Uma ativista e um promotor em busca de justiça
- Por Neusa Barbosa, de Veneza
- 03/09/2022
- Tempo de leitura 5 minutos
Veneza - Primeiro sábado em Veneza e competição acelerando com a passagem de dois filmes potentes, o documentário norte-americano All the Beauty and the Bloodshed, de Laura Poitras, e o drama Argentina, 1985, em que o diretor Santiago Mitre recupera a memória de um processo judicial que levou à prisão vários dos ditadores argentinos, como Rafael Videla e Emílio Eduardo Massera.
Vencedora do Oscar de documentário em 2015 com Citizenfour, em que acompanha a fuga do ativista Edward Snowden dos EUA, Laura Poitras elege outra personagem marcante, a fotógrafa Nan Goldin, que se notabilizou por sua militância em causas como a AIDS e, mais recentemente, a crise dos opiáceos nos EUA. Traduzindo, Nan tornou-se uma das faces mais marcantes do P.A.I.N., movimento que buscou a responsabilização da família Sackler, proprietária da fábrica Purdue Farma, pelos males causados por um de seus produtos, o potente analgésico Oxycontin, a quem se atribuem milhares de mortes e várias vítimas sofrendo de efeitos colaterais. Estima-se o número dessas mortes em assustadores 500.000 nos EUA.
Nan, 68 anos, usa seu nome no mundo das artes, pressionando diversos museus em todo o mundo a retirar o nome dos Sackler de alas em seu interior, já que são generosos doadores a essas instituições - caso do Metropolitan, Guggenheim, Tate Gallery, fora universidades, como Harvard. Ao mesmo tempo em que acompanha essa militância, o filme delineia a biografia inusual desta mulher, que vem de uma família disfuncional, que abrange a história trágica de sua irmã, e atravessou diversos movimentos ao longo do século XX, especialmente na cena underground, que alimentaram o olhar que a tornou uma das fotógrafas mais prestigiadas do mundo.
Diversos de seus trabalhos pertencem, aliás, aos acervos dos mesmos museus que ela agora pressiiona para retirar o nome dos Sackler, que buscam construir, com essa benemerência, um marketing pessoal mais positivo.
Laura Poitras constroi, assim, um perfil denso e qualificado de uma figura que não se pode dar ao luxo de não conhecer a fundo. A potência do filme levou a plateia da sessão das 22h15, frequentada pela imprensa e credenciados do mercado cinematográfico, a aplausos demorados.
Processo crucial
Concorrente argentino ao Leão de Ouro, o drama Argentina, 1985, de Santiago Mitre, resgata a memória do famoso processo que, naquele ano, levou à condenação de diversos militares ligados à ditadura 1976-1983, como Rafael Videla e Emilio Massera, condenados à prisão perpétua por crimes como desaparecimentos, sequestros e torturas de milhares de cidadãos.
O astro Ricardo Darín interpreta o promotor Julio Strassera, que conduziu aquele processo, no início do governo Raúl Alfonsín. Com narrativa clássica e bem-amarrada, Mitre conduz a narrativa, destacando os muitos perigos no caminho do promotor, cujo trabalho incomodava profundamente os setores militares e ligados à “guerra suja”, que produziu 30.000 desaparecidos naquele país.
Também se dá conta de outros obstáculos no caminho do promotor, como encontrar colaboradores no prazo reduzidíssimo que lhe deram para instruir o processo na justiça civil - este, um dos motivos da resistência dos militares. Strassera, por isso, tem que contar com parceiros inexperientes, como seu vice-promotor, Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani), e um grupo de jovens voluntários para levantar os dados que sustentem a condenação de algumas das mais altas patentes militares à frente da ditadura recém-terminada.
Com o coração de seu filme evidentemente comprometido com aquele processo, que deu sustentação ao período democrático que a Argentina mantém ininterruptamente até hoje, Mitre constroi uma narrativa sólida e envolvente, individualizando cada personagem secundário de maneira a evidenciar o sabor humano e político de cada situação. O clímax, evidentemente, é a leitura das considerações finais do promotor, um discurso capaz de emocionar qualquer público, como aconteceu aqui, em que o filme foi muito aplaudido na sessão imprensa/mercado, e que tem imensa significação para toda a América Latina, especialmente para o Brasil, às vésperas de uma eleição que deve recolocá-lo na trilha da democracia. Que as lições daquele memorável processo argentino sirvam de exemplo para a reconstrução do país, que viveu também um período democrático ininterrupto entre 1985 e 2016.
Volta da filha pródiga
Um dos cinco filmes italianos da competição, Monica, de Andrea Pallaoro (de Hannah), retratou de forma apenas correta a história de uma mulher transexual (Trace Lysette) que volta à casa familiar depois de muitos anos, devido à doença terminal de sua mãe, Eugenia (Patricia Clarkson).
O foco dramático está justamente neste reencontro entre Monica e a mãe, que sofre de um tumor incurável, tem lapsos de memória e, por conta disso, não a reconhece - isto depois de tê-la rejeitado, anos atrás. Patricia Clarkson é uma atriz extraordinária e devem-se a ela os melhores momentos desta volta da filha pródiga ao lar. Mas Pallaoro não sabe tirar o melhor proveito da história intimista, deixando seu potencial escapar por muitas brechas.
Relacionadas
Veneza à espera da premiação
- 10/09/2022
As mães e os pais do mundo passam por Veneza
- 07/09/2022
Dia de crises na família e na masculinidade
- 05/09/2022
Mulheres em foco e o homem-baleia
- 04/09/2022
