Um dia de personalidades originais
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 19/04/2023
- Tempo de leitura 11 minutos
COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Santino
Dirigido pelo cineasta e artista plástico Cao Guimarães, Santino é um documentário de delicada beleza visual, numa fotografia pálida, assinada pelo próprio diretor e o produtor do filme, Beto Magalhães. Tal qual seus longas Alma do Osso e Andarilho, o diretor mergulha no sertão mineiro, um espaço à Guimarães Rosa, marcado pela paisagem e por figuras peculiares.
Quem dá nome ao filme é Santino Lopes Araújo, um homem, que, na primeira cena, aparece cuidando de um cemitério e contando um pouco da história do lugar. Logo entra em questões metafísicas, quando perguntado se gostaria de ser enterrado ali. Esse começo já dá o tom do filme todo, esse diálogo entre o histórico material e o espiritual, uma característica tão forte nesse personagem.
Guimarães dá espaço, primeiramente, para Santino falar suas histórias, sua cosmovisão, como por exemplo, este planeta é uma escola, para onde outros 12 planetas enviam pessoas para estudar. Em meio a essas histórias, ele toca também em questões mais terrenas, como os falsos pastores e como o dinheiro acabou entrando nas religiões.
É muito fácil entender como Guimarães se deixa levar pela fala de Santino. Ele é carismático, conta suas histórias sem titubear, com segurança e riqueza de detalhes. Às vezes, é um pouco confuso, ele mesmo se contradiz, nas nem por isso se torna menos sedutor em seus causos extraterrenos.
O contraponto a isso está em Maria Cristina, mulher de Santino e muito mais pé no chão do que ele. Ela, por exemplo, não deixa que as duas filhas adolescentes consumam as plantas que o pai garante curar diversos males.
Não há nada de uma religião institucionalizada em Santino. Ele combina crenças, misticismos e invenções para criar sua própria narrativa espiritual, que comunga também do mundo material. Também nesse sentido, ele é uma figura fascinante. Na televisão, ele assiste a um filme que fala sobre a criação do mundo. Seria um programa ligado à sua visão do mundo? Não, é o filme Lanterna Verde, mais uma vez nos lembrando que a linha entre o fantástico e o real é bastante tênue. (Alysson Oliveira)
Sessões:
Cine Marquise (SP) - 20/04/2023 às 20h30
NET Rio - Sala 3 (SP) - 20/04/2023 às 18h00
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 21/04/2023 às 19h00
Morcego Negro
O documentarista Chaim Litewski está sempre interessado em esmiuçar momentos obscuros ou mal resolvidos da história do Brasil. Foi assim com seu Cidadão Boilesen, premiado no É Tudo Verdade de 2009, sobre o famoso empresário dinamarquês radicado no Brasil, notoriamente um dos financiadores da repressão na ditadura.
Dirigindo ao lado de Cleisson Vidal, em Morcego Negro ele faz uma investigação detalhada da morte de PC Farias, empresário e chefe de campanha de Fernando Collor de Mello na eleição presidencial de 1989, assassinado em 1996, num caso até hoje nebuloso. Composto de vários depoimentos, inclusive do ex-presidente que sofreu impeachment em 1992, o documentário, é, no fundo, um questionamento sobre tênue e perpétua relação entre dinheiro e campanhas políticas no Brasil.
Um homem que acendia charutos com dinheiro, ex-professor de latim e francês num colégio, um sujeito abjeto, um homem de muitas qualidades... são todas frases que pululam na abertura do filme. Depoimentos que expõem a figura contraditória que era PC. O mais cínico, no entanto, é o de Fernando Collor, comparando o ex-amigo aos corruptos da atualidade, e decretando: “Ele foi um anjo.” Com um rico material jornalístico de arquivo, o longa é um retrato impressionante.
PC conheceu Collor no final dos anos de 1970, definindo-o como “uma pessoa brilhante”. Era uma figura que se esforçava para ser refinada – como conta Thereza Collor de Mello, viúva de Pedro Collor, irmão de Fernando, em cujo casamento ele foi padrinho. “Morcego Negro”, aliás, era o nome do avião particular de Farias.
Ao colocar ao centro um dos assassinatos mais famosos da história do país, o filme flerta com um gênero em voga, o do “crime verdadeiro”, mas a questão é mais complexa do que os retratos de psicóticos despejados semanalmente na Netflix.
Os depoimentos se complementam, se contradizem, jogam novas peças no tabuleiro. Suzana Marcolino, namorada de PC na época, foi encontrada morta ao lado dele. Badan Palhares se tornou o legista mais famoso do Brasil ao concluir que o crime foi um assassinato seguido de suicídio. Suzana teria matado o namorado e se suicidado em seguida. Essa versão de crime passional, no entanto, foi logo contestada. Outro legista, George Sanguinetti, levanta outra hipótese: havia uma terceira pessoa no quarto.
Mas, como bem lembra Xico Sá no filme, havia inúmeros elementos em questão: impeachment, sobra de dinheiro de campanha, depoimento de PC na CPI das empreiteiras, que seria dali a quatro dias – o crime pode estar ligado a tudo isso. “O romance policial é muito vasto”, decreta o jornalista.
Morcego Negro, ao fim, nos lembra que alguns crimes jamais serão esclarecidos de verdade – especialmente um como esse envolvendo tanto dinheiro, um possível elo com o narcotráfico internacional e figuras tão notórias.
Mas, enquanto documentário, Litewski e Vidal dão uma lição sobre filme investigativo, cuja narrativa é construída com sagacidade, num ritmo de suspense. (Alysson Oliveira)
Mas, enquanto documentário, Litewski e Vidal dão uma lição sobre filme investigativo, cuja narrativa é construída com sagacidade, num ritmo de suspense. (Alysson Oliveira)
Últimas sessões:
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 20/04/2023 às 19h00
NET Botafogo (RJ) - 20/04/2023 às 20h00
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Little Richard – Eu Sou Tudo
O documentário de Lisa Cortés abraça uma tarefa e tanto: dar conta o melhor possível de captar o furacão caleidoscópico chamado Little Richard (1932-2020). Cantor, compositor, pioneiro negro do rock’n’roll e da cultura queer em plenos e repressivos anos 1950, no sul segregado dos EUA, Richard Penniman não só foi energicamente inovador como sistematicamente reduzido nos registros – a história da música norte-americana e mundial ainda não lhe deu devidamente todos os créditos merecidos.
Em parte este relativo descaso apoiou-se no pretexto das contradições do próprio Richard – que, em algumas fases da vida, mergulhou em todos os excessos, incluindo o uso de drogas, em outras, recorreu à religião, inclusive estudando teologia numa universidade altamente conservadora e afastando-se momentaneamente da carreira pop, em que ele brilhava com seus shows performáticos e figurinos incríveis, passando a gravar apenas gospels.
A diretora faz um uso bastante eficaz de seus materiais de arquivo, que mostram shows e entrevistas de Richard – cujas performances nessas ocasiões mostravam o entertainer instintivo e provocador que era. E também alinha uma série de entrevistas, com músicos que o acompanharam, produtores musicais e estudiosos que contribuem enormemente para um entendimento mais amplo daquele cometa de talento e originalidade que o artista foi, ressaltando o papel desempenhado pelo racismo em várias situações de sua vida – inclusive numa valorização pública bem maior de artistas brancos, como Elvis Presley e Pat Boone. Suas apresentações, por sua vez, não deixarão nenhum espectador indiferente. Dá vontade de sair dançando. (Neusa Barbosa)
Sessões:
IMS Paulista (SP) – 20/4/2023 às 17h
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 21/04/2023 às 13h
NET Botafogo (RJ) - 22/04/2023 às 17h
Não-alinhados: Cenas dos rolos de Labudovic
A diretora Mila Turajlic resgata um pedaço marcante da história da antiga Iugoslávia – que ainda existia quando ela nasceu, em 1979 – e extrai, de uma mistura de memórias do país e das suas próprias, uma reflexão sobre a geopolítica mundial que vale a pena percorrer.
O inusitado é que ela tenha conseguido traçar este percurso que vem dos anos 1960 até agora com a ajuda de um personagem ainda vivo, testemunha de toda esta história: o câmera Stevan Labudovic. Lúcido aos 88 anos, Labudovic torna-se um elemento-chave para que a cineasta consiga decifrar algumas circunstâncias por ele retratadas nos muitos rolos de um arquivo estatal em Belgrado – hoje capital da Sérvia -, justamente ele, que era um dos cinegrafistas de confiança do antigo dirigente da Iugoslávia, Josip Broz Tito.
Comunista que rompeu com a URSS, criando uma linha independente, Tito procurou criar um bloco de poder alternativo, os chamados Não-Alinhados, reunindo países da Ásia, África e América Latina, cujo auge ocorreu numa conferência realizada em seu país em 1961. Imagens dessa conferência e das muitas viagens de Tito para angariar o apoio desses países ficaram guardadas nesse arquivo de Belgrado, muitas jamais tendo vindo à luz antes. O filme de Mila tem o mérito de permitir a revisão não só de desses episódios, como de dar conta de uma tendência que volta a ficar em evidência na geopolítica mundial: a tentativa de formação de um bloco alternativo de poder às superpotências, iniciativa em que Tito foi pioneiro. E a diretora não deixa de destacar que o próprio esfacelamento da Iugoslávia, numa sangrenta guerra civil nos anos 1990, 10 anos após a morte de Tito, pode ter tido nisso uma de suas causas. (Neusa Barbosa)
Última sessão:
IMS Paulista (SP) – 20/4/2023 às 14h30
Godard Cinema
Exibido na seção Clássicos no Festival de Veneza 2022, o documentário do cineasta francês Cyril Leuthy mergulha no enorme oceano que foi a passagem de Jean-Luc Godard (1930-2022) pelo mundo do cinema. Sem pretensões a esgotar seu tema, o diretor alinha as principais vertentes de uma vida e obra que marcaram a sétima arte de maneira indelével e definitiva, quase sempre para o bem – porque, até quando errava, Godard era capaz de apontar algum rumo interessante de explorar.
Além de informar alguns inevitáveis dados biográficos sobre a família Godard – com quem o cineasta teve que romper, na juventude, para escolher o cinema -, o filme se dedica bem mais, felizmente, às fases de sua carreira, movida por uma sofreguidão que o levou a fazer um filme atrás do outro, a partir do incendiário
Acossado
(1960), que lhe deu um Urso de Prata em Berlim, marcando a passagem da Nouvelle Vague.
Acossado
(1960), que lhe deu um Urso de Prata em Berlim, marcando a passagem da Nouvelle Vague.
Criando sua própria lenda, também por um temperamento instável, como assinala com muita precisão o documentarista, Godard alinhou títulos incontornáveis, como
O Pequeno Soldado,
A Chinesa,
Duas ou Três Coisas que eu Sei Dela,
Weekend, e muitos outros, que não só exprimiram suas inquietações, inclusive políticas, como apresentaram diversas atrizes marcantes, suas musas: caso de Anna Karina, que foi sua mulher, Marina Vlady, Macha Méril e Julie Delpy, as três últimas entrevistadas no filme.
O Pequeno Soldado,
A Chinesa,
Duas ou Três Coisas que eu Sei Dela,
Weekend, e muitos outros, que não só exprimiram suas inquietações, inclusive políticas, como apresentaram diversas atrizes marcantes, suas musas: caso de Anna Karina, que foi sua mulher, Marina Vlady, Macha Méril e Julie Delpy, as três últimas entrevistadas no filme.
Acompanhando a imensa carreira de Godard, que se estendeu por cerca de 140 filmes, o documentário assinala, igualmente, seus sucessos e fracassos, suas múltiplas reinvenções e sua insaciável curiosidade pelas novidades técnicas, que o moveram em inúmeras experimentações. Certamente, tão cedo não haverá outro como ele. (Neusa Barbosa)
Última sessão:
IMS Paulista (SP) – 20/4/2023 às 19h30
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