Cine Ceará inicia com filme de afeto e manifestação política
- Por Neusa Barbosa, de Fortaleza
- 08/10/2022
- Tempo de leitura 6 minutos

Fortaleza - Em sua noite inaugural, o 32º Cine Ceará homenageou a atriz carioca Camila Pitanga e exibiu o primeiro longa da competição ibero-americana, a produção cearense A Filha do Palhaço, de Pedro Diógenes.
Homenageada pelo festival com o troféu Eusélio Oliveira - o mesmo concedido a seu pai, Antônio Pitanga, 4 anos atrás - a atriz Camila Pitanga , vestida num esfuziante vestido vermelho e com um penteado trançado afro, fez um agradecimento em que lembrou momentos de sua carreira, sua ancestralidade africana e fez uma entusiasmada defesa da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a presidência no próximo dia 30.
História de carreira
Camila valoriza muito a formação escolar que procurou para prosseguir numa carreira que abraçou, com cerca de 15 anos, ainda sem ter muita noção de seu desejo de nela permanecer. Por isso, valoriza seu curso de Teoria Teatral na UniRio e também os encontros com pessoas do cinema.

Ela lembrou seu início simbólico de carreira no cinema, em 1984, quando não tinha mais do que 6 anos e fez uma ponta no filme Quilombo, de Cacá Diegues. “Eu aparecia pouco, era duas perninhas lá no fundo.. Mas estava dando continuidade a uma longa caminhada”, diz, referindo-se ao pai, uma das figuras mais marcantes da história do cinema brasileiro.
Camila Pitanga e Fabiano Piuba. Crédito: Rogério Resende/Divulgação
Ela fez questão de lembrar outro momento, quando tinha ainda menos de 20 anos, morava na comunidade Chapéu Mangueira e foi convidada pelo diretor Rogério Sganzerla para uma pequena participação no filme O Signo do Caos, que ficaria pronto anos depois. “Eu nem sabia ainda quem ele era quando ele me propôs brincar com duas frases diante da câmera, e foi o que eu fiz”, confessa. Mas, quando o filme ficou pronto, em 2003, e ela o assistiu no Festival do Rio, já sabia muito bem quem era o diretor, então muito doente, que viria a morrer no ano seguinte e fora um dos expoentes do Cinema Marginal.
Camila destaca que a televisão, em que ela fez séries e novelas de sucesso como Paraíso Tropical, lhe deu “passaporte para conhecer muita gente e o grande público”. Hoje, Camila vem atuando como produtora executiva para o canal HBO Max, do longa Iemanjá, em que não irá atuar.
Eleição
A atriz frisou: “O grande sonho que tenho hoje é a gente afirmar no dia 30 de outubro a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva” - momento em que foi ovacionada pela plateia que lotava o Cine São Luiz.
Camila prosseguiu: “Vivemos hoje um momento muito estranho, que nos convoca a bater de porta em porta, falar com as pessoas: que Brasil a gente quer. O Brasil do ódio ou o do amor? O que reconhece a diversidade ou o quer nivelar todo mundo? “ Para a atriz, “é preciso desconstruir a base racista e misógina do País para chegar a esse Brasil que eu acredito que quer pensar com liberdade. Por isso, precisamos do voto do amor, da tolerância, da convivência. O projeto que Luiz Inácio Lula da Silva pode fazer é um país de todos, que se olhe por inteiro”.
Depois de sua fala, a atriz foi novamente ovacionada pela plateia que, de pé, fazia o L com as mãos e estimulava a atriz a fazê-lo, o que ela repetiu várias vezes. Em seguida, o público cantou o tema da campanha de Lula. O estado do Ceará, que acaba de eleger Elmano de Freitas (PT) em primeiro turno, foi governado antes por dois mandatos por outro petista, Camilo Santana, eleito senador pelo estado no último dia 2.

Intimismo em alta
Reiterando uma tendência recente no cinema brasileiro mais recente, o longa A Filha do Palhaço, de Pedro Diógenes, sintonizou a nota do afeto. O projeto veio sendo desenvolvido por 10 anos, sendo atropelado pela drástica redução das verbas de investimento do Ministério da Cultura e a pandemia. “Filmamos entre a primeira e a segunda onda”, contou o diretor, no debate do filme.

Os afetos, segundo ele, foram entrando na tessitura da história por meio de experiências da própria vida dele, como a morte do pai e o nascimento da filha - o tema central do enredo é a retomada do relacionamento entre um pai, Renato (Démick Lopes) e a filha adolescente, Joana (Lis Sutter), que cresceu longe dele depois da separação dos pais.
Elenco de "A Filha do Palhaço" , o diretor Pedro Diógenes (com microfone) e o ator Démick Lopes durante debate sobre o filme
Um terceiro elemento que entrou na composição do roteiro foi o desejo de abordar a peculiar cena de humor cearense, a partir da inspiração na popular personagem Raimundinha, interpretada pelo primo do diretor, Paulo Diógenes. No filme, Renato vive de shows em restaurantes e churrascarias com sua personagem Silvanelly, que ele faz
travestido de mulher.
travestido de mulher.

Este desejo de se inspirar nestes temas levou Diógenes, diretor ligado ao grupo Alumbramento, conhecido por um cinema mais experimental, a um novo rumo. “Este é meu oitavo longa mas a sensação é de que é um primeiro filme, porque foi minha primeira vez neste terreno, assim como para várias pessoas da minha equipe”, comentou o diretor de Inferninho (codirigido com Guto Parente em 2019), A estrada para Ithaca, Os Monstros e No Lugar Errado, estes três codirigidos com Parente e os irmãos Luiz e Ricardo Pretti.
O protagonista, Démick Lopes, por sua vez, entrou com sua própria experiência como pai de duas filhas para compor um personagem muito rico em camadas, como ele mesmo diz, “sem nunca pretender julgá-lo”. Um ponto de vista feminino entrou através da participação no roteiro de duas mulheres, Amanda Pontes e Micheline Helena. Na coletiva, Amanda destacou que as duas “ofereceram outros pontos de vista, também pela intenção de não romantizar a figura do pai”, compondo com maior complexidade a figura da mãe (Ana Luiza Rios).
Indagado sobre esse diálogo de afeto de seu filme com a temática de Marte Um, de Gabriel Martins - representante do Brasil a uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro -, Diógenes comentou: “Acho que também é uma questão geracional estarmos indo pelo mesmo caminho. Mas para mim era mesmo uma questão de me aproximar de algo novo para mim”.
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