05/06/2026

Dramas latino-americanos discutem misticismo e desigualdade no Cine Ceará

Fortaleza - Dois filmes latino-americanos dividiram as atenções na noite de sábado (8) na competição ibero-americana no Cine Ceará. O primeiro, o longa cubano Vicenta B., de Carlos Lechuga, o segundo, o equatoriana Lo Invisible, de Javier Andrade, escolhido para representar o país na disputa de uma indicação ao Oscar em língua estrangeira.


O cubano Lechuga, que teve premiado no Cine Ceará 2016 seu longa anterior, Santa y Andrès, descreve em Vicenta B.
(foto ao lado) uma história inspirada em sua avó - como a protagonista, Vicenta (a impressionante Linnett Hernández Valdés), uma cartomante versada na espiritualidade africana.

Ainda que impregnado de um certo clima de realismo fantástico, por conta das visões de Vicenta, o filme extrai um potente naturalismo de suas sequências mostrando uma Cuba bastante empobrecida, de casas precárias e onde os jovens, como o filho de Vicenta, Carlitos, estão partindo em êxodo. Do lado de cá, ficam velhos, mulheres sozinhas e jovens como Mônica, que procura a cartomante em busca de ajuda e toma atitudes desesperadas quando não obtém o que deseja.


Impasse na produção
Presente ao festival cearense, a diretora de fotografia Denise Guerra (foto ao lado) comentou que a situação do cinema cubano hoje é muito desanimadora. Segundo ela, o ICAIC, instituto de cinema cubano, não vem produzindo quase nenhum filme. “Quem realiza são os produtores independentes, com todas as dificuldades que isso implica”, declarou. O próprio Vicenta B., por conta disso, acabou levando 6 anos para ser produzido, apesar de ter sido contemplado por um Fundo de Fomento criado há dois anos mas que, utilizando a desvalorizada moeda local, não cobre boa parte das despesas.

A falta de recursos atinge inclusive as salas de cinema que, por falta de manutenção, vêm sendo fechadas, não só na periferia de Havana mas mesmo na região central. Um exemplo recente citado pela diretora foi o Pairé, cine-teatro histórico da capital cubana.

O êxodo atinge também artistas e técnicos do cinema. A atriz protagonista, Linnett Hernández, vive em Paris
e voltou a Cuba para fazer este filme. O próprio diretor Carlos Lechuga há menos de um ano vive em Barcelona (não pôde vir ao Ceará porque sua esposa se encontra prestes a dar à luz). A censura é outro problema. O longa anterior do diretor, Santa y Andrès, que relata a história da inusitada amizade surgida entre um prisioneiro político gay e sua vigia, uma jovem camponesa revolucionária, foi proibido em Cuba. “Foi muito doloroso para Carlos e sua equipe. A censura é sempre uma coisa absurda”, desabafou a diretora de fotografia.

No caso de Vicenta B.,o
filme foi inscrito no Festival de Havana, que acontece em dezembro, mas, até o momento, a produção não obteve uma resposta sobre sua aceitação. O longa foi antes exibido nos festivais de Toronto e San Sebastián.


Invisibilidade e desigualdade
Amparado imensamente em sua protagonista e corroteirista, Anahí Hoeneisen, o drama equatoriano Lo Invisible (foto ao lado), de Javier Andrade, retrata o intenso processo de depressão de Luisa. Mulher rica, que acaba de voltar para casa depois da internação por depressão pós-parto, ela se vê novamente confinada a essa mansão imensa onde vive, cercada por um bosque, o que leva a família a viver numa bolha. Fazem parte desse microcosmo apenas os empregados, que vivem relações com os patrões que se assemelham à servidão, guardando resquícios do passado colonial escravagista de América Latina.

Um exemplo é a velha Rosa (Matilde Lagos), de origem indígena e que trabalha para esta família desde os 12 anos, tendo sido babá de Luisa. Retratando as contradições que existem nestas ligações de empregados domésticos com seus empregadores no continente, o relacionamento entre Rosa e Luisa é o único em que parece haver algum resíduo de afeto - embora se enfatize sempre o controle que Luisa procura manter da velha senhora, como se ela fosse um seu objeto.

Realizado com muito empenho técnico nos aspectos sonoros (desenho de som de Juan José Luzuriaga) e fotográfico (Daniel Andrade), Lo Invisible mostra-se fiel a esse título singular, afirmando, em cada sequência, o progressivo apagamento de Luisa, mergulhando num processo de enlouquecimento e autodestruição que, finalmente, a tornam invisível aos olhos dos demais membros de seu círculo, que parecem esperar dela apenas o cumprimento de papeis sociais que ela não tem mais condições de manter.

O filme foi exibido nos festivais de San Francisco, Toronto, Miami e Bergen.

Crédito Foto de Denise Guerra: Neusa Barbosa