05/06/2026

Intimismo e polarização em foco na competição no Cine Ceará


Fortaleza - Na noite de domingo (9), dois longas intimistas bastante diferentes disputaram as atenções da competição ibero-americana do Cine Ceará.

Inseparáveis (foto ao lado), o documentário argentino de María Álvarez, em seus aparentemente escassos 77 minutos, condensou com muitas nuances aspectos da vida de duas pianistas de 91 anos, as irmãs gêmeas Isabel e Amelia Cavallini, resgatando um contexto em que História, questões de gênero e política se infiltram.

Um filme tão denso e rico em camadas, por incrível que pareça, brotou do acaso. A diretora, que já havia feito dois filmes anteriores sobre a terceira idade, topou com as duas irmãos na rua, lanchando num McDonald’s. Elas lhe chamaram a atenção e ela as fotografou. Tornou a vê-las três meses depois, porque moravam perto de sua casa. Dali em diante, nasceu o projeto de um documentário que acabou por resgatar a carreira de duas pianistas que tiveram uma chance de ser famosas, tiveram seu percurso interrompido e, não fosse pelo filme, teriam permanecido totalmente desconhecidas em seu próprio país. Como observou a diretora no debate do filme hoje: “Há 50 anos ninguém mais falava da história delas. Se não fosse o filme, ninguém teria escutado sua música”.

Inseparáveis vale-se de materiais como um CD caseiro que registra as interpretações das pianistas, que invariavelmente tocavam juntas e tiveram seu momento de glória nos anos 1950, quando chegaram a morar dois anos nos EUA. Depois disso, voltaram ao país e mergulharam num processo de decadência profissional, porque seus maiores sonhos não se realizaram.

Apesar disso, o que o filme registra com muita propriedade e precisão é como as duas habitam uma espécie de tempo próprio, como uma bolha no tempo, em seu apertado apartamento, cujo espaço é congestionado pelo piano Steinway e dominado por um enorme retrato a óleo das duas, retratando-as na juventude. A importância deste cenário é crucial, como reconhece a diretora: “Sem esse apartamento, não existiria o filme”.

A urgência da realização do documentário insere-se não só pela avançada idade das duas como pelo próprio desenrolar dos acontecimentos. A diretora teve apenas três meses de convivência com elas, tendo tempo de filmar seu último aniversário juntas neste espaço, e contando com alguns lances de extrema sorte - como a descoberta de rolos de super-8 mostrando as duas na juventude quando María já tinha feito a montagem do filme, que foi então modificada para incorporar esse precioso material. A diretora mostra-se feliz com o resultado: “Naqueles três meses, elas foram elas mesmas”. Depois, Isabel ficou doente e acabou morrendo e Amelia foi viver numa casa de repouso para idosos.


Aproximações difíceis
Primeiro longa do gaúcho Bruno Carboni, o segundo filme brasileiro da competição ibero-americana O Acidente traça um interessante percurso no tema das polarizações que tanto preocupa o Brasil de hoje através de uma história que não menciona diretamente a política. O ponto de partida é o atropelamento proposital de uma ciclista, Joana (Carol Martins), pelo carro dirigido por Elaine (Gabriela Grecco).

O roteiro, também desenvolvido por Carboni ao lado de Marcela Bordin, explora uma série de relações que, a partir daí, se estabelecem entre as duas mulheres, numa tensão remota e aparentemente inconciliável, mediada por outros personagens: o filho de Elaine, Maicon (Luiz Felipe Xavier), que se encontrava no carro e filmou, inusitadamente, o atropelamento, e o pai do menino, o militar Cléber (Marcelo Crawshaw).

Conduzido com uma contenção emocional às vezes exasperante, o filme constrói uma mecânica que se equilibra em estranhezas, em perguntas que provocam o espectador: por que Joana insistiu tanto em dialogar com Elaine? Por que o menino filmou a cena e a colocou na internet, provocando sua viralização? Qual a possibilidade de um diálogo entre Joana e essa família disfuncional? Com que propósitos?

Colocando essas questões no meio do caminho, Carboni consegue criar um trajeto que leva o espectador por caminhos não exatamente previsíveis, elaborando uma metáfora de um país dividido e em pé de guerra que chega a um lugar de humanização. Não é pouco para um trabalho de estreia, num filme tecnicamente bem construído e que, eventualmente, se sente um pouco frio, talvez pela preocupação com a contenção, para não desaguar num melodrama, como seria fácil atingir. Neste sentido, somente a cena final seja talvez um ensaio de catarse que, nem mesmo assim, alivia as asperezas do que nos trouxe até aqui.