05/06/2026

Documentário venezuelano registra desmoronamento social e econômico do país


Fortaleza -
Um retrato doloroso da Venezuela atual chegou ao Cine Ceará através do documentário Meninos de Las Brisas, em que a diretora Marianela Maldonado parte da história de três alunos de música do sistema estatal para radiografar o desmoronamento econômico e social do país.

Edilson, Wuilly e Dissandra são três jovens que o filme acompanha por dez anos, quando são aceitos no chamado “El Sistema”, um projeto criado em 1975 pelo maestro José Antonio Abreu para proporcionar educação musical a crianças e adolescentes de todas as condições sociais, permitindo-lhes disputar o acesso às orquestras do país.

A história começa em nota alta, com um crescendo de esperança destes três personagens, oriundos de famílias pobres de um bairro popular da cidade de Valencia, a duas horas de Caracas, onde se localiza a escola de Las Brisas. Acompanhando seu progresso, o filme entra em descenso com eles, à medida que a crise econômica entra mais fundo em seu contexto. Progressivamente, eles se verão atingidos por um turbilhão de protestos nas ruas, escassez de alimentos, gás e até água potável, violência e um intenso processo de êxodo do país - que colheu dois deles e inclusive a diretora do filme, que vive desde 2015 nos EUA.


Odisseias
No debate do filme, a diretora (foto ao lado) contou que, a princípio, os personagens eram sete, sendo reduzidos a estes três, que eram mais exemplares do que acontecia no país. Com o tempo, formou-se uma intimidade entre os meninos, suas famílias e a diretora, que fez inclusive com que eles passassem até a ignorar a presença das câmeras, tornando-se mais naturais diante delas.

A princípio, ela comenta que “não falavam de política, talvez por não conhecerem minhas posições”. Depois, foram perdendo o medo de falar sobre isso, culminando em cenas que estão no filme, como uma discussão entre Edixson e sua avó, ela uma apaixonada chavista. Embora o projeto El Sistema tenha sido criado há 47 anos, segundo a diretora, no governo Hugo Chávez “houve uma apropriação política dele”. Por conta disso, formou-se um sentimento de ambiguidade da população diante das orquestras estatais. “Ao mesmo tempo em que as orquestras foram um sucesso, tendo um efeito muito positivo na educação das crianças dos bairros mais pobres, elas eram colocadas na televisão, tocando, como se nada estivesse acontecendo, durante os protestos políticos nas ruas de 2017”, explica.

Nestes protestos, inclusive, Wuilly tornou-se uma figura central, tocando seu violino nas ruas à frente das passeatas. Ele chegou a ser preso e torturado e, depois, deixou o país. Atribulações econômicas atingiram também Edixson , que passou pelo serviço militar, e Dissandra, que foi para o Peru.

Quanto aos recursos financeiros do filme, Marianela usou, por quatro anos, recursos próprios. Depois, foi conseguindo verbas de um fundo do IDFA (Festival Internacional de Documentários de Amsterdã), do Instituto de Cinema Venezuelano, da TV francesa, de um crowdfunding, de amigos, e, depois de sua mudança para os EUA, do canal público PBS, o que lhe permitiu finalizar o documentário. “Cada etapa desse filme foi uma odisseia”,
comenta.

Curtas
Teve início na noite desta segunda (10) a exibição dos curtas da competição brasileira. Entre eles, o concorrente mineiro Camaco, de Breno Alvarenga, que aborda um curioso dialeto secreto criado em Itabira, no interior de Minas Gerais, usado no passado pelos trabalhadores da mineração para manter suas conversas ocultas dos patrões, muitos de companhias inglesas, e hoje ameaçado de extinção.

O curta documental pernambucano Filhos da Noite, de Henrique Arruda, focaliza homens gays entre 50 e 70 anos, compartilhando com ironia, tristeza ou bom humor suas reflexões sobre as mudanças em seus corpos e suas relações com a chegada da idade. O último curta da noite, o cearense Elusão, de Taís Augusto, acompanha as oscilações do relacionamento entre uma mulher trans, Lud, e seu namorado, Afonso.