Verdades, mentiras e Godard
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 14/04/2023
- Tempo de leitura 7 minutos
COMPETIÇÃO BRASILEIRA

171
O que leva uma pessoa comum a se envolver com estelionato, mais conhecido popularmente como 171? É essa a pergunta da qual parte o novo documentário de Rodrigo Siqueira, já premiado no É Tudo Verdade, com Terra Deu, Terra Come, em 2010, para investigar uma dinâmica de negociação marcada pela mentira.
São seis figuras variadas, desde um ator a um padre, cujas vidas, em algum momento, foram marcadas pela aplicação de golpes. Os motivos que levam a isso são os mais variados, às vezes, nem ficam claros. Apenas acontece. Sem cair em julgamentos morais, o documentário resgata essas histórias de vida e a busca pela redenção após o(s) golpe(s).
Se no princípio é isso que o filme mostra, depois de um tempo surge outro dispositivo, como em Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho -
a quem o longa é dedicado. Em meio às histórias de corrupção, há verdades e mentiras, fatos e ficções. E o sexteto de entrevistados – todos encarcerados por motivos diversos, mas enquadrados como 171 – atua partindo do poder da palavra, a principal ferramenta de um estelionatário.
a quem o longa é dedicado. Em meio às histórias de corrupção, há verdades e mentiras, fatos e ficções. E o sexteto de entrevistados – todos encarcerados por motivos diversos, mas enquadrados como 171 – atua partindo do poder da palavra, a principal ferramenta de um estelionatário.
O documentário 171 traz a sintonia entre a forma e o conteúdo. Seus personagens contando histórias reais ou não – jamais saberemos – “aplicam” golpes no público do documentário. E assim o filme prova sua tese: somos todos passíveis de nos tornarmos vítimas.
O ato de narrar sempre foi uma questão central nos documentários do diretor. Em Terra Deu, Terra Come, intercalam-se memórias e ficções na figura do garimpeiro Pedro de Almeida, um dos últimos conhecedores dos vissungos, cantigas em dialeto cantadas durante os rituais fúnebres do interior de Minas Gerais. Em Orestes, o cineasta busca uma narrativa ainda mais antiga, a peça grega de Ésquilo, na qual Orestes mata o próprio pai, e o filme faz o seu julgamento. Mas, a partir disso, o documentário investigava a tortura no Brasil na época da ditadura civil-militar.
Aqui, ao colocar as narrativas mentirosas ao centro, o filme vai, como tantas obras, questionar um tema importante do presente: as fake news, que, como narrativas estelionatárias, são sedutoras. Para que funcionem, assim como os 171, é preciso que incorporem uma dose de verdade, embalada pela mentira, que é o que mais importa. “O poder da palavra é mais forte do que o poder da imagem”, diz um entrevistado. Essa é a tese que o filme tenta provar – e consegue – o tempo todo. (Alysson Oliveira)
Sessões:
NET Botafogo (RJ) - 14/04/2023 às 20h00
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 15/04/2023 às 18h00
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 16/04/2023 às 19h00
Cine Marquise (SP) - 18/04/2023 às 20h30
Amanhã
As transformações do Brasil nos últimos 20 anos passam pelo viés pessoal no documentário Amanhã, do mineiro Marcos Pimentel. As figuras centrais são um trio de crianças que se conheceram, inicialmente, na Barragem Santa Lúcia, em Belo Horizonte – um local
que separa uma favela de um bairro de classe média.
que separa uma favela de um bairro de classe média.
O filme começa em 2002 com esse encontro. Os irmãos Christian e Julia conhecem José Thomas. A dupla, moradora de uma comunidade no Morro do Papagaio, visita a casa dele, onde um mundo diferente se abre, repleto de conforto e um certo luxo que não são acessíveis a eles. Duas décadas depois, reencontramos, primeiramente, Júlia, agora adulta e mãe, revisitando na tela de uma televisão as imagens daquele dia. Visivelmente emocionada, assistindo a si mesma e aos amigos, ela define a experiência como maravilhosa.
Pimentel, que tem no currículo filmes como Fé e Fúria e Pele, é um cineasta atento às transformações sociais, geográficas e urbanas. Sem cair em sociologismos baratos, ele faz investigações humanistas que explicitam as contradições sociais do Brasil – e isso fica ainda mais claro em Amanhã. É um filme de um carinho enorme por suas figuras humanas.
Christian, por sua vez, é um menino tímido que pouco aparece diante da câmera. Hoje, sua mãe assiste às antigas imagens e define: “Eles eram felizes, mesmo sem ter videogame e outros brinquedos que toda criança tem”. Na primeira parte do filme, ele ainda cumpre pena na prisão e conversa com a mãe por celular durante as filmagens, contando que está apaixonado por uma moça que está numa outra cadeia. Depois, o vemos de volta à sua casa.
Ao se colocar em primeira pessoa no filme, quebrando a ilusão do processo documental neutro, Pimentel questiona não apenas os parâmetros e a ética do gênero, mas também seu envolvimento emocional com os irmãos. É aflitivo, por exemplo, não apenas para ele, mas também para o público, quando Julia ou Christian desaparecem sem dar notícias.
No meio do filme, um questionamento: onde está Thomas? E Julia e Christian começam a imaginar o futuro do amigo. As possibilidades que cogitam apontam o abismo social que os separa do antigo amigo de classe média. Esse questionamento, afinal, é revelador e permite que o filme seja construído no ritmo dos acontecimentos, aberto ao inesperado. Assim, incorpora em si as mudanças nas vidas das personagens, resultando num retrato vívido, potente e extremamente revelador do Brasil contemporâneo. (Alysson Oliveira)
Sessões:
Cine Marquise (SP) - 14/04/2023 às 20h30
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 15/04/2023 às 19h00
NET Botafogo (RJ) - 15/04/2023 às 20h00
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 16/04/2023 às 18h00
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Godard Cinema
Exibido na seção Clássicos no Festival de Veneza 2022, o documentário do cineasta francês Cyril Leuthy mergulha no enorme oceano que foi a passagem de Jean-Luc Godard (1930-2022) pelo mundo do cinema. Sem pretensões a esgotar seu tema, o diretor alinha as principais vertentes de uma vida e obra que marcaram a sétima arte de maneira indelével e definitiva, quase sempre para o bem – porque, até quando errava, Godard era capaz de apontar algum rumo interessante de explorar.
Além de informar alguns inevitáveis dados biográficos sobre a família Godard – com quem o cineasta teve que romper, na juventude, para escolher o cinema -, o filme se dedica bem mais, felizmente, às fases de sua carreira, movida por uma sofreguidão que o levou a fazer um filme atrás do outro, a partir do incendiário Acossado (1960), que lhe deu um Urso de Prata em Berlim, marcando a passagem da Nouvelle Vague.
Criando sua própria lenda, também por um temperamento instável, como assinala com muita precisão o documentarista, Godard alinhou títulos incontornáveis, como O Pequeno Soldado, A Chinesa, Duas ou Três Coisas que eu Sei Dela, Weekend, e muitos outros, que não só exprimiram suas inquietações, inclusive políticas, como apresentaram diversas atrizes marcantes, suas musas: caso de Anna Karina, que foi sua mulher, Marina Vlady, Macha Méril e Julie Delpy, as três últimas entrevistadas no filme.
Acompanhando a imensa carreira de Godard, que se estendeu por cerca de 140 filmes, o documentário assinala, igualmente, seus sucessos e fracassos, suas múltiplas reinvenções e sua insaciável curiosidade pelas novidades técnicas, que o moveram em inúmeras experimentações. Certamente, tão cedo não haverá outro como ele. (Neusa Barbosa)
Sessões:
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 14/04/2023 às 19h00
NET Botafogo (RJ) - 16/04/2023 às 14h
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 17/04/2023 às 15h30
IMS Paulista (SP) – 20/4/2023 às 19h30
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