O realismo mágico passa pelo Cine Ceará com "Green Grass"
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 12/10/2022
- Tempo de leitura 5 minutos

Fortaleza -
Uma inusitada produção nipo-chilena, Green Grass, de Ignacio Ruiz, que levou 12 anos para ser finalizada, foi a atração da quinta noite competitiva do Cine Ceará. Dentro e fora da tela, uma singular parceria e amizade aproxima estes dois países, dois continentes: entre o diretor chileno Ruiz e o ator japonês Masataka Ishikazi, que interpreta o protagonista, Kondo, numa história marcada pelo realismo mágico e uma empenhada composição estética.
Os dois se conheceram em 2010, num Festival de Cannes, onde ambos foram apresentar seus respectivos curtas no Mercado e no Short Film Corner. Naquele mundo turbulento e competitivo, sem falarem a mesma língua, encontraram uma sintonia de sensibilidades que os aproximou até aqui. Juntos, desenvolveram o projeto do filme, que foi sendo viabilizado pela produtora de Ishizaki, no Japão, e a chilena, de Ruiz. Um processo que levou muitos anos, teve a participação de outros roteiristas dos dois países e uma pré-produção muito delicada. “Precisávamos levar em conta o que significava cada coisa em cada país”, explica Ruiz na coletiva.

A história inclui aspectos espirituais, mágicos, envolvendo limbo, morte, estados de consciência e requer um engajamento peculiar do espectador, que pode ter diversas interpretações sobre o que ocorre com Kondo. Descobrindo-se subitamente num lugar estranho, no campo, cercado por bosques, e ladeado de pessoas que falam espanhol, ele parece estar em outro mundo, em outro recorte de tempo e espaço, debatendo-se para compreender este estranhamento, em que todo o tempo lhe são negadas explicações.

Ignacio Ruiz (foto ao lado) destaca que sua intenção, e a de Masataka, era que o público “encontrasse um mesmo caminho emocional”. As interpretações de cada um poderiam variar e o diretor ficou encantado com todas as que ouviu de espectadores no Cine São Luiz, ontem à noite - que foi a primeira exibição mundial do filme a um público (as demais haviam sido projeções privadas).
Set multilíngue
Masataka, que se expressa em inglês, e manifesta uma sintonia impressionante com Ruiz - que faz as vezes de seu tradutor na coletiva -, por sua vez, comentou sobre sua experiência de estar num set, no Chile, junto a uma maioria de atores que não falavam sua língua, num país que desconhecia. “Foi uma experiência muito misteriosa, mas eu conseguia entender qual era a situação”, descreve. Ruiz, por sua vez, completa que “havia uma preparação emocional prévia”, que permitia que os atores soubessem no que implicava cada situação, independente dos diálogos. Outro recurso bastante usado foram os story boards, uma área a que Ruiz dedica bastante atenção, já que é também desenhista e ilustrador.
Masataka destaca ter apreciado filmar no Chile (o filme foi feito lá e no Japão) por outro motivo: “Foi minha primeira experiência na América Latina. Foi muito diferente filmar aqui porque, no Japão, querem sempre que seja tudo perfeito. Aqui se procura uma solução quando algo não sai bem e estão todos mais abertos para conversar, o que torna o ato de filmar mais prazeroso”.
A fotografia de Victor Silva, que começa muito acinzentada e vai se abrindo a vários tons de verde, também é um aspecto decisivo. “A ideia era fazer um filme de atmosfera. Kondo está numa espécie de limbo, onde ele não pode tomar decisões. Como há poucos diálogos, queríamos que essa identidade visual também narrasse a história”, comenta Ruiz.
Dessa identidade visual fazem parte também referências pictóricas, como Rembrandt, Van Gogh e técnicas de pintura japonesa, como a sumiê, para os detalhes. As referências cinematográficas também são assumidas pelo diretor, citando Apichatpong Weerasetakul e os chilenos José Luis Torres Leiva e Raul Ruiz. Para Masataka, outra referência foi Hirokazu Kore-eda, especialmente o filme Depois da Vida, que tem um tema de algum modo próximo deste.
Curtas
Na segunda noite de apresentação dos curtas da competição, a seleção foi mais diversificada. O documental Contragolpe, de Victor Uchôa (BA), com um visual muito sofisticado, que combina cores e preto-e-branco, dá conta do tema do celeiro de talentos do boxe que é a Bahia, destacando alguns professores e alunos e também o aspecto educacional do esporte. “Nem todos serão esportistas, mas há uma ênfase em tornarem-se cidadãos, mesmo tornando-se outra coisa”, destacou. Para o diretor, que também é jornalista, esse treinamento e a organização em grupo dá aos jovens de bairros periféricos na Bahia inclusive ferramentas para resistir ao cerco do crime organizado. “Tivemos que pedir permissão para filmar e usar nosso drone para filmar a luta do final”, diz ele, referindo-se aos chefões criminosos dos locais filmados.
Os outros dois curtas da noite também se afirmaram numa composição estética caprichada. O terror Cemitério de Flores, de Rafael Toledo (MG), recorreu a um colorido intenso para narrar a história de uma pintora que, em busca de inspiração, colhe flores de uma sepultura e chega a usar o próprio sangue em suas novas obras. Rafael explicou que procurou traduzir uma ambiguidade em que ele acredita neste tipo de história: “Uma coisa bela não é necessariamente boa. A busca da beleza da artista nos seus quadros envolve sangue e morte. Isso afeta as pessoas ao seu redor, como a filha”.
Com ele concordou Laís Santos Araújo, diretora do curta Infantaria (AL), que descreve, com um clima de realismo mágico, a história de uma pequena família no dia do aniversário da menina Joana, num enredo que aborda aborto, menstruação e conflito de gênero. “As coisas mais bárbaras acontecem nas paisagens mais bonitas. Isso permeia as coisas que eu quero criar, as coisas belas indissociáveis da crueldade”, acentua.
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