A competição de Chopin e João Paulo II no Vidigal
- Por Alysson Oliveira e Neusa Barbosa
- 17/04/2023
- Tempo de leitura 10 minutos
COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Pianoforte
Pianoforte é uma espécie de Big Brother da música erudita. Dirigido pelo polonês Jakub Pitek, o documentário tem como cenário a Competição Internacional Chopin de Piano, que acontece em Varsóvia a cada 5 anos. É uma disputa acirrada e exigente, e nem sempre há um ganhador ou ganhadora – nos anos de 1990, 1995 e 2005, ninguém venceu.
O filme acompanha alguns dos competidores e competidoras e, como um reality show de televisão, a montagem é extremamente importante na criação das narrativas individuais de cada pianista. Cada um ou uma tem uma relação particular com o piano e Chopin. Eles e elas vêm de lugares diferentes, com idades e formações distintas. O filme destaca elementos marcantes de suas personalidades, o que faz o público do longa se apegar ou não.
Ao todo, são 87 inscritos e apenas 12 conseguem chegar à final depois de 3 etapas. O adolescente chinês Hao Rao é o mais jovem e extremamente dedicado, mas sua juventude e inexperiência podem pesar contra. Já a italiana Leonora Armellini gosta de tocar Metálica no piano entre uma sonata e uma valsa. A russa Eva Gevorgyan é tida com uma loira platinada misteriosa que pouco se mistura com os outros. A também italiana Michelle Candotti é a mais simpática, é mais pés no chão. Por fim, há o polonês Marcin Majchrowski, que desponta como uma espécie de vilão egocêntrico, e o ítalo-esloveno Alexander Gadjiev, ele mesmo já uma estrela do mundo dos pianistas - e o filme o trata como tal.
Acompanhamos, então, as preparações, os momentos de aflição e alegria desse grupo de participantes. Num lance que o filme gosta de expor algumas vezes, Majchrowski assiste em diversos momentos o anúncio no qual seu nome aparece como aprovado para a segunda fase. Dessa forma, o documentário expõe seu lado egocêntrico.
Hao sai do filme como o mais querido. Impossível não torcer por ele, em sua inocência e paixão, tornando-se o inesperado herói aqui. Sua dedicação é comovente mas, ao mesmo tempo, há algo de aflitivo na obsessão de sua mãe, o tempo todo com ele, a lembrá-lo de que precisa praticar para vencer.
É uma competição extremamente difícil, na qual uma nota fora do lugar significa a eliminação. O que leva esses jovens a se submeterem a isso? As respostas são várias, e algumas emergem ao longo do filme. E é Candotti que aponta a mais coerente: uma vitória irá alavancar a carreira e garantir um futuro financeiro. O filme toca de leve a questão de quão peculiar é transformar a arte numa competição. Não é bem isso que interessa a Pi?tek, mas o que Pianoforte tem a revelar é um lado contemporâneo perverso, mostrando que o discurso da meritocracia nunca é verdadeiro. (Alysson Oliveira)
Sessões:
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 18/04/2023 às 16h30
IMS Paulista (SP) - 21/04/2023 às 17h00
NET Botafogo (RJ) - 21/04/2023 às 14h00
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 22/04/2023 às 18h00
O ESTADO DAS COISAS
Favela do Papa
Dirigido por Marco Antônio Campos Pereira, o filme resgata a história de resistência da comunidade do Vidigal, lutando contra diversas tentativas de remoção dos moradores, a partir dos anos 1970. Uma construtora teria comprado o terreno e pago a metade do preço, visando instalar ali um hotel de luxo. A luta da comunidade, recorrendo à justiça com a ajuda de juristas como Bento Rubião e Sobral Pinto, e resistindo a todo tipo de pressão – inclusive de policiais infiltrados, disfarçados de repórteres, que procuravam identificar os “subversivos” em plena ditadura militar – levou não só à vitória dos moradores como ofereceu um marco para toda a política fundiária do Rio de Janeiro.
Coroando essa luta, o papa João Paulo II visitou o Vidigal em 1980, inaugurando uma capela especialmente construída em mutirão e ganhando uma música especialmente composta para ele – que ali deixou como presente seu anel episcopal. Os materiais de arquivo desse acontecimento são particularmente eloquentes sobre esse episódio marcante das lutas populares. (Neusa Barbosa)
Sessões:
Cine Marquise (SP) – 18/4/2023 às 16h
NET Rio – sala 4 – 19/4/2023 às 16h30
REPRISES
COMPETIÇÃO BRASILEIRA
171
O que leva uma pessoa comum a se envolver com estelionato, mais conhecido popularmente como 171? É essa a pergunta da qual parte o novo documentário de Rodrigo Siqueira, já premiado no É Tudo Verdade, com
Terra Deu, Terra Come, em 2010, para investigar uma dinâmica de negociação marcada pela mentira.
Terra Deu, Terra Come, em 2010, para investigar uma dinâmica de negociação marcada pela mentira.
São seis figuras variadas, desde um ator a um padre, cujas vidas, em algum momento, foram marcadas pela aplicação de golpes. Os motivos que levam a isso são os mais variados, às vezes, nem ficam claros. Apenas acontece. Sem cair em julgamentos morais, o documentário resgata essas histórias de vida e a busca pela redenção após o(s) golpe(s).
Se no princípio é isso que o filme mostra, depois de um tempo surge outro dispositivo, como em
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho -
a quem o longa é dedicado. Em meio às histórias de corrupção, há verdades e mentiras, fatos e ficções. E o sexteto de entrevistados – todos encarcerados por motivos diversos, mas enquadrados como 171 – atua partindo do poder da palavra, a principal ferramenta de um estelionatário.
Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho -
a quem o longa é dedicado. Em meio às histórias de corrupção, há verdades e mentiras, fatos e ficções. E o sexteto de entrevistados – todos encarcerados por motivos diversos, mas enquadrados como 171 – atua partindo do poder da palavra, a principal ferramenta de um estelionatário.
O documentário
171
traz a sintonia entre a forma e o conteúdo. Seus personagens contando histórias reais ou não – jamais saberemos – “aplicam” golpes no público do documentário. E assim o filme prova sua tese: somos todos passíveis de nos tornarmos vítimas.
171
traz a sintonia entre a forma e o conteúdo. Seus personagens contando histórias reais ou não – jamais saberemos – “aplicam” golpes no público do documentário. E assim o filme prova sua tese: somos todos passíveis de nos tornarmos vítimas.
O ato de narrar sempre foi uma questão central nos documentários do diretor. Em
Terra Deu, Terra Come, intercalam-se memórias e ficções na figura do garimpeiro Pedro de Almeida, um dos últimos conhecedores dos vissungos, cantigas em dialeto cantadas durante os rituais fúnebres do interior de Minas Gerais. Em
Orestes, o cineasta busca uma narrativa ainda mais antiga, a peça grega de Ésquilo, na qual Orestes mata o próprio pai, e o filme faz o seu julgamento. Mas, a partir disso, o documentário investigava a tortura no Brasil na época da ditadura civil-militar.
Terra Deu, Terra Come, intercalam-se memórias e ficções na figura do garimpeiro Pedro de Almeida, um dos últimos conhecedores dos vissungos, cantigas em dialeto cantadas durante os rituais fúnebres do interior de Minas Gerais. Em
Orestes, o cineasta busca uma narrativa ainda mais antiga, a peça grega de Ésquilo, na qual Orestes mata o próprio pai, e o filme faz o seu julgamento. Mas, a partir disso, o documentário investigava a tortura no Brasil na época da ditadura civil-militar.
Aqui, ao colocar as narrativas mentirosas ao centro, o filme vai, como tantas obras, questionar um tema importante do presente: as fake news, que, como narrativas estelionatárias, são sedutoras. Para que funcionem, assim como os 171, é preciso que incorporem uma dose de verdade, embalada pela mentira, que é o que mais importa. “O poder da palavra é mais forte do que o poder da imagem”, diz um entrevistado. Essa é a tese que o filme tenta provar – e consegue – o tempo todo. (Alysson Oliveira)
Última sessão:
Cine Marquise (SP) - 18/04/2023 às 20h30
Nada sobre meu pai
Renomada diretora de filmes como Torre das Donzelas, Susanna Lira parte de uma questão pessoal em Nada sobre meu pai: a busca por seu pai equatoriano, que nunca conheceu, e sobre quem ela não sabe quase nada. De seu conhecimento, apenas que, na década de 1970, ele veio para o Brasil lutar contra a ditadura, teve um relacionamento rápido com a mãe dela e depois desapareceu.
Munida de sua câmera, Susanna viaja ao Equador com essas poucas informações em busca desse homem, cujo nome real ela nem tem certeza se sabe. Chegando lá, procura veículos de imprensa, coloca anúncio em jornal e se torna uma espécie de celebridade local quando sua causa é acolhida, praticamente, por todo o país, depois que aparece na televisão.
Mesmo sendo sobre uma questão séria e dolorosa para ela, Susanna coloca o filme num tom bastante positivo. É um road movie que descortina um país vizinho do Brasil de forma sagaz pelo viés pessoal. A busca por seu pai é uma busca também por sua própria identidade, e, mesmo que eventualmente não o encontre, ela saberá um pouco mais sobre si mesma ao entrar em contato com a cultura local.
Mas o que mais chama a atenção dela, como fica claro, é a acolhida carinhosa que Susanna recebe das pessoas que simpatizam com sua causa. Surgem em cena possíveis pais, e, com eles, possíveis parentes, com os quais, de forma bem humorada, ela compartilha semelhanças. Uma candidata a prima, por exemplo, fica encantada que as duas sofram de enxaquecas. “Está nos genes”, decreta.
É em lances como esse que o filme se torna um belo painel humanista sobre as pessoas e os laços que as unem. Ou sobre aquilo que faz de nós humanos compartilhando o mesmo mundo numa mesma época. Susanna encontra semelhanças pessoais e históricas entre os dois países que enfrentaram ditaduras e diversas crises econômicas e políticas.
A riqueza cultural do Equador não passa despercebida, assim como o seu povo. Entre alegrias e dificuldades, em Nada sobre meu pai Susanna realiza um filme que traduz o sentimento de pura latinidade – um continente que só teria ganhos em se unir. (Alysson Oliveira)
Última sessão:
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 18/04/2023 às 19h00
O ESTADO DAS COISAS
The Natural History of Destruction
Exibido em Sessão Especial, fora de competição, no Festival de Cannes 2022, o documentário do premiado cineasta ucraniano Sergei Loznitsa não se se refere diretamente à guerra que abala seu país há mais de um ano, mas certamente comenta nas entrelinhas o contexto geral do espírito bélico em todos os tempos.
Sem narração ou entrevistas, valendo-se apenas de materiais de arquivo, como fez várias vezes em sua carreira, Loznitsa retrata os intensos bombardeios da II Guerra Mundial, expondo os efeitos devastadores das bombas alemãs lançadas de aviões sobre a França e Inglaterra e também a destruição produzida pelos aviões dos Aliados sobre cidades alemãs - como Lubeck, Rostock e Colônia, que foram praticamente varridas do mapa.
A ideia, certamente, não é tomar partido por nenhum dos lados e sim mostrar o processo de aniquilamento por trás de toda e qualquer guerra - inclusive com foco em suas terríveis consequências, retratando-se os cadáveres alinhados ao longo das estradas, a retirada dos refugiados e o sofrimento infligido à população civil.
Embora Loznitsa já estivesse fazendo este documentário quando a guerra na Ucrânia começou, trata-se evidentemente de uma tomada de posição sobre o pesadelo que está acontecendo lá, aqui e agora. Por isso, seu filme ressoa tão forte e urgente.
(Neusa Barbosa)
(Neusa Barbosa)
Sessões:
CCSP – Lima Barreto (SP) – 18/4/2023 às 19h
Cinemateca Brasileira – sala Grande Otelo (SP) – 22/4/2023 às 14h
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