21/07/2026

Recordações de famílias, países e filmes

COMPETIÇÃO BRASILEIRA


Nada sobre meu pai
Renomada diretora de filmes como Torre das Donzelas, Susanna Lira parte de uma questão pessoal em Nada sobre meu pai: a busca por seu pai equatoriano, que nunca conheceu, e sobre quem ela não sabe quase nada. De seu conhecimento, apenas que, na década de 1970, ele veio para o Brasil lutar contra a ditadura, teve um relacionamento rápido com a mãe dela e depois desapareceu.

Munida de sua câmera, Susanna viaja ao Equador com essas poucas informações em busca desse homem, cujo nome real ela nem tem certeza se sabe. Chegando lá, procura veículos de imprensa, coloca anúncio em jornal e se torna uma espécie de celebridade local quando sua causa é acolhida, praticamente, por todo o país, depois que aparece na televisão.

Mesmo sendo sobre uma questão séria e dolorosa para ela, Susanna coloca o filme num tom bastante positivo. É um road movie que descortina um país vizinho do Brasil de forma sagaz pelo viés pessoal. A busca por seu pai é uma busca também por sua própria identidade, e, mesmo que eventualmente não o encontre, ela saberá um pouco mais sobre si mesma ao entrar em contato com a cultura local.

Mas o que mais chama a atenção dela, como fica claro, é a acolhida carinhosa que Susanna recebe das pessoas que simpatizam com sua causa. Surgem em cena possíveis pais, e, com eles, possíveis parentes, com os quais, de forma bem humorada, ela compartilha semelhanças. Uma candidata a prima, por exemplo, fica encantada que as duas sofram de enxaquecas. “Está nos genes”, decreta.

É em lances como esse que o filme se torna um belo painel humanista sobre as pessoas e os laços que as unem. Ou sobre aquilo que faz de nós humanos compartilhando o mesmo mundo numa mesma época. Susanna encontra semelhanças pessoais e históricas entre os dois países que enfrentaram ditaduras e diversas crises econômicas e políticas.

A riqueza cultural do Equador não passa despercebida, assim como o seu povo. Entre alegrias e dificuldades, em Nada sobre meu pai Susanna realiza um filme que traduz o sentimento de pura latinidade – um continente que só teria ganhos em se unir. (Alysson Oliveira)

Sessões:
NET Botafogo (RJ) - 16/04/2023 às 20h00
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 17/04/2023 às 18h00
Cine Marquise (SP) - 17/04/2023 às 20h30
Cinemateca Brasileira - Sala Grande Otelo (SP) - 18/04/2023 às 19h00


COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

Não-alinhados: Cenas dos rolos de Labudovic
A diretora Mila Turajlic resgata um pedaço marcante da história da antiga Iugoslávia – que ainda existia quando ela nasceu, em 1979 – e extrai, de uma mistura de memórias do país e das suas próprias, uma reflexão sobre a geopolítica mundial que vale a pena percorrer.

O inusitado é que ela tenha conseguido traçar este percurso que vem dos anos 1960 até agora com a ajuda de um personagem ainda vivo, testemunha de toda esta história: o câmera Stevan Labudovic. Lúcido aos 88 anos, Labudovic torna-se um elemento-chave para que a cineasta consiga decifrar algumas circunstâncias por ele retratadas nos muitos rolos de um arquivo estatal em Belgrado – hoje capital da Sérvia -, justamente ele, que era um dos cinegrafistas de confiança do antigo dirigente da Iugoslávia, Josip Broz Tito.

Comunista que rompeu com a URSS, criando uma linha independente, Tito procurou criar um bloco de poder alternativo, os chamados Não-Alinhados, reunindo países da Ásia, África e América Latina, cujo auge ocorreu numa conferência realizada em seu país em 1961. Imagens dessa conferência e das muitas viagens de Tito para angariar o apoio desses países ficaram guardadas nesse arquivo de Belgrado, muitas jamais tendo vindo à luz antes. O filme de Mila tem o mérito de permitir a revisão não só de desses episódios, como de dar conta de uma tendência que volta a ficar em evidência na geopolítica mundial: a tentativa de formação de um bloco alternativo de poder às superpotências, iniciativa em que Tito foi pioneiro. E a diretora não deixa de destacar que o próprio esfacelamento da Iugoslávia, numa sangrenta guerra civil nos anos 1990, 10 anos após a morte de Tito, pode ter tido nisso uma de suas causas. (Neusa Barbosa)

Sessões:
NET Rio - Sala 3 (RJ) - 17/04/2023 às 13h
NET Botafogo (RJ) - 19/04/2023 às 14h
IMS Paulista (SP) – 20/4/2023 às 14h30


HOMENAGEM A GODARD

História(s) do Cinema

Qualquer pessoa minimamente familiarizada com os filmes de Jean-Luc Godard não vai se aproximar de sua série História(s) do Cinema esperando algo didático e cronológico. Conhecido por romper com o cânone, não ia ser numa obra documental que o cineasta baixaria a guarda. A quem se dispuser a entregar-se a esse documentário monumental, o resultado é extremamente recompensante.

Colagem de imagens construída ao longo de quase uma década, a série é composta de oito episódios cujas durações variam entre pouco menos de uma hora e 26 minutos, resgatando de forma temática momentos da história do cinema por um viés e olhar pessoal do diretor, homenageado pelo É Tudo Verdade neste ano.

Numa leitura muito pós-moderna, Godard retira a historicização do cinema e busca um fluxo de conexões entre eras e lugares distantes que reverberam entre si. A rica pesquisa de imagens é impressionante na montagem fragmentada, que coloca o público de forma ativa, a ponto de formar as ligações nem sempre claras. Ao fundo, a voz do próprio diretor num texto mais poético do que informativo.

Os sons, aliás, são outro desafio aqui. Nem sempre as imagens dos filmes casam com o que se ouve. Frases aleatórias em vozes inesperadas são jogadas em momentos ao acaso: “O cinema substitui nosso olhar”; “Além disso, o cinema é uma indústria”; “Para que fazer simples, se é possível complicar?” - essa em especial parece ligar-se a todo o cinema de Godard.

Cada episódio é dedicado a pessoas do cinema, passando por figuras como Glauber Rocha, John Cassavetes, Santiago Alvarez, Nicole Ladmiral e até o próprio Godard. O ego aqui não é pouco, mas é possível fazer vistas grossas a esses momentos, dada a riqueza da série que, mais do que construir, desconstrói a história do cinema. Há, infelizmente, uma centralidade europeia – em especial francesa – e estadunidense, deixando quase que de lado América Latina, África e Ásia, embora apareçam em algum momento.

O episódio mais bonito é dedicado à Nouvelle Vague, da qual o próprio Godard fez parte. Partindo de sua própria posição, ele resgata sua relação com a Cinemateca Francesa, mas também com seu colega François Truffaut, que acaba se tornando objeto de uma inesperada homenagem carinhosa.

Esse vasto panorama, que nos bombardeia de imagens, sons e textos, é exigente – requer mais de uma revisão para se compreender e captar boa parte –, mas também é um salto sem rede de proteção, repleto de riscos e adrenalina que mostra o olhar sobre o cinema de um homem claramente apaixonado por essa arte e seu ofício. E, como com tantos outros seus filmes, aqui Godard nos lega um obra-prima. (Alysson Oliveira)

Sessões:
HISTÓRIA(S) DO CINEMA - TODAS AS HISTÓRIAS
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (SP) - 17/04/2023 às 18h00
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (SP) - 21/04/2023 às 15h00

HISTÓRIAS DO CINEMA - UMA SÓ HISTÓRIA/APENAS CINEMA
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (SP) - 18/04/2023 às 18h00
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (SP) - 21/04/2023 às 18h00

HISTÓRIA(S) DO CINEMA - BELEZA FATAL/A MOEDA ABSOLUTA/UMA NOVA ONDA
NET Rio - Sala 4 (RJ) - 16/04/2023 às 16h30
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (SP) - 19/04/2023 às 18h00
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (SP) - 22/04/2023 às 15h00

HISTÓRIA(S) DO CINEMA - O CONTROLE DO UNIVERSO/OS SIGNOS ENTRE NÓS
NET Rio - Sala 4 (RJ) - 17/04/2023 às 16h30
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (RJ) - 20/04/2023 às 18h00
Cinemateca Brasileira - Sala Oscarito (RJ) - 22/04/2023 às 18h00


FOCO LATINO

Beleza Silenciosa
“Por muitos anos, a casa dos meus avós parecia o lugar mais seguro, então, deixou de ser”, afirma a diretora Jasmín Mara López em seu impressionante documentário Beleza Silenciosa. É um filme em primeira pessoa, no qual ela confronta um episódio traumático de seu passado: ser abusada sexualmente pelo avô aos 10 anos de idade. E ela não foi a única vítima dele.

Ela começa resgatando a história de sua família. Quando criança, morou com a mãe, a irmã e o irmão com os avós e os tios caçulas. Seria mais uma história de uma mãe solo tentando criar os filhos depois da separação, mas o fato que Jasmín enfrentou quando criança a marcou para sempre, e o filme se torna uma maneira de tentar lidar com esse fantasma que a persegue.

A família tinha o costume de fazer muitas imagens caseiras com uma câmera. Desses registros, vemos a jovem Jasmín, feliz em sua infância, até passar pelo episódio de abuso. Ela recorda que, como muitas vítimas, sentia-se culpada. Quando tenta confrontar o avô, no presente, ele nega, diz que são coisas que colocaram em sua cabeça.

Então, ela resolve abrir a história para toda a família. A primeira a aparecer em cena é a mãe dela, filha do avô abusador. As duas nunca tiveram uma relação muito saudável, mas, finalmente, a partir dessa revelação, mãe e filha parecem começar a se entender. Essa mesma família que era o lugar de medo, também era a sua segurança, como ela mesma diz sobre seus primos e primas na mesma época da infância.

Beleza Silenciosa é uma investigação sobre trauma e resistência, sobre os laços que se apertam e se afrouxam diante da adversidade. Jasmín é uma cineasta que conta sua história com força e sagacidade. O tema é duro e poderia cair num sensacionalismo barato, mas ela é cuidadosa com a maneira como lida com o abuso, e, em seu documentário, mais do que uma denúncia, faz um alerta. (Alysson Oliveira)

Sessões:
Sesc Digital entre 17 e 23 de abril
NET Rio - Sala 4 (RJ) - 19/04/2023 às 19h00
CCSP - Lima Barreto (SP) - 21/04/2023 às 19h00