As sombras de PC Farias
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 18/04/2023
- Tempo de leitura 7 minutos
COMPETIÇÃO BRASILEIRA

Morcego Negro
O documentarista Chaim Litewski está sempre interessado em esmiuçar momentos obscuros ou mal resolvidos da história do Brasil. Foi assim com seu Cidadão Boilesen, premiado no É Tudo Verdade de 2009, sobre o famoso empresário dinamarquês radicado no Brasil, notoriamente um dos financiadores da repressão na ditadura.
Dirigindo ao lado de Cleisson Vidal, em Morcego Negro ele faz uma investigação detalhada da morte de PC Farias, empresário e chefe de campanha de Fernando Collor de Mello na eleição presidencial de 1989, assassinado em 1996, num caso até hoje nebuloso. Composto de vários depoimentos, inclusive do ex-presidente que sofreu impeachment em 1992, o documentário, é, no fundo, um questionamento sobre tênue e perpétua relação entre dinheiro e campanhas políticas no Brasil.
Um homem que acendia charutos com dinheiro, ex-professor de latim e francês num colégio, um sujeito abjeto, um homem de muitas qualidades... são todas frases que pululam na abertura do filme. Depoimentos que expõem a figura contraditória que era PC. O mais cínico, no entanto, é o de Fernando Collor, comparando o ex-amigo aos corruptos da atualidade, e decretando: “Ele foi um anjo.” Com um rico material jornalístico de arquivo, o longa é um retrato impressionante.
PC conheceu Collor no final dos anos de 1970, definindo-o como “uma pessoa brilhante”. Era uma figura que se esforçava para ser refinada – como conta Thereza Collor de Mello, viúva de Pedro Collor, irmão de Fernando, em cujo casamento ele foi padrinho. “Morcego Negro”, aliás, era o nome do avião particular de Farias.
Ao colocar ao centro um dos assassinatos mais famosos da história do país, o filme flerta com um gênero em voga, o do “crime verdadeiro”, mas a questão é mais complexa do que os retratos de psicóticos despejados semanalmente na Netflix.
Os depoimentos se complementam, se contradizem, jogam novas peças no tabuleiro. Suzana Marcolino, namorada de PC na época, foi encontrada morta ao lado dele. Badan Palhares se tornou o legista mais famoso do Brasil ao concluir que o crime foi um assassinato seguido de suicídio. Suzana teria matado o namorado e se suicidado em seguida. Essa versão de crime passional, no entanto, foi logo contestada. Outro legista, George Sanguinetti, levanta outra hipótese: havia uma terceira pessoa no quarto.
Mas, como bem lembra Xico Sá no filme, havia inúmeros elementos em questão: impeachment, sobra de dinheiro de campanha, depoimento de PC na CPI das empreiteiras, que seria dali a quatro dias – o crime pode estar ligado a tudo isso. “O romance policial é muito vasto”, decreta o jornalista.
Morcego Negro, ao fim, nos lembra que alguns crimes jamais serão esclarecidos de verdade – especialmente um como esse envolvendo tanto dinheiro, um possível elo com o narcotráfico internacional e figuras tão notórias.
Mas, enquanto documentário, Litewski e Vidal dão uma lição sobre filme investigativo, cuja narrativa é construída com sagacidade, num ritmo de suspense. (Alysson Oliveira)
Mas, enquanto documentário, Litewski e Vidal dão uma lição sobre filme investigativo, cuja narrativa é construída com sagacidade, num ritmo de suspense. (Alysson Oliveira)
Sessões:
Cine Marquise (SP) - 19/04/2023 às 20h30
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 20/04/2023 às 19h00
NET Botafogo (RJ) - 20/04/2023 às 20h00
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 21/04/2023 às 18h00
O ESTADO DAS COISAS
Rua Aurora – Refúgio de todos os Mundos
O cineasta pernambucano Camilo Cavalcante capta o espírito caleidoscópico da paulistana Rua Aurora, no centro velho da capital paulista, equilibrando seu retrato numa galeria de personagens múltiplos e singulares. Fazem parte dessa galeria um travesti, um vendedor ambulante, um alfaiate, uma dona de pensão, um saxofonista que toca na rua, um entregador de água que quer ser funkeiro, um dono de bar, moradores de rua, uma ex-atriz e vários estrangeiros, especialmente africanos, que hoje compõem parte significativa da população local. A partir de seu olhar sensível para identificar o humano e a beleza entre muita degradação, o diretor entrega um perfil de uma rua repleta de histórias e que, como poucas, simboliza a natureza mutante das metrópoles e a renitente resistência da criatividade e da vida, até onde menos se espera. (Neusa Barbosa)
Sessões:
Cine Marquise (SP) – 19/4/2023 às 16h
NET Rio – sala 4 – 20/4/2023 às 16h30
REPRISE
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
Incompatível com a vida
Dirigido por Eliza Capai, este é um filme de uma força incomum. É também um documentário ao mesmo tempo, doloroso e libertador, trazendo, a partir de experiências pessoais, uma discussão que deve ser de âmbito nacional e está mais do que na hora de ser encarada de frente.
O que começa como um simpático, embora aflitivo, documentário sobre a gravidez, no caso, da própria diretora no começo da pandemia, logo se transforma num retrato pessoal e altamente político sobre o direito ao aborto. Pouco tempo depois de se descobrir grávida, Eliza recebe o diagnóstico da condição de seu filho ainda não nascido: uma má formação cerebral impede que a criança sobreviva ou, nas palavras do médico durante um ultrassom, “é incompatível com a vida”.
A dolorosa jornada de Eliza e seu companheiro na época, o fotógrafo português João Pina, torna-se o centro do filme, mas o documentário vai além: traz histórias de outras mulheres que enfrentaram problemas parecidos e precisavam passar por um aborto legalizado.
A primeira coisa que se percebe, praticamente de todas as histórias, é que realizar o procedimento não é nada simples. É preciso uma autorização judicial, e isso depende de trâmites burocráticos que, por diversos motivos (até má vontade) podem demorar, excedendo o período legal seguro para o aborto. Nesse caso, é preciso continuar com a gestação de uma criança que não sobreviverá.
Eliza, que viveu o drama na pele, é sensível o bastante para abrir espaço para suas entrevistadas e entrevistados compartilharem suas histórias sem pressa, no seu próprio ritmo de percepção e da forma como conseguem lidar. Enquanto isso, o filme discute com profundidade e competência como funciona o aborto no Brasil.
As histórias são as mais variadas e alguns fatos, impressionantes. Por exemplo, não é qualquer hospital que está preparado para o procedimento, ou ainda a instituição ou a equipe médica podem simplesmente recusar-se a fazer, ainda que com autorização judicial. Histórias como essas apenas expõem a importância da discussão da legalização do aborto em todos os casos no Brasil, e também eliminando a burocracia que torna ainda mais moroso o processo nos casos em que é admitido.
Entrecortadas com as entrevistas, estão cenas da gravidez da diretora e de sua jornada, trazendo à tona questionamentos pessoais e até filosóficos sobre a vida e a maternidade. Num país assumidamente machista como o Brasil, Incompatível com a vida é um documentário corajoso e necessário. A bravura de Eliza em seguir em frente com o projeto, mesmo com sua gravidez complicada, é de uma generosidade imensa. O resultado é um filme pujante e, ao mesmo tempo, delicado em sua compreensão da complexidade das escolhas que a vida, às vezes, nos impõe.
(Alysson Oliveira)
(Alysson Oliveira)
Última sessão:
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 19/04/2023 às 19h00
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