Festival É Tudo Verdade inicia sua 28ª. edição em S. Paulo com o filme "Subject"
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- 12/04/2023
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Começa hoje, com sessões para convidados em São Paulo, a 28ª. edição do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários. Em São Paulo, a abertura será no Cine Marquise, com o filme Subject, de Jennifer Tiexiera e Camila Hall. No Rio, o festival se inicia na quinta (13/4), na Estação NET Botafogo, com o filme 1968 – Um Ano na Vida, de Eduardo Escorel. O festival se estende até 23 de abril nas duas cidades, com programação gratuita em diversas salas.
O filme
Em Subject, As diretoras Jennifer Tiexiera e Camilla Hall voltam sua reflexão num sentido pouco explorado no fascinante Subject, em que focalizam os efeitos, não raro dramáticos, que documentários produzem sobre a psique, a existência e o futuro de pessoas que foram personagens desses filmes.
A partir de entrevistas com vários desses personagens e também realizadores e produtores, o filme constrói uma indagação ética do documentário, apoiando-se em diversos casos concretos. As perguntas são tão ou mais instigantes do que as respostas: como ter retratada a própria história num filme impacta a própria vida, no presente ou no futuro? Os personagens de documentários devem ou não ser remunerados por figurarem neles? Quais são os riscos envolvidos a partir do momento em que se concorda em ter contada a própria história, mas não se tem o controle (nem mesmo o realizador o tem) sobre os efeitos que isso implicará?
Um dos complicadores desse contexto, por ironia, foi o próprio sucesso que documentários como Tiros em Columbine, de Michael Moore, ou A Marcha dos Pinguins, de Luc Jacquet, passaram a ter num determinado momento, produzindo boas bilheterias nos cinemas que, por sua vez, estimularam as grandes redes mundiais de streaming a produzirem filmes e/ou minisséries a partir das chamadas “histórias reais”. Uma tendência que, como um dos entrevistados define, produziu uma verdadeira “selva ética”.
A beleza deste documentário está em justamente captar suficientes opiniões em todos os sentidos. Há o caso de personagens cuja vida foi e é profundamente afetada pela exposição de episódios dolorosos, caso de Margie Ratcliff, cujo pai, o escritor Michael Peterson, chegou a ser condenado pelo assassinato da mulher, Kathleen, mãe de Margie, como descrito em The Staircase, minissérie da Netflix - uma história que já sofreu inúmeras reviravoltas e que virou objeto de outra série, esta ficcional, da HBO Max, para aflição de Margie, que gostaria de que a história de sua família pudesse ser, finalmente, esquecida.
Não muito diferente é o caso de Jesse Friedman, um dos retratados no premiado documentário Na Captura dos Friedmans, de Andrew Jarecki. Ao mesmo tempo que a realização do filme foi um dos motores da libertação de Jesse da prisão, o filme expôs a família de tal forma que Jesse, sua mãe e o irmão jamais possam aspirar a uma existência sem câmeras por perto - uma situação de alto custo pessoal, sobretudo para Jesse, que levou à ruptura de seu casamento com Lisabeth Walsh que, ironicamente, aproximou-se dele pela via do filme de Jarecki.
Há casos em que a realização de um documentário levou a que um diretor finalmente pudesse encarar seu próprio passado familiar de abusos, caso de Bing Liu, diretor de Minding the Gap. Ou que um documentário trouxesse uma liberação coletiva, como Os Irmãos Lobo, de Crystal Moselle, retratando a situação de sete irmãos da família Angulo, que foram criados em verdadeiro cativeiro pelo pai, ao lado de uma mãe, Susanne, igualmente oprimida, nutridos a uma dieta cultural de homeschooling e muitos filmes de Hollywood. A partir do filme de Moselle, os jovens viajaram pelo mundo e um deles, Mukunda Angulo, hoje com 28 anos, tornou-se ele mesmo cineasta.
Uma história menos feliz é a do câmera egípcio Ahmed Hassan, que filmou boa parte da revolta na praça Tahir, no Cairo, em 2011, e que figurou em The Square, da diretora Jehane Nouhaim, que acabou indicado ao Oscar 2014. Personagem da linha de frente naqueles dias, Ahmed chegou a ser atingido por um tiro e hoje vive em Istambul, sem condições políticas de retornar ao seu país. Seu sonho de continuar a trabalhar com cinema, no entanto, está temporariamente interrompido: ele teve que vender sua câmera para continuar sobrevivendo no exílio.
Além da sessão de abertura em S. Paulo, o filme terá duas outras sessões no Rio: uma na quinta (20/4), às 14h, e outra no domingo (23/4), na sala NET Botafogo.
O festival
O festival exibirá 72 filmes, entre curtas, longas e médias-metragens, além de incluir sessões em streaming, conferências e debates. Os filmes vencedores das competições brasileiras e internacionais de longas/médias e também de curtas-metragens estão automaticamente classificados para apreciação na disputa do Oscar de 2024. A cerimônia de encerramento será no sábado (22/4), às 18h, na Cinemateca Brasileira, com reapresentações dos premiados tanto no Rio como em São Paulo no dia 23.
Ciclos especiais
Na programação, estão destacadas homenagens a Humberto Mauro (1897-1983), com a exibição de dez de seus filmes e dois documentários do pioneiro mineiro, e também a Jean-Luc Godard, de quem serão exibidos oito episódios de sua série História(s) do Cinema (1987-1998).
De 17 a 23 de abril, o Sesc Digital exibirá em streaming dois filmes da mostra Foco Latino-Americano – Beleza Silenciosa, de Jasmin Maria López, e Hot Club de Montevideo, de Maximiliano Contenti. Na plataforma Itaú Cultural Play, entre 24 e 30 de abril, serão apresentados sete curtas da competição brasileira.
O ciclo de palestras O Arquivo no Documentário será realizado nos dias 17 e 18 de abril no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc. No dia 16 de abril, em parceria com o Spcine, o Centro Cultural São Paulo sedia a masterclass com o cineasta Cristiano Burlan, que estreia entre as projeções especiais do festival seu novo documentário Antunes Filho, Do coração para o Olho.
Mais detalhes sobre os filmes e mostras, no site do festival.
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