21/07/2026

Cine PE encerra suas exibições com documentário sobre fé e fotografia


Recife - Com a exibição do documentário Um Outro Francisco, de Margarita Hernández (CE), o festival encerra hoje (14/12) à noite sua 26ª edição - que conseguiu superar o imprevisto de ter que mudar o seu local de exibição, o Teatro do Parque, atingido por problemas técnicos, para o Porto Digital. Um contratempo que motivou a decisão dos organizadores de suprimir a festa de premiação, que seria hoje, já que na segunda (12-12) a sessão teve que ser cancelada, sendo os filmes exibidos nos dois dias seguintes no novo endereço. Por isso, as premiações serão anunciadas nesta sexta (16) nas redes sociais e os premiados virão receber seus troféus na edição de 2023.

Exibido anteriormente na Mostra de São Paulo, Um Outro Francisco faz a ponte entre duas formas de devoção a São Francisco, na Itália, na cidade de Assis, e em Canindé, interior do Ceará, permeadas pela visão de dois fotógrafos italianos que percorrem ambas as localidades.

No meio do caminho, um dos temas discutidos é mesmo o olhar, incorporando à narrativa as fotos realizadas pelos fotógrafos locais de Canindé e pelas pessoas que frequentam o santuário cearense, multiplicando os sentidos que a fotografia adquire em cada contexto. De toda forma, a diretora cubana, radicada no Brasil, compõe uma discussão também sobre as formas de culturas diferentes olharem uma para a outra, entrevistando os fotógrafos italianos e também diversos personagens cearenses, num saboroso painel multicultural.


Indígenas pernambucanos
Outro longa concorrente na competição principal, o docudrama Rama Pankararu, de Pedro Sodré (RJ), mergulha na cultura deste que é um dos 14 povos indígenas do estado, para contar uma história em torno de Bia (Bia Pankararu, corroteirista e coprodutora). A ideia geral é normalizar a figura do indígena, longe dos estereótipos, retratando-o como uma pessoa comum, imersa em suas questões pessoais e seu trabalho - no caso de Bia, num posto de saúde. Mas isso inclui também contextualizar este seu cotidiano numa terra indígena que está sofrendo um processo de desintrusão, o que acarreta alguns episódios de violência, de queima de escolas e posto de saúde, ocorridos realmente depois das eleições de 2018.

Na coletiva do filme, nesta manhã de quarta (14), a própria Bia Pankararu e o diretor Pedro Sodré descreveram o processo de realização do filme, cujo set funcionava na própria casa dela, em Tacaratu (PE). Essa proximidade entre a personagem e a equipe criou seus atritos, mas também uma intimidade e organicidade que, de outra forma, dificilmente teriam sido atingidos. “O filme aconteceu com a vida”, definiu Bia, que já tinha experiência anterior em cinema como produtora.

Há sequências muito bonitas, como a filmagem do ritual do Umbu, que ocupa a parte final, em que o som da música indígena foi feito em captação direta, às vezes com o som da própria câmera, como contou o diretor.

Na parte propriamente ficcional do filme, Bia envolve-se amorosamente com uma repórter (Tássia Leite) que veio escrever uma reportagem sobre seu povo. Indagada sobre a repercussão dessa questão da sexualidade em sua comunidade, Bia admitiu que o filme ainda não foi visto lá e que ela espera problemas com alguns líderes da comunidade. “Vários deles são homens na faixa dos 40 anos e que a gente pode descrever como homofóbicos”, declarou. Na sessão de ontem, no entanto, vieram alguns jovens Pankararus, que são artistas, alguns deles LGBTs, e, segundo Bia, nenhum deles viu no filme nenhuma afronta à sua cultura original.


Crossdressers na ditadura
Diretor do premiado Alice Junior, Gil Baroni partiu para uma investida bastante radical em seu novo filme, Casa Izabel (PR) - uma ficção que explora um clube secreto de crossdressers, vários deles militares, durante a ditadura militar, nos anos 1970.

O roteiro, assinado por Luiz Bertazzo, tem como inspiração uma história real, mas não ambientada no Brasil. Trata-se de Casa Susana, livro que rendeu uma adaptação teatral, e gira em torno de uma investigação nos EUA a partir da descoberta de uma caixa de fotografias numa pequena cidade. As fotografias mostram diversos personagens locais vestidos de mulher, o que serviu como guia da fotografia do filme de Baroni, assinada por Renato Ogata e que transmite um assumido tom nostálgico, inclusive na janela do filme, mais estreita, assemelhando-se ao formato das fotos antigas, quadradas.

Uma das referências à ditadura na história é o fato de a cozinheira da casa, Dalia (Laura Haddad), ter um filho desaparecido e ter aprisionado num quarto dos fundos um homem que apareceu ali espionando - e que ela julga ter notícias sobre seu filho. Estas referências, porém, não são tão bem-amarradas de modo a produzir realmente uma reflexão sobre os dias de chumbo. O interesse da história está mais centrado nestes homens vestidos de mulheres e atormentados por questões bem pessoais, como a decadente dona da casa, Izabel, interpretada pelo veterano ator Luis Melo.