05/06/2026

Documentário "Gerais da Pedra" resgata imortalidade da obra de Guimarães Rosa


Recife
– Segundo documentário da competição de longas, Gerais da Pedra,
dos diretores Paulo Junior, Diego Zanotti e Gabriel Oliveira (MG), revisita Grande Sertão: Veredas, a obra imortal de Guimarães Rosa, estabelecendo um diálogo novo e original não só com o livro como com a região a que o livro se refere e, principalmente, com seus habitantes atuais.

O filme constrói sua narrativa intercalando as paisagens ao longo do paredão de Minas, a região no noroeste do estado, que abriga as rotas percorridas pelo escritor na pesquisa de seu livro magistral - ainda que sem a preocupação de ser fiel ao percurso dele – com as falas de alguns personagens impagáveis, convocando o espectador a tornar-se passageiro nesta viagem. Viagem, aliás, que os três diretores fizeram ao longo de um mês, em janeiro de 2017, tendo por guia suas próprias ligações com a obra de Rosa e também a tese de doutorado de Oliveira – um pesquisador que aqui se tornou também cineasta.


Na coletiva do filme, nesta manhã de segunda (12), os diretores explicaram que não queriam que este seu ponto de partida se tornasse rígido demais, aprisionando o projeto. “ A gente nem mesmo sabia se dali teríamos mesmo um filme”, confessa Diego. A ideia era mergulhar no trajeto, tanto quanto havia feito Rosa décadas atrás, captando as atmosferas e vivências que pudessem dar base a um filme – que, com mais de 40 horas captadas, acabou encontrando um formato extremamente belo e original numa pós-produção que se tornou outro processo coletivo.

Os diretores de
"Gerais da Pedra", Paulo Junior, Diego Zanotti e Gabriel Oliveira. Ao centro, o curador e mediador Edu Fernandes e, no lado direito, a produtora executiva Tatiana Mitre. Crédito: Neusa Barbisa

Na fase de pós-produção, financiada por um edital, entraram na equipe uma roteirista de montagem, Ana Carolina Soares, o montador Fabian Remy, o editor de som Vitor Coroa, a compositora Déa Trancoso e o responsável pela trilha sonora Paulim Sartori, todos eles contribuindo decisivamente para que o encontro do formato atual da obra.

Ficção e realidade
Nesses 90 minutos da versão final, os espectadores podem compartilhar as paisagens do sertão mineiro que inspiraram Rosa, suas montanhas, pedras, árvores, cachoeiras e caminhos de terra e também personagens raros, que, de algum modo, se relacionam com Grande Sertão: Veredas, de algum modo. Afinal, hoje Guimarães Rosa é não só extremamente conhecido, assim como sua obra, como também se tornou um personagem, tanto quanto Riobaldo e Diadorim. Diadorim, aliás, é a espinha dorsal do filme, dividido em três partes a ela relacionadas: morte, amor e nascimento.

Essa explosão da fronteira entre ficção e realidade, que se torna clara nas falas de personagens que tratam Diadorim como uma pessoa que realmente tenha existido, fornecem à literatura de Rosa a prova de seu enraizamento no imaginário popular que lhe garante a imortalidade, este um dos aspectos mais relevantes deste filme. Diadorim é, então, tratada pelos personagens entrevistados como uma pessoa real, que pode ter existido inclusive. Uma mulher, dona de um cartório de uma cidade, conta inclusive ter procurado exaustivamente certidões que comprovassem sua existência.

De todo modo, Gerais da Pedra é uma experiência riquíssima para qualquer espectador que se disponha a ter um mínimo de entrega às suas imagens e palavras.

Curtas
A noite foi dedicada a curtas que, de algum modo, tinham relação com a música, num encadeamento muito coerente. Como os curtas pernambucanos Da Boca da Noite à Barra do Dia, de Tiago Delácio – um documentário sobre um mestre da brincadeira popular do Cavalo Marinho, mestre Martelo – e Último Dia, de Armando Lôbo, um filme-ópera inspirado numa experiência de um popular compositor de frevo, Levino Ferreira, que teria sofrido um episódio de catalepsia.

Na mostra competitiva nacional, Fantasma Neon, de Leonardo Martinelli (RJ) – filme já exibido e premiado em outros festivais, inclusive internacionais –, cria um musical para retratar as agruras e sonhos dos entregadores de aplicativos. Geruzinho, de Juliana Teixeira, Luli Morante e Rafael Amorim (SE), conta a história do bloco afro Descidão dos Quilombos e seus vibrantes dançarinos e tambores. Desejo e Necessidade, de Milso Roberto (PB), por sua vez, usa a dança e a trilha sonora do Quinteto da Paraíba para um relato, ambientado na feira de Campina Grande, sobre uma pequena família dividida pela necessidade de sobrevivência. E O Crime da Penha, de Daniel Souza Ferreira e Dudu Marella (SP), reconstitui, através da animação e da música caipira, um famoso crime do século XIX, o assassinato de um delegado abolicionista, que levou um município a mudar de nome.