Documentário sobre família e imigração ucraniana domina segunda noite do Cine PE
- Por Neusa Barbosa, do Recife
- 11/12/2022
- Tempo de leitura 4 minutos

Recife – Com o documentário Aldeia Natal, de Guto Pasko (PE), o Cine PE prosseguiu a exibição dos longas concorrentes, neste sábado (10) no Cine São Luiz.
Trata-se de um filme pessoal, doloroso até, em que o cineasta dispõe-se a explorar as dores profundas de uma história familiar extremamente conturbada, que passa por seu abandono do círculo familiar mais próximo aos 11 anos de idade, motivado por sua recusa à promessa dos pais, descendentes de imigrantes ucranianos bastante religiosos, de que o primogênito se tornasse padre. A partir dessa ruptura, que o filme expande, Pasko retrata sua reaproximação dos pais e dos irmãos, em busca de preencher as lacunas de uma trajetória familiar que começou com a imigração de seus ancestrais do oeste da Ucrânia, no final do século XIX, para o interior do Paraná, em Prudentópolis.

Lidando com tantos traumas, o diretor contou no debate desta manhã de domingo (11) que o projeto levou três anos para ser construído. Tendo em vista possíveis resistências familiares ao filme, ele começou ganhando a adesão dos pais a um processo de recuperação das memórias de sua infância – as quais, segundo ele conta, foram completamente apagadas. “Não me lembro de um único dia de aula na escola primária, que frequentei por quatro anos”, exemplifica.
A história familiar, especialmente a paterna, também foi perdida a partir do assassinato de seu bisavô, em 1927. Preencher estas lacunas exigiu também que o cineasta contratasse um pesquisador na Ucrânia, país em que ele já havia filmado um documentário anterior, Iván (2015), sobre um imigrante daquele país, Iván Bojko, sobrevivente da II Guerra Mundial.
Os 10 irmãos do cineasta foram atraídos a participar do projeto com sua intenção de levar os pais à Ucrânia para reatar estes laços familiares, o que foi feito no final de 2019. A viagem, que ocupa cerca de metade do filme, oferece alguns momentos engraçados e comoventes, retratando os esforços dos habitantes de algumas aldeias, que compartilham os sobrenomes dos pais do diretor, para encontrar informações que proporcionem os elos perdidos. O que, finalmente, acontece.
Muito é facilitado pelo fato de que tanto Guto Pasko quanto seus pais falem ucraniano. O diretor recorda que, quando entrou na escola primária – como se observa no filme -, ele não falava português, só ucraniano. E também foi alfabetizado nessa língua.
Guerra
Quase três anos depois da viagem, com um contato restabelecido ainda que à distância, a guerra da Ucrânia tornou-se um outro fator de angústia. O diretor conta que a região de origem de sua família, no oeste da Ucrânia, próxima à fronteira polonesa, foi, por enquanto, menos afetada pelos combates. “Houve ataques pontuais”, afirma. Apesar disso, uma das parentes de sua mãe, que participa do filme, vive no momento seu drama pessoal. Ela chegou a partir para a Polônia, despachando um de seus filhos para a Itália, enquanto o mais velho, de 19 anos, ia combater na guerra. Mas, finalmente, ela acabou voltando, enquanto o filho continua servindo o exército.

Literatura e diversidade
Entre os curtas da noite, Contos de Amor e Crime (foto), de Natali Assunção, parte da competição pernambucana, materializou na tela a literatura pulsante de Marcelino Freire. Na mesma competição, Mormaço, de Carol Lima, também apostou fortemente na palavra ao apoiar-se em relatos de mulheres lésbicas sobre preconceito, afirmação e identidade.
Na competição nacional, o curta Maria, de Guilherme Caravetta de Carli, resgata de maneira criativa e comovente a história da avó do diretor a partir de fragmentos de um vídeo caseiro que ele realizou com ela, quando era um adolescente, e agora se torna motor de um pedido de desculpas e uma homenagem a uma mulher que ele descobriu ser muito maior do que ele podia perceber.
A animação mineira O Destino de Adelaide, de Breno Alvarenga e Luiza Garcia, por sua vez, enfoca o dilema de uma senhora idosa que começa a exibir sinais de Alzheimer. Alexandrina – Um Relâmpago, de Keila Sankofa (AM), investe numa poderosa linguagem poética para reconstituir a história possível de uma mulher negra da Amazônia que teve uma atuação científica mas foi, como tantas outras, apagada da História oficial. E Andrômeda, de Lucas Gesser (DF), constrói um relato intimista em torno das lembranças de um antigo relacionamento de Julia (Bruna Martini), ligadas a uma antiga mesa de pinball.
