05/06/2026

Mulheres em foco e o homem-baleia

Veneza – O domingão em Veneza trouxe ventos femininos e até uma promessa de Oscar nos três concorrentes ao Leão
de Ouro apresentados ontem (3) e hoje (4).

A atriz espanhola Penélope Cruz, premiada em 2021 com a Copa Volpi de melhor atriz por aqui pelo drama Mães Paralelas, de Pedro Almodóvar, entregou mais uma vez uma interpretação envolvente, à frente do elenco do drama L’Immensità, do diretor italiano Emanuele Crialese. Falando italiano, a estrela interpreta Clara, uma sofrida dona de casa dos anos 1970, oprimida pelo marido, Felice (Vincenzo Amato), num casamento com três filhos, que ela não consegue romper e está lhe roubando toda a energia de viver.

O traço mais pungente deste drama familiar está na relação especial formada entre esta mãe e a filha mais velha, Adriana (Luana Giuliani) – mas que prefere ser chamada de Andrea e literalmente reza aos céus para transformar-se em menino. Histórias que abordam a inadequação sexual em idade tão precoce (a menina tem 12 anos) são delicadas, mas Crialese sai-se muito bem, construindo com complexidade seus personagens, numa chave que o aproxima de outro exemplo bem-sucedido neste campo, Tomboy, de Céline Sciamma. Na preparação do filme, o diretor até pretendeu escalar um adolescente trans, recorrendo a Camilla Vivian, do blog Mio Figlio em Rosa e autora do livro Gender Libera Tutte, mas acabou desistindo, entregando o papel à menina, estreante.

Sem limitar-se à questão da sexualidade da menina, o filme é, acima de tudo, um retrato qualificado das opressões da família, em sua imposição de papeis que resistem a mudar, além de inserir a intolerância sócio-racial – esta, traduzida no princípio de romance que se estabelece entre Adri/Andrea e Sara, garota de uma vizinha comunidade de trabalhadores ciganos.

Diretor de filmes como Respiro, Novo Mundo e Terraferma, Crialese é um dos mais respeitados diretores do cinema italiano atual e aqui dá conta de um primoroso retrato de época, com requintes visuais – como nos engenhosos números musicais através dos quais Adri/Andrea transpõe suas fantasias.

Mãe substituta
Numa outra chave, igualmente intimista, Virginie Efira interpreta Rachel, a protagonista do delicado concorrente francês Les Enfants des Autres, em que a diretora Rebecca Zlotowski (Grand Central) discute a questão da maternidade. Rachel é uma professora de ensino médio que se envolve com um designer, Ali (Roschdy Zem), pai de uma menina de 5 anos.

Até então reticente para ser mãe, Rachel começa a sonhar com a ideia, também premida pelas considerações de seu ginecologista (uma ponta surpreendente do documentarista Frederick Wiseman). O filme toma o pulso deste momento de questionamento de uma mulher livre, no limiar da maturidade, confrontada com os múltiplos compromissos de Ali, que é pressionado por vestígios do vínculo com sua ex-mulher e mãe da menina, Alice (Chiara Mastroianni).

Embora Cate Blanchett continue candidatíssima a vencer neste ano a Copa Volpi, como a polêmica protagonista do drama Tár, de Todd Field, tanto Virginie Efira quanto Penélope Cruz chegaram ao Lido para pelo menos tornar esta disputa mais difícil. As duas estão muito senhoras de seus papeis, desdobrando aspectos complexos da feminilidade de maneiras bastante competentes e sem dúvida merecem consideração do júri comandado por Julianne Moore.

O homem-baleia
Brendan Fraser, o ator de 53 anos que já desperdiçou talento em inúmeros filmes idiotas (A Múmia, etc..), joga-se de corpo e alma na pele de Charlie, protagonista do drama The Whale, de Darren Aronofsky. Tendo engordado vários quilos e ainda recorrido a próteses, ele interpreta com pungência o papel deste professor obeso mórbido que, depois da morte trágica de seu companheiro, se tornou praticamente prisioneiro de seu apartamento, já que fazer o mínimo movimento, na sua condição, requer esforços sobre-humanos e o auxílio de carrinhos, bengalas e até uma cadeira de rodas.

A história baseia-se na peça teatral de Samuel D. Hunter, o que explica seu formato claustrofóbico, reduzido a um único cenário, essa sala onde Charlie passa sua vida, dando aulas remotas pelo Zoom (mantendo sua câmera apagada, para que os alunos não o vejam), e recebe visitas esporádicas. A mais constante delas, sua amiga, a enfermeira Liz ( Hong Chau), uma filha com quem ele manteve pouco contato e é um poço de raiva, Ellie (Sadie Sink), a ex-mulher, Mary (Samantha Morton) e um jovem missionário, Thomas (Ty Simpkins), que tenta convertê-lo.

Se o filme é um melodrama derramado, cheio dos excessos habituais do diretor de O Lutador (que venceu aqui o Leão de Ouro em 2008) e Cisne Negro, destinado a arrancar lágrimas pela condição sem saída de seu protagonista, seu forte é justamente a interpretação sincera e empenhada de Fraser que, ao que tudo indica, já pode mandar fazer seu smoking para ir ao Oscar no ano que vem.

O jardim de Schrader
Paul Schrader, o veterano diretor e roteirista norte-americano, diretor de Gigolô Americano, O Dono da Noite e Temporada de Caça, veio a Veneza para receber um Leão de Ouro honorário de carreira, dar uma masterclass e também apresentar, fora de competição, seu novo filme Master Gardener.

Nessa nova obra, Schrader, mais uma vez, comprova sua maestria para contar uma história, neste caso, de um meticuloso jardineiro, Narvel Roth (Joel Edgerton), que cuida do imenso jardim de uma rica propriedade, pertencente à sra Haverhill (Sigourney Weaver). Entre estes dois, perpassam relações de vários níveis, sempre mantidos sob controle da mulher poderosa, que tira proveito de uma fragilidade envolvendo o passado de Narvel

Ainda assim, ele vive naquele lugar com muita alegria, dedicado que está ao seu trabalho. Até que um dia, a sra. Haverhill entrega-lhe uma nova missão: ensinar uma nova aprendiz, a jovem Maya (Quintessa Swindell), que é sobrinha-neta da milionária.

Maya traz consigo uma série de fatores com potencial de desestabilizar a ordem tão meticulosamente instituída nessa propriedade, tão florida e bem-cuidada, traduzindo numa metáfora visual poderosa esse pequeno nicho, mantido à parte da desordem do mundo. É um filme atraente, de bom ritmo, que passa por temas candentes, como o submundo dos supremacistas brancos, mantendo a adrenalina correndo. Uma característica do bom e velho Schrader.