04/06/2026

Entre o intimismo e a política

Filme de abertura – Rio de Janeiro


1968, um ano na vida

“Se você se lembra dos anos de 1960, você não estava lá”. É com essa citação – atribuída a diversas pessoas, de Grace Slick, da banda Jefferson Airplane, a Dennis Hopper, e tantos outras e outros – que começa o documentário 1968, Um ano na vida, de Eduardo Escorel, que abre o Festival É Tudo Verdade, no Rio de Janeiro, e depois também será apresentado em São Paulo.

O filme não poderia ser mais oportuno – aliás, o seria em qualquer momento, afinal, somos todos resultado das vitórias e fracassos de 1968, o último momento em que uma utopia de um mundo melhor se fazia presente no horizonte histórico. De lá para cá, só ladeira abaixo, com a ascensão do neoliberalismo e o “fim da história”, como colocou o filósofo e economista direitista americano Francis Fukuyama.

Escorel toma aquela proposição da segunda onda feminista, exatamente da década de 1960: “o pessoal é político”, e parte do diário de sua irmã, Silvia Escorel, para resgatar o ano que não acabou a partir das vivências e memórias pessoais, resultando num belo filme altamente político. De certa forma, lembrando aquilo mesmo que a Nobel francesa Annie Eranux faz em seu livro mais famoso, Os Anos, combinando história sócio-política com acontecimentos de sua própria vida.


Seguindo uma ordem cronológica, Silvia, ela mesma narradora, reconta mês a mês aquele ano tão transformador. São desde encontros com amigos, a descoberta do I Ching, até um despertar político mais profundo. Ela, como deixa claro, era, de certa forma, alienada dos acontecimentos no país. Obviamente, sabia que havia uma ditadura e que era algo violento, mas não tinha noção da exata dimensão daquilo até que as prisões e torturas atingem amigos e amigas mais próximas dela.

Silvia, aliás, é uma narradora exímia. Sua narração é como uma conversa que estabelece conosco, repleta de apartes, comentários, fora suas lembranças. Ela cria uma espécie de vínculo afetivo com o público e, ao final, é como se conhecêssemos um pouco mais da vida dela.

Rico em sua pesquisa de imagens que combinam, ilustram ou até formam uma relação dialética com o texto, 1968, Um ano na vida é um documentário que encontra sua força e razão de ser em Silvia, escritora e artista visual um ano e meio mais velha que Eduardo. Não por caso, a outra parte da equação desse filme está em No Intenso Agora, de João Moreira Salles, montado por Escorel e Laís Lifschitz, que também assina a montagem aqui.

São dois filmes protagonizados por aqueles a quem o crítico e pensador norte-americano Fredrick Jameson chama de “veteranos dos anos 60”, que permitem um olhar para aquela década sem pretender uma comemoração nostálgica, mas cuja trajetória e memórias nos permitem pensar nas oportunidades e derrotas daquele momento que reverberam até hoje. (Alysson Oliveira)

Sessões:
NET Botafogo (RJ) - 13/04/2023 às 20h00
NET Botafogo (RJ) - 14/04/2023 às 17h00
Cine Marquise (SP) - 15/04/2023 às 18h00

Competição Internacional – longas


Rezando pelo Armageddon

A diretora norueguesa Tonje Hessen Schei consegue montar um contundente e muito preocupante retrato da crescente influência de algumas poderosas igrejas cristãs fundamentalistas dos EUA na política do país. Igrejas como a CUFI (Cristãos Unidos por Israel), comandada pelo pastor John Hagee, com 10 milhões de membros, e a Primeira Igreja Batista, em Dallas, Texas, liderada pelo pastor Robert Jeffress – um conselheiro espritual do ex-presidente Donald Trump -, alinham-se numa cruzada que associa uma interpretação literal da Bíblia e uma pregação focada num suposto iminente final dos tempos, que justificariam uma crescente mobilização bélica em prol da defesa incondicional de Israel – onde se daria a volta de Jesus Cristo prevista nas escrituras. Um entendimento que também embasa a negação dos direitos dos palestinos e o combate aos supostos inimigos de Israel, ou seja, todos os árabes e muçulmanos.

O repórter Lee Fang, do The Intercept, é personagem central do documentário, conduzindo uma investigação sobre esta crescente dominação da direita cristã nos rumos da política norte-americana, que dá diversas mostras de estar preparando uma verdadeira guerra santa, disseminada entre diversos grupos no país e também influindo diretamente em Israel. Sob a aparência de instituições de caridade, organizações evangélicas norte-americanas como a City of David, por exemplo, estão por trás do suporte a iniciativas de expulsão permanente de palestinos de territórios em Israel, sendo substituídos por colonos judeus.
Com entrevistas muito sólidas, como do ex-pastor Frank Schaeffer e do coronel Larry Wilkerson – ex-chefe de gabinete do secretário de Estado Colin Powell -, o documentário fornece material extenso e impactante. Programa imperdível.
(Neusa Barbosa)

Sessões:
Cinemateca Brasileira – Sala Grande Otelo (SP) – 13/4/2023, 14h
NET Botafogo (RJ)
– 14/4/2023, 14h
NET Rio – sala 3 (RJ) – 20/4/2023, 15h30
IMS Paulista (SP) – 23/4/2023, 19h30


Casa Silenciosa
Dirigido pelos irmãos Farnaz e Mohammadreza Jurabchian, o documentário iraniano percorre registros cinematográficos de várias gerações de uma família que viveu o final do reinado do xá Reza Pahlevi e os efeitos da Revolução de 1979, conduzida pelo aiatolá Khomeini.

A casa em questão, que é o cenário preferencial, não é mesmo uma casa familiar qualquer. Pertenceu à rainha consorte Esmat ol-Molouk, mãe de Reza Pahlevi, e foi comprada pelo avô dos cineastas. Nessa ampla residência impregnada de História, em Teerã, teria havido inclusive um encontro secreto, em 1943, entre Stálin, Roosevelt e Churchill.

Alternando muitas imagens familiares, registradas pelas câmeras de parentes e deles mesmos, além de materiais de arquivo, os irmãos intercalam suas histórias pessoais com os acontecimentos dramáticos que mudaram nas últimas décadas a face do Irã. Nassrin, mãe deles, foi uma fervorosa revolucionária de primeira hora, com a queda do xá, conhecido por sua corrupção, sujeição aos interesses norte-americanos e também pelas prisões e torturas aos seus opositores. Mas a Revolução trouxe também a falência do pai de Nassrin, obrigado pelos novos ocupantes do poder a comprar novamente a casa da família, o que o levou à falência.
Outras decepções se seguiram na vida de Nassrin, uma mulher ativa, que teve uma editora e livraria e também ousou apresentar uma candidatura à presidência num país em que mulheres não podiam ser juízas.

Acompanhando os destinos da família e também da casa, o filme oferece um retrato a sangue quente de um país dividido entre muitos ideais, paixões, desastres e desencontros. (Neusa Barbosa)

Sessões:
Cinemateca Brasileira – Sala Grande Otelo (SP) – 13/4/2023, 16h30
NET Botafogo (RJ) – 21/4/2023, 17h
NET Rio – sala 3 – 21/4/2023, 20h30
IMS Paulista (SP) – 23/4/2023, 17h

Mais detalhes sobre os filmes e mostras, no site do festival.