin Farrell) e Colin (Brendan Gleeson) - estes, atores irlandeses habituais dos filmes de McDonagh, ambos em Na Mira do Chefe (2008) e Farrell, em Sete Psicopatas e um Shitzu (2017).


Fiel ao seu estilo, McDonagh assina um roteiro afiado, acompanhando a intensa crise pessoal em que mergulha Padraic, rejeitado, sem razão, do dia para a noite, pelo amigo com quem compartilhava diariamente um trago no único pub local.

McDonagh é preciso ao delinear a psicologia deste pequeno lugar, habitado por pessoas simples à primeira vista, mas altamente complexas quando colocadas sob uma lente de aumento. Neste universo provinciano, contaminado por uma testosterona que determina comportamentos atávicos, uma das poucas vozes femininas é a de Siobhan (Kerry Condon), a irmã de Padraic, que tenta inutilmente levar o irmão a alguma racionalidade na condução do desentendimento com o velho amigo - cara teimoso, osso duro de roer.

Filmado em belíssimas paisagens na Irlanda, o filme é um encantamento também para os olhos, na fotografia de Ben Davis, que pontua esta geografia do isolamento, e também na sutil e densa trilha musical de Carter Burwell (autor da trilha do filme mais famoso de McDonagh, indicado ao Oscar, Três Anúncios para um Crime). Uma surpresa é que uma melodia, tocada no filme ao violino por Gleeson, é de sua autoria. O ator, aliás, é um exímio tocador de violino, como foi mencionado na coletiva de imprensa de hoje pelo diretor Martin McDonagh

Tudo somado, Farrell e Gleeson ocupam com talento seus personagens, dois simplórios movidos por motivações aparentemente banais, mas em cuja trajetória algumas das mais irresolvíveis questões da vida e da morte se encontram. E há um momento em que, neste duelo sem revólveres, torna-se muito tarde para voltar atrás.

Um conto japonês
Dentro desta atmosfera de filmes conturbados, a maneira como o concorrente nipo-francês ao Leão,
Love Life, de Koji Fukada, encenou seus conflitos amorosos e familiares surpreendeu pelo engenho e sutileza - o filme poderia, inclusive, ser uma surpresa nas premiações, se o júri, presidido pela atriz Julianne Moore, se dividir muito entre os concorrentes.


No roteiro, também assinado por Fukada, o núcleo é o casal Taeko (Fumino Mikura) e Jiro (Kento Nakayama), que criam juntos o filho que a moça teve no primeiro casamento, Keita. A harmonia do casal é perturbada por um trágico acidente, que traz de volta à vida de Taeko seu ex-marido, o coreano Park (Atom Sunada), um homem surdo-mudo.

Não há, a rigor, nenhuma situação profundamente original na trajetória destas pessoas. O que chama a atenção é o engenho e o controle com que o diretor vai entremeando suas reações ao que lhes acontece e também a outras pessoas - como os pais de Jiro, seus colegas de trabalho e outros. Dessa forma, se vai saindo de dentro das paredes destes pequenos apartamentos para a grande vida, a grande sociedade - sem esquecer de abordar a dramática questão dos sem-teto, um problema irresolvido mesmo num país altamente desenvolvido, como o Japão. Esta é uma das muitas camadas de um filme que cresce na percepção do espectador de uma forma extraordinária à medida em que se pensa nele.